Cerrados das águas especiais
Publicado em 27/11/2006 16:53
João Vieira*
Os cerrados são como que a grande caixa d´água do
Brasil. Com efeito, é nos cerrados que nascem os caudais – tanto os
grandes (ou gigantescos) quanto os pequenos cursos d´água – que irrigam
o território pátrio. Repare nas nascentes dos afluentes amazônicos de
sua margem direita: desde o Madeira ao Tapajós e seus respectivos
alimentadores; e também o sistema Araguaia/Tocantins – todos têm suas
origens nas terras altas, ou, se quiser, nos altiplanos do sistema
ecológico constituído pelos cerrados.
Na verdade, trata-se de um gigantesco ecossistema que perfaz o
“Brasil-do-centro” ou “de dentro”, como às vezes se fala. E que dizer
do legendário caudal da integração nacional, o rio São Francisco? É
originário de montanhas e cerrados, corre nos cerrados e assim vai até
desaguar no mar que nos limita. Igualmente se passa com caudais de
porte médio, como o rio Jequitinhonha e o Rio Doce, que vão dos
cerrados e cerradões até o Oceano Atlântico.
Veja-se, ainda, o sistema Paraná/Paraguai, ou seja, a não menos
grandiosa bacia platina: os cerrados e cerradões a alimentam. E, bem a
propósito, cite-se caso das “Águas Emendadas” das proximidades de
Brasília, Distrito Federal. Algo notável porque, conforme o vento, as
águas se encaminham ou para a bacia amazônica (Araguaia/Tocantins), ou
bacia do Prata (Rio Paraná)...
Mas o notável, ou então notório, dos sistemas hidrográficos que têm
origem nas terras altas do Brasil Central são as fontes excepcionais.
Isto é, as águas especiais
que aparecem em níveis dispersos ou concentrados, na vastidão
geo-espacial dos cerrados e sua continuidade natural: as montanhas e os
pantanais.
As termais formam a maioria dessas fontes. No caso das minerais, já se
acham quase todas assumidas funcional e comercialmente, embora tenhamos
notícias de algumas no estado de sua surgência in natura,
isto é, ainda não domesticadas (pesquisadas, classificadas e
registradas) e, conseqüentemente, não assumidas para efeito de
uso/exploração “por concessão”. Acreditamos que sejam poucos os casos
nessa situação, porém ainda os há...
Exemplo de águas especiais bem assumidas é o “Circuito das Águas” do
Sul mineiro, constante dos balneários de Caxambu, Cambuquira, São
Lourenço, Lambari e também o conhecido balneário hidromineral e termal
de Poços de Caldas, com a sua afamada estrutura de serviços
hidroterápicos. Outro exemplo é o complexo balneário de Araxá, este
particularmente significativo pelos medicinais “banhos de lama”.
E há Caldas Novas e Rio Quente de Goiás, que perfazem a maior estância
balneária termal deste planeta e como tal deve ser assumida, não apenas
para uso e todos os proveitos, mas sobretudo visando à sua proteção
ecológica ou ambiental e a conservação utilitária. Registre-se um fato
insólito e intrigante: a comunidade local não tem o hábito de usufruir
desse extraordinário balneário de nicho ambiental hidrotermal único!
Coisa, certamente, a ser tomada a termo para ser retificada, corrigida
– porque sem o apoio ou entusiasmo rasgado da população residente, e de
cada cidadão em particular, não há definitivamente conservação
ecológica viável e/ou razoável!
Que se complete a menção às águas especiais do complexo ecológico dos
cerrados e cerradões – a “caixa d´água do Brasil” – inscrevendo também
as surgências termais e minerais mais para Oeste e ao Norte, ou seja,
em terras mato-grossenses e alhures, como as fontes termais de Barra do
Garças e cercanias; e também as da região de Rondonópolis/Juscimeira;
assim como a fonte das Águas Quentes da Serra, na orla pantaneira,
junto de Cuiabá e por isso mesmo plenamente aproveitada há décadas. Sem
dizer de outras fontes ainda na sua condição “in natura”, como a
surgência termal do Bambá, ou o filete sulforoso de Bom Jardim, nos
Altos da Serra, este tão reconhecido quanto solitário e abandonado! E
por fim, o caso das termas da estrada para Melgaço, já na Baixada
Cuiabana, que massacrada e aterrada por maquinaria rodoviária, como que
num protesto foi brotar no leito de um córrego ao lado!
Finalizando, cumpre ressalvar a não menção de águas termais e minerais
como as de Águas de Lindóia ou Águas de São Pedro, entre outras mais do
estado de São Paulo; e também as famosas Caldas da Imperatriz, dentre
poucas da Serra Catarinense; ou notícias de existência de um “Rio do
Calor” em nascentes amazônicas do Nortão mato-grossense. E por
derradeiro, a menção aos incontáveis jorros de águas-de-mesa ou
potáveis como as fontes exemplarmente protegidas de Chapada dos
Guimarães, nas cercanias de Cuiabá. Sejam essas e todas as demais
fontes de água limpa ou as muitíssimo especiais, reconhecidas ou
protegidas pela cota de sensatez assegurada pela consciência ecológica
e social, em plano individual ou comunitário. Assim seja!
* João Vieira, sociólogo e professor universitário, foi diretor do Museu Rondon, da Universidade Federal do Mato Grosso.























