Congresso do MST quer ser marco contra 'políticas neoliberais' do governo Lula
Publicado em 27/11/2006 16:53
No ato de abertura, dirigente do MST diz que evento terá de ser marco na resistência contra a nova fase do poder econômico no campo, fortalecido politicamente pelo incentivo estatal.
Verena Glass - Carta Maior
>>Veja álbum de fotos no site da Carta Maior>>BRASÍLIA
– Completamente tomado por militantes do MST, o estádio Nilson Nelson,
em Brasília, foi palco da abertura do maior congresso da história do
movimento, que reúne esta semana cerca de 18 mil delegados e mais de
500 convidados de várias organizações brasileiras e internacionais.
Depois
de uma longa representação teatral da realidade dos trabalhadores
rurais, da luta pela terra e dos principais preceitos políticos e
ideológicos do MST - a chamada mística -, a dirigente nacional do
movimento em Brasília, Marina dos Santos, abriu oficialmente o evento
com o posicionamento político do MST sobre os desafios para o próximo
período, visto como crucial para o futuro das lutas sociais do país.
“Com
certeza, estamos realizando o congresso no momento mais oportuno da
História e da correlação de forças na América Latina. Oportuno, porque
estamos presenciando em todo o mundo a intervenção do imperialismo
através das guerras, da invasão em países para disputar os recursos
naturais, dos organismos internacionais como o Banco Mundial, o BIRD e
o FMI. Oportuno, porque vivenciamos no Brasil, através da estrutura do
Estado burguês, a manutenção dos privilégios e a defesa dos interesses
das elites, seja através do Legislativo, Executivo ou do Judiciário”,
afirmou Marina.
Segundo a dirigente do movimento, frente à
estratégia do governo de priorização das transnacionais, às políticas
de incentivo da produção de monocultivos, à liberação e uso de
transgênicos e agrotóxicos, e à opção de tratar a Reforma Agrária como
compensação social, vem se fortalecendo no campo um novo tipo de poder
econômico que tem investido em formas de controle também dos recursos
naturais, como sementes, biodiversidade, e água, entre outros.
“Por
isso, companheirada, nosso 5º Congresso tem que ser um marco na
História da classe trabalhadora. Um marco contra o imperialismo, um
marco contra as políticas neoliberais desse governo, um marco contra as
transnacionais, um marco na luta por uma legislação que limite o
tamanho máximo da propriedade, uma certeza na orientação de Florestan
Fernandes: não se deixar cooptar, não se deixar esmagar, obter
conquistas para o povo. E, sobretudo um marco na construção de um
instrumento de luta que reacenda o movimento de massas e possibilite um
projeto político, popular, revolucionário, que resolva os problemas
sociais do povo brasileiro, da América Latina e do mundo”, conclamou
Marina.
Em um segundo momento, a dirigente do MST reforçou as
conquistas do movimento não apenas no campo político, mas também no
cultural, uma vez que a formação e a educação dos militantes é uma das
principais estratégias do movimento. “Ainda temos muito o que fazer,
enfrentar muitos desafios, mas já podemos nos honrar em ter e estar
formando nossos próprios médicos, pedagogos, agrônomos, advogados,
administradores e a militância num alto grau de consciência política e
ideológica. Aprendemos que ninguém é imprescindível, e que quem conduz
a organização de massa é o coletivo”.
Sobre a formação
política, Marina reforçou que os “inimigos sabem que, mais eficaz do
que a morte [de militantes por pistoleiros] para nos derrotar, seria a
morte de nossos valores, a morte da crença na nossa profunda
solidariedade, da nossa dedicação integral na construção de um novo
mundo para nossos filhos e filhas e para as próximas gerações. Não
tenhamos dúvidas, podem nos tirar tudo, menos os valores socialistas e
humanistas”.
“Precisamos, sobretudo, cuidar e valorizar o
nosso maior patrimônio, que é a nossa militância. Esta militância,
mesmo com todas as dificuldades e problemas, faz o MST acontecer, cuida
e constrói a base de sustentação do Movimento, que é a unidade, a
disciplina e a participação”, acrescentou Marina, e concluiu: “do ponto
de vista humanista e socialista, o MST já é patrimônio da humanidade,
por isso temos que cuidar. Nós não devemos ter medo de ser chamados de
revolucionários, porque graças à nossa luta e organização estamos vendo
milhares de pessoas que antes passavam fome, hoje se alimentarem com
fartura todos os dias. Estamos vendo centenas de pessoas que eram
analfabetas, que nunca tiveram a oportunidade de sentar num banco de
escola, hoje lendo, escrevendo, e muitos de nós freqüentando a
universidade. Estamos vendo pessoas que já estavam em um grande nível
de degradação social, hoje com os valores do amor, da solidariedade, da
cooperação, do cuidado. Gente com dignidade. Tudo isso é
revolucionário”.
“Ringue”
Enquanto o MST buscou
reafirmar o caráter evento interno do congresso, espaço destinado à
formação e ao debate político do movimento, alguns convidados na mesa
de abertura trocaram farpas.
Apesar de ser considerado um
“aliado histórico” do PT, o MST reforçou a posição de autonomia em
relação ao governo, com o qual mantém um diálogo sobre questões
agrárias como buscou fazer com todos os governos, e ao qual aplica a
máxima que “qualquer governo é como feijão duro, se não botar pressão,
não cozinha”.
Ja o dirigente nacional do PSTU e coordenador do
movimento sindical Conlutas, José Maria de Almeida, convidado para a
mesa de abertura do congresso, aproveitou o gancho das novas acusações
de irregularidades envolvendo nomes ligados ao governo para criticar o
presidente Lula e chamar ao enfrentamento, uma vez que os heróis dos
movimentos sociais continuariam sendo “os cortadores de cana, os
trabalhadores rurais e os operários” – uma alusão à eleição dos
usineiros como heróis nacionais por Lula.
Por sua vez, o
presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, criticou as
radicalidades que poderiam por em cheque uma ainda frágil unidade dos
movimentos de esquerda, que se unificaram pela primeira vez na jornada
nacional contra ataques a direitos trabalhistas e por avanços nas
políticas sociais, no último dia 23 de maio.
“Para continuarmos
a construir a unidade, teremos que romper amarras”, disse Artur,
indicando inclusive possíveis conteúdos mais radicais de textos que
seriam estudados e elaborados pelo MST em seu congresso. “Temos que
romper com sectarismos e vanguardismos para mantermos a unidade”,
concluiu.























