Como construir o futuro
Publicado em 27/11/2006 16:53
Na segunda-feira houve debate sobre o meu livro “Cabeças de Planilha”
na Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Juntou o
economista Yoshiaki Nakano e o cientista social Fernando Abrúcio.
No livro, falo dos problemas cambiais do início do Real, que
acabaram comprometendo o sucesso do plano, jogando o país em uma
estagnação que perdura até hoje, e privando-o de se beneficiar de um
dos períodos mais favoráveis da história. E comparo com os problemas
criados por Rui Barbosa no início da República, que levaram à crise do
Encilhamento (o movimento especulativo na Bolsa de Valores do Rio de
Janeiro).
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Rui teve muitas virtudes, inclusive a de ajudar a montar um
federalismo mais consistente na primeira Constituinte da República,
lembra Abrúcio. Mas cometeu um erro fatal, apontado por Oliveira
Vianna, pensador brasileiro dos anos 20. Esse mesmo erro teria sido
cometido por Fernando Henrique Cardoso com o Plano Real, no qual
Abrúcio vê muitas virtudes, mas vê como erro central o abandono da
palavra desenvolvimento.
O que Rui e FHC tinham em comum, indaga ele? Ambos não gostavam,
não acreditavam no país. Sentiam-se internacionalistas, acreditavam
apenas nas instituições internacionais e julgavam ser possível
transplantá-las a seco, conferir poder a uma classe internacionalizada,
a única que julgavam capaz de desenvolver o país. Jamais entenderam que
a construção do país é algo muito mais complexo, que não poderá nunca
prescindir do povo, dos empresários, dos trabalhadores nacionais.
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Abrúcio considera que seria muito difícil evitar os erros, porque o
país padece da ausência da chamada vontade nacional. E vê dois pontos
que explicariam a perda de oportunidade. O primeiro, uma elite social
que não é voltada para o país. Segundo, o racha que ocorreu entre PT e
PSDB, os dois únicos partidos com proposta reformista.
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Yoshiaki Nakano bateu na mesma tecla. A elite brasileira não difere
em muito das colônias romanas. Roma recrutava os melhores cérebros nas
províncias, trazia para estudar e se formar. Depois, voltavam para lá
como agentes do poder imperial.
Nakano observou a enorme dificuldade dos cientistas brasileiros –
economistas, cientistas sociais – em enxergar o país de forma
sistêmica. E, em geral, recorrer a padrões internacionais, sem
conseguir se debruçar na realidade nacional.
Lembrou que o Plano Real manteve intacto o sistema monetário criado
na época da hiperinflação. Os títulos ainda são pós-fixados. Em outras
economias, os títulos são pré-fixados. Quando o Banco Central aumenta
os juros, inflinge perdas aos bancos. E essas perdas criam resistência
a aumentos desnecessários de juros. No Brasil mantiveram-se os títulos
pós-fixados. Quando o BC aumenta os juros, automaticamente aumentam os
ativos dos bancos. Assim, cria-se uma força em favor dos juros altos.
A saída não é econômica. É começar a se desenvolver o conceito de
Nação, de interesse nacional, recuperar a auto-estima no país e nos
brasileiros. Apenas quando se aceitar a existência do conceito de
Nação, se abrirá espaço para a união de todo o país em torno de uma
proposta de desenvolvimento concreta.























