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Você está aqui: Página Inicial Notícias Notícias Gerais 2007 Junho “Não existe reforma agrária no governo Lula”, diz MST
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“Não existe reforma agrária no governo Lula”, diz MST

Publicado em 27/11/2006 16:53

Congresso em Foco

Congresso em Foco

Para Marina dos Santos, do MST, prioridade do governo é promover o agronegócio dos grandes proprietários rurais.

Lúcio Lambranho

Reivindicação histórica da esquerda brasileira e uma das principais bandeiras do PT na eleição do presidente Lula em 2002, a reforma agrária não existe no Brasil. O assentamento de 120 mil famílias, anunciado em maio pelo governo Lula, e a meta de assentar mais 100 mil em 2007 não passam de um programa de compensação social, a exemplo do Bolsa Família.

A avaliação é de Marina dos Santos, uma das principais lideranças nacionais do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e coordenadora do congresso que a entidade promove desde ontem, até a próxima sexta-feira, em Brasília.

“Esses governos, mesmo o governo do Lula, são iguais a feijão duro. Se não botar pressão, não cozinha, e não vem para esse lado”, compara Marina, que há 18 anos integra o MST.

A comparação com o velho ditado da cozinha reflete parte dos rumos que o maior movimento social do país deve tomar daqui para frente. O encontro promovido esta semana na capital federal deve reunir 18 mil delegados do MST, no maior congresso da história da entidade.

“Teremos um MST com mais clareza dos seus objetivos e com maior intervenção em outras organizações que também estarão presentes nesse congresso. Acho que o MST sairá fortalecido de um dos maiores eventos dos últimos anos de camponeses do mundo. O nosso programa agrário muda”, afirma Marina, nesta entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.

Novo alvo

Além de fortalecer os seus tradicionais métodos, como as ocupações e os enfrentamentos no campo, os sem-terra querem, a partir de agora, voltar o foco para áreas rurais de grandes empresas, principalmente estrangeiras, do agronegócio.

“A principal mudança é que antes nosso enfrentamento era com o latifúndio. Latifúndio atrasado, representado pelo fazendeiro em cima do cavalo com espingarda na cintura. Hoje, o nosso enfrentamento não é só contra esse latifúndio, mas com empresas, bancos privados e empresas internacionais. A terra hoje está muitas vezes no mercado das ações”, explica.

Marina diz que as ocupações de terra vão continuar em todo o país enquanto o governo não iniciar um processo de reforma agrária. Reforma essa que não pode se restringir à simples distribuição de terreno, observa a dirigente, ao destacar a necessidade de se investir também em educação e infra-estrutura nos assentamentos.

“Ninguém fica quatro cinco anos embaixo de um barraco de lona porque gosta e acha bonito. Tem uma necessidade concreta de trabalho e de sobrevivência dessas pessoas”, ressalta ao criticar setores da mídia que, segundo ela, tentam criminalizar as ações dos movimentos sociais.

Resistência

Filha de pequenos agricultores que perderam suas terras no oeste do Paraná no final da década de 80, Marina recebeu, em março deste ano, a Medalha Chico Mendes de Resistência, premiação promovida desde 1989 pelo Grupo Tortura Nunca Mais.

"Conheci o MST através da igreja. Fomos rezar uma missa no domingo, acabei me juntando ao MST muito pela identificação daquele dia. Era muita gente no acampamento, uma experiência muito bonita", relembra a militante que, na época, em 1989, estudava para ser freira.

Do Paraná, Marina saiu para organizar as bases do movimento em Campos (RJ), em 1996. Durante dez anos, lidou numa área de grande concentração de terras e com a massa de desempregados das usinas de cana-de-açúcar. Das 29 que existiam na região, só restaram quatro. "Uma coisa que eu ficava impressionada e até brincava é que o Rio era a capital cultural do Brasil e, em uma hora e 40 minutos, você dava de cara com o trabalho escravo", conta.

Marina também garante que sua passagem por Brasília, onde está desde o ano passado, dever ser rápida e que não vê a hora de voltar à lida mais próxima dos integrantes MST. "Aqui há um risco da pessoa se deslocar, se distanciar de fato das bases e das origens do movimento", diz.

“Heróis”
 
Acostumada a enfrentar o latifúndio canavieiro, Marina observa com cautela a inclusão dos assentamentos na produção de biodiesel e critica a aproximação do governo com os usineiros, chamados recentemente de “heróis” pelo presidente. “Essa é a maior demonstração de que o governo já deixou claro que a prioridade é o agronegócio. E dos grandes proprietários de terras”, afirma.

Apesar de apontar avanços na relação do governo com os sem-terra e os pequenos produtores, como a implantação do programa Luz para Todos e do seguro-agrícola, Marina não poupa críticas ao presidente Lula. “Tem gente neste governo que a vida inteira defendeu a reforma agrária e agora suas ações não correspondem a esse discurso histórico. E, como exemplo, posso citar o próprio presidente, que fez discursos em defesa da reforma agrária”.

Leia abaixo, os principais trechos da entrevista:

Congresso em Foco – Você consegue comparar o nosso processo de reforma agrária com o de outros países na América do Sul?

Marina dos Santos – O Brasil nem tem processo de reforma agrária. Não dá para comparar. Nós temos uma política de assentamentos, mas que não pode ser comparada com uma política de reforma agrária.

Outros países têm esse processo de reforma agrária?

Vários países capitalistas fizeram reforma agrária até para se desenvolverem. Os Estados Unidos fizeram reforma agrária. Mas aqui essa política de assentamento está no programa de compensação social. Não é uma política em que você enfrenta a concentração da terra e que democratiza a terra. O Brasil é o segundo país que mais concentra terra no mundo. Nós só perdemos para o Paraguai. Um por cento dos proprietários concentra 46% das terras brasileiras. E se for pegar por estado e considerar o Maranhão, nós levamos a taça de país mais concentrador de terras do mundo. No Maranhão, mais de 50% das terras estão nas mãos de apenas 1% dos proprietários.

Então não existe uma política reforma agrária no Brasil?   

É uma política de assentamentos que é uma coisa paliativa. Reforma agrária no nosso entendimento é uma medida relacionada a várias outras coisas. Você tem que democratizar a terra de fato e passar das mãos de poucos para as mãos de muitos. Não se pode entender reforma agrária apenas como distribuição de terras. É um conjunto de programas e de políticas sociais para se desenvolver o campo. Não adianta só distribuir terra e deixar as pessoas passando fome. É preciso ver a questão da produção, da agroindústria, da comercialização, da educação, da saúde, do transporte. Pensar a reforma agrária como uma política de desenvolvimento de fato. Tem que colocar investimento, investir na produção. E o Brasil sempre com essa politiquinha de assentamento. Todo ano é aquela coisa. O Brasil faz a maior reforma agrária do mundo. Que reforma agrária? Todo santo ano é aquela briga e discussão porque o governo assentou tanto e fez outro tanto. Nos últimos 20 anos, quando se fala mais sobre reforma agrária depois do fim do regime militar, a concentração de terra aumentou no Brasil. Então como se pode dizer que se tem uma política de reforma agrária?

Esse paliativo de que você fala, da distribuição de assentamentos, melhorou ou piorou no governo Lula? Como é esse embate nesse governo?

O governo Lula fez algumas coisas para o campo brasileiro e teve algumas mudanças. Por exemplo, esse programa Luz para Todos. Vários assentamentos tiveram acesso e foi uma coisa importante.

O programa funcionou nos assentamento? Até porque ele faz parte das denúncias que envolveram a Operação Navalha da Polícia Federal...

Em vários assentamentos chegou a luz. No interiorzão do país, onde o povo nunca tinha visto a tomadinha, já tem energia elétrica. E muda. É muito importante como aconteceu no Jequitinhonha. Não sei os números de quanto foram, mas em várias regiões houve uma intervenção boa.

E o que mais foi bom neste governo para a reforma agrária?

A recuperação das casas nos assentamentos. Foi uma política boa, importante, mas que pouquíssimas famílias tiveram acesso. Foi pouco recurso que o governo colocou. O programa mais importante que o governo Lula criou foi o seguro-agrícola para o pequeno agricultor. Nunca neste país, os pequenos proprietários tiveram seguro-agrícola. Os grandes proprietários sempre tiveram.

Mas o seguro está funcionando?

Esse é um programa importante do ponto de vista histórico, só que é completamente burocratizado. Pouquíssimos têm acesso ao programa. Precisa de muita coisa para se deixar como garantia nos bancos. Normalmente, as pessoas não têm isso, pegando a realidade da pequena agricultura hoje no Brasil. É muito ruim.

Como é possível melhorar esse seguro?

Para a pequena agricultora é meio que um abandono. Ah, aumentou o crédito do Pronaf, mas se for pensar no ponto de vista de investimento da pequena agricultura, é muito pouco. Pouco recurso. Então não é só burocracia.

E o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar)? Também é burocrático? Os assentados têm dificuldade para acessar?

Ele é burocrático também, mas tem maiores facilidades porque é mais direcionado. O Pronaf A é liberado quando começa o assentamento.

E quando o presidente diz que os usineiros agora são heróis?

Essa é a maior demonstração de que o governo já deixou claro que a prioridade é o agronegócio. E dos grande proprietários de terras. E agora tem toda essa questão dos biocombustíveis.

O governo começou um programa de biocombustíveis que pretendia inserir a agricultura familiar e os assentamentos. Como é que ficou isso? Foi só retórica?

Eu acho que está mais nesse campo da retórica, porque, na verdade, como os pequenos agricultores, há experiências muito pequenas e tal. Duas ou três experiências no sul e no Nordeste.

Inclusive nos assentamentos?

Não. O que eu estou falando é ligado ao movimento dos pequenos agricultores. Eles construíram também uma usina de biodiesel vinculada com a produção de alimentos.

Existia um projeto de produção de mamona para biodiesel no Nordeste. Isso ainda não vingou, então?

Não. Ainda não vingou. E há um grupo que está tentando discutir essa proposta. Principalmente ligada à questão da soberania do Brasil. Quem na verdade está sendo beneficiado e privilegiado mais uma vez são as grandes empresas. Estão levando recursos e estão se apropriando das terras no Brasil. Há, na verdade, também uma perda de soberania da população brasileira relacionada com os recursos naturais. Existe um grupo ligado ao Bautista Vidal (José Walter Bautista Vidal, criador do Pro-alcool) que está discutindo a criação de uma empresa estatal de biodiesel. E a partir dai é que vão tratar dessas questões da produção.

Vocês não estão nessa discussão?

O governo tem tentado, em alguns lugares, enfiar essa discussão do biodiesel para dentro dos assentamentos, mas não com essa preocupação da produção de alimentos. Essa é a nossa grande preocupação. É como o Frei Beto falou. O Brasil vai passar do país do Carnaval para o país do canavial.

É possível conciliar a produção de biodiesel com a produção de alimentos?

É possível. E a nossa grande preocupação é essa. Não podemos dar prioridade nesse questão do biodiesel apenas com produtos que não geram alimentos.

O governo fala em alternativa de renda nesse caso do biodiesel. Vocês acham então perigoso incentivar nos assentamentos, por exemplo, a produção de mamona e descuidar de outros cultivos?

A nossa preocupação é não fazer com que os assentamentos se tornem também monocultivos. Só produzir cana-de-açúcar ou só mamona. Não rejeitamos essa produção, mas é preciso conciliar com a produção de alimentos.

E o programa do governo não tem essa preocupação?

Não. Não tem ainda nada apresentado nesse sentido. A nossa proposta é produzir alguns produtos como o feijão e que junto, na mesma lavoura, seja produzido algum outro tipo de oleaginosa que dê para fazer o biocombustível. Não há por parte do governo uma prioridade que esteja ligada à pequena agricultura. Há uma prioridade para o grande setor do agronegócio, preocupado em produzir em grandes extensões.

Mas, então, como fica a avaliação do MST sobre o governo Lula?

Na nossa avaliação, no governo Lula a reforma agrária continua sendo uma política de compensação social. Não há uma intervenção do Estado no sentido de democratizar a terra, de desapropriar e garantir as funções sociais de que se precisa para o desenvolvimento dos assentamentos. Desse ponto de vista, não há reforma agrária no governo Lula.

Qual é o rumo que o MST vai tomar depois desse congresso aqui em Brasília? Por exemplo, a grande mídia bate muito em vocês pelos métodos das ocupações. Como é que vocês vêem a imagem do movimento na sociedade?

De fato a mídia é um grande problema ligado à política de como se tratar os movimentos sociais. Mas eu acho que nosso congresso só vai reforçar o nosso método de lutas e de se relacionar com a sociedade. A mídia nos massacrou com aquele episódio no horto da Aracruz em março do ano passado. Só que a população começou a discutir como essas empresas estão tratando o nosso país. Há então dois pesos e duas medidas. Nós temos plena consciência de que a mídia oficial vai continuar massacrando os movimentos sociais. Tratando sempre de tentar criminalizar os movimentos.

É que o cidadão comum, que até pode ser favorável a causa, questiona se não há outra maneira de conseguir esses objetivos...

Mas nós temos outras maneiras, mas isso os jornais não falam. Não aparece.

Quais são então essas outras maneiras?

Um exemplo concreto da experiência que eu vivi. Em 1989, lá em Ibema (PR). Quando a área foi ocupada, criou-se na sociedade local um medo. A rádio local falava disso. No primeiro ano de colheita do acampamento, nós levamos para cidade alimentos que foram distribuídos nas favelas da cidade. Veja se a rádio local deu uma linha sobre isso? Que os sem-terra produziram a primeira safra e foram levar para os pobres. Mas com os pobres da favela e a população foi criada uma outra relação. O pessoal ia ao acampamento para comprar comida. O MST sempre trabalha nessa linha da solidariedade, de fazer ações juntamente com a sociedade e os trabalhadores. Essas coisas nunca são divulgadas. Então, não é só o método da ocupação, do enfrentamento com o latifúndio, hoje do enfrentamento com as grandes empresas, como no caso da Aracruz. Nós temos outras formas de solidariedade. Até de campanhas de doações de sangue. Isso é orientação política dentro do MST, porque nós temos o dever de contribuir com a sociedade, que está junto conosco e também nos defende.

Vocês acreditam então que, apesar das campanhas negativas, existe uma sociedade que apóia o movimento?

Com certeza. E isso não é só no Brasil. Há uma parcela significativa da sociedade que partilha desse sonho de ver a reforma agrária feita no Brasil. De gerar emprego, produzir alimentos e descentralizar a terra.

Mas é possível conseguir isso sem ocupar e sem enfrentamento?

Não. Porque não há uma política de reforma agrária nesse país. Não há uma prioridade desse governo. Só existe essa política paleativa de compensação social e de fazer esses assentando porque há ocupação de terras. Porque se não houvesse ocupação de terra, nem isso seria feito. Então, ninguém faz ocupação de terra porque acha bonito, porque gosta. Ninguém fica quatro cinco anos embaixo de um barraco de lona porque gosta e acha bonito. Tem uma necessidade concreta de trabalho e de sobrevivência dessas pessoas. E isso, infelizmente, só acontecesse neste país com o enfrentamento direto com o latifúndio, das empresas, das transnacionais que hoje estão se apoderando cada vez mais das terras desse país. Hoje só há uma forma para garantir a organização, a ocupação da terra e a pressão. Essa é uma das coisas que nós temos clara. Esses governos, mesmo sendo o governo do Lula, são iguais a feijão duro. Se tu não bota pressão, não cozinha e não vem para esse lado. Diferente do tratamento com os grandes. Aí há uma prioridade total. E por outro, lado há uma parte da sociedade que defende a ocupação de terra, que faz essa leitura. Da necessidade de se fazer esse enfrentamento hoje.

A concentração de terra então persiste, principalmente, na região Sul?

Não. Hoje a maior concentração de terras é maior aqui no Centro-Oeste. Mato Grosso, Goiás e Tocantins. Exatamente onde o agronegócio está se expandindo. Mas lá no Sul há estudos de pesquisadores do Rio Grande do Sul mostrando que nos últimos 20 anos foram desapropriados e transferidos para as famílias em forma de assentamentos no Estado 200 mil hectares de terra. Nós últimos quatros anos, a Aracruz Celulose se apoderou de 260 mil hectares só no Rio Grande do Sul. Para plantar pinos e eucaliptos. E a projeção deles para 2020 é ter um milhão de hectares de terras só no Rio Grande do Sul. Então, se você for avaliar do ponto de vista de projeto de desenvolvimento, aumentou a concentração de terra. Se for pegar a questão dos pinos e do eucalipto, que são plantas homogêneas – não sobrevive nem borboleta e formiga nesse meio – é a destruição total das comunidades indígenas e quilombolas. O estado do Espírito Santo tem o mesmo problema. Traz a volta do êxodo rural. O eucalipto em dez hectares produz um emprego. Dez hectares na agricultura familiar produzem dez empregos. As conseqüências que esse projeto do agronegócio têm deixado para a sociedade brasileira – e ele tem sido abraçado pelo governo federal – só trazem fome, miséria, desemprego e destruição total do meio ambiente.

O governo utiliza dados de 1975 para medir o índice de produtividade de terras. Isso dificulta a obtenção de terras para a reforma agrária?

O próprio Incra tem nos falado que de cada 100 vistorias nos último tempos, eles aproveitaram só 30 na região Sul. Atualizando os índices de produtividade, que pode não ser o melhor dos mundos, aumentaria em 30% o poder de aquisição de terras. O índice de produtividade é uma promessa do governo Lula. Nós estamos aguardando que seja baixada a portaria. O último projeto que o governo fez ainda não foi passado para nós. Inclusive durante o congresso nós vamos fazer um debate na Câmara dos Deputados, chamando o MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) e um professor da Unicamp que fez a primeira proposta para eles apresentarem esse projeto à sociedade.

Como está a situação dos assentamentos e dos acampamentos com a distribuição de cestas básicas?

A maioria dos acampamentos está fora das fazendas em beira de estradas. Quando os acampamentos estão dentro das fazendas mesmo sem ter a desapropriação e a imissão de posse, as famílias estão produzindo. Mas isso é coisa rara hoje. São 140 mil famílias acampadas em cerca de dois mil acampamentos. O programa de distribuição de cestas básica tem grande dificuldade. Às vezes a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) até tem comida estocada, mas em muitos estados não tem como escoar e levar para os assentamentos. Em alguns estados o pessoal faz vaquinha, vai à prefeitura e negocia. Isso é comum. No caso concreto de Campos (RJ), que eu vivi, não tinha como levar as cestas para os assentamentos nos 400 quilômetros do Rio até Campos para escoar a comida. Isso continua até hoje. Muitas vezes, o acampamento fica três ou quatro meses sem receber cestas básicas.

E a situação nos assentamentos?

Eles estão no campo da realidade da pequena agricultura como um todo no país. Com muitas dificuldades. Agora nós temos algumas experiências onde se conseguiu investimento do Pronaf Agroindústria, que há pelo menos dez anos não temos mais. Não tem dinheiro na linha de crédito. Mas onde houve esse investimento, os assentamentos têm outro nível. Porque normalmente é um projeto coletivo. Através das cooperativas e associações que dão outra vida para os assentamentos, do ponto de vista da organização social e da convivência entre as pessoas e da produção.

O governo incluiu os assentamentos em suas pesquisas sobre educação. Isso ainda é muito pouco?

Na marcha de 2005 e nas negociações, o governo prometeu a construção de 500 escolas. Sabe quantas escolas foram construídas? Uma no Piauí. Durante o congresso, nós até queremos fazer uma audiência com o ministro da Educação e levar os mil sem-terrinhas que estarão aqui. Vamos levar a experiência da organização da ciranda infantil e das escolas itinerantes. Teremos um outro congresso, um congresso infantil do MST. Precisamos discutir metodologia e garantir que essa pesquisa tenha acesso de fato as reais condições das escolas dos assentamentos. Tem muita coisa importante na pesquisa sobre a questão da juventude e da falta de escolas no meio rural. A pesquisa apontou muitos problemas.

Você falou em juventude, mas qual é a política para os jovens do MST?

É uma das prioridades do movimento, principalmente nos últimos anos. A maioria da nossa militância e dos dirigentes é jovem.

Mas os jovens estão mesmo na lista dos assentados? Sabe-se que eles são os últimos da fila para receberem os lotes. Por que isso acontece?

Essa é uma discussão que nós também temos que travar com o Estado, porque a prioridade deles são as famílias com filhos. Se estou no acampamento e sou jovem, solteira, acabo indo para o fim da fila. Ou indo para o lote dos meus pais. Do ponto de vista mais social, o assentamento deveria garantir a permanência do jovem no campo. É uma batalha e uma regra do Incra, e não do movimento. Nós queremos que a juventude permaneça no campo. Mas também não queremos que a juventude passe fome no campo. A gente tem conseguido assentar os jovens, mas de fato, muitos vão ficando para trás. Se a gente deixar só essa política do governo, os assentamentos vão virar uns asilos. E isso também afeta a produtividade.

O movimento recebeu uma série de críticas, principalmente durante a CPI da Terra, com relação ao financiamento das entidades ligadas ao MST como Anca e Concrab. E também sobre a não existência de uma figura jurídica, impedindo que o MST responda por seus atos na Justiça. Como é que vocês vêem isso e como que o movimento se sustenta? Vocês dependem da verba do governo e desses convênios?

A grande questão colocada na CPI foi de criminalizar o MST e os movimentos do campo. Oitenta por cento das atividades do movimento são bancadas pela nossa base. Se você pegar agora o nosso congresso e calcular quanto custaria para ter toda a infra-estrutura necessária, a gente não faz a menor idéia disso, porque todas as atividades são descentralizadas nos estados. Cada estado banca o seu. O pessoal se organiza lá na região e o nosso congresso está sendo construído há dois anos. O pessoal já produziu e já acumulou para isso.

E como são organizadas essas contribuições? A sociedade não entende como isso é feito? As pessoas acham que se cobra dízimo dos assentados como em algumas igrejas. Como isso é feito?

Não tem dízimo. A nossa discussão sempre foi baseada na solidariedade e na autonomia de participação das pessoas. O assentamento e o acampamento têm uma organização coletiva. A nossa base é organizada em núcleos de famílias com coordenação e seus representantes. As decisões são tomadas nas assembléias. Então, desde o pagamento do ônibus, tudo é feito de todas as formas, da divisão do valor entre os assentados e do pagamento por produção. Não há uma regra. Por exemplo, o assentamento lá de Sobradinho quer vir para o congresso e custa R$ 300 o ônibus. Então eles vão dividir pelo número de pessoas. Mas eles vão discutir como vão fazer para pagar o ônibus. Essa é apenas uma das formas. Também é importante ressaltar que temos contribuições da sociedade local. Isso é uma grande contradição que a gente vê. Os assentamentos, principalmente os que têm uma associação organizada, têm lá a contabilidade deles. Eles contabilizam o que têm de contribuição da sociedade ou do que vem de fora do país.

Mas eles precisam reportar essas contas para a organização nacional, principalmente se recebem algum recurso de uma organização de apoio de fora do país?

Não. De forma nenhuma. Isso é local, é lá entre eles. Eles prestam contas entre os assentados. Se eles resolverem contribuir com o movimento, podem passar para a direção regional ou para o movimento nacional. Mas não existe um regra que obrigue o assentamento a fazer esse repasse. Temos a orientação de que eles façam a prestação de contas para evitar desvios, mas isso é local.

Também existem críticas de que o governo financia o movimento e que os recursos são usados para as ocupações e enfrentamentos. Como vocês respondem a isso? Como é o controle do repasse público?

Nós até olhamos esses dias uma tabela do governo de quanto eles repassaram. A maior parte do recursos para o MST foi para assistência técnica. No programa tocado pelo Incra foram, salvo engano, R$ 12 milhões de 2003 até 2006. Agora você pega esse dinheiro e divide entre 23 estados – Roraima não foi beneficiado ainda – e pelo número de famílias onde o MST está organizado. E divide por 350 mil famílias. E aí se diz que o governo está financiando o MST. É assistência técnica, que é obrigação do governo. Agora vai olhar de perto esse programa do governo para ver a belezura que foi. Os técnicos ficaram quatro ou cinco meses sem receber. Muitas vezes não têm o recurso para garantir o transporte até os assentamentos. Não é previsto o dinheiro para o deslocamento do técnico. E então muita vezes somos nós que fazemos o papel do estado. Há muito mito mesmo em torno dessa questão. E, por outro lado, a assistência técnica e a educação são obrigações do governo. Então como é que você vai dizer que o governo está bancando o MST?

O MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) começou neste governo com a DS (Democracia Socialista), uma corrente política do PT, e agora, no segundo mandato, continua com o mesmo grupo. Como é que o MST vê essa gestão da DS até o momento? Vocês tinham outra preferência política nesse processo?

Na verdade, a gente não tinha muitas expectativas em relação ao MDA. Nós tiramos internamente que manteríamos total autonomia em relação a esse governo e não indicaríamos ninguém para os cargos. Iríamos intervir em algum momento se a coisa fosse muito terrível. Nesse caso, nos manifestaríamos para não deixar entrar. Não achávamos que o governo fosse retroceder tanto, o que acabou não ocorrendo mesmo. Mas, do ponto de vista mais político, nós temos plena consciência que esse governo será de continuidade. Não vai apresentar mudanças. Tanto do ponto de vista mais geral do modelo econômico como no MDA. Nossa expectativa foi baixa.

No Congresso existe uma bancada do MST? Como é que vocês se articulam aqui em Brasília?

O Congresso retrocedeu muito. É um Congresso bem mais direitoso e mais qualificado. O presidente da Abag (Associação Brasileira de Agribusiness) de São Paulo foi eleito deputado federal. Então, eles colocaram os principais quadros como a Kátia Abreu, a senadora. Aumentou e se qualificou a bancada ruralista. E muitas das candidaturas foram bancadas pelas grandes empresas do setor, como a Monsanto e a Aracruz Celulose. E eles vão defender os interesses dessas empresas, defender transgênicos e agrotóxicos. No nosso campo, temos o núcleo agrário do PT, coordenado pelo deputado Adão Preto (PT-RS). Eu costumo dizer que ele é o embaixador da reforma agrária no Congresso. Ele é muito respeitado pelo setor do agronegócio, pela sua postura ética e na defesa clara da reforma agrária. Este ano também organizamos a Frente pela Terra. Não só dentro do PT e não só entre os movimentos de reforma agrária. Estão colocados temas como a agricultura familiar e a biodiversidade. Aí tem deputados de outros partidos, que também estão ajudando.

Mas, apesar dessa articulação, a questão agrária não perdeu força até mesmo nos partidos de esquerda?

Com certeza. Se for pegar hoje a reforma agrária no geral, no Congresso e no governo, está praticamente fora de pauta, porque ela não é apresentada como prioridade. Ao contrário, a grande prioridade hoje é o agronegócio. E são dois projetos altamente conflitantes. Um não bate com o outro.

Mas tem gente de esquerda com cargo eletivo ou no governo que se distanciou da causa da reforma agrária e da agricultura familiar desde o início do governo Lula até agora?

Eu acho que com a eleição do governo Lula – e isso foi bom porque aprendemos como movimento social – nós percebemos o compromisso ou não de várias pessoas que entraram para a máquina do Estado. Tem gente nesse governo que a vida inteira defendeu a reforma agrária e agora suas ações não correspondem a esse discurso histórico. E como exemplo, posso citar o próprio presidente, que fez discursos em defesa da reforma agrária.

Como é que você avalia a participação do MST na reeleição do presidente Lula?

É verdade. Nós nos empenhamos para que o Lula fosse reeleito. Na nossa avaliação, mesmo que fosse esse governo de continuidade, se entrasse o Alckmin, a classe trabalhadora perderia muito mais, porque seria um retrocesso para a sociedade brasileira. Nos nós empenhamos de fato, principalmente no segundo turno. E ficamos muito motivados, principalmente pelas falas do presidente no sentido de que se apresentava uma inflexão mais à esquerda e de compromisso maior com as áreas sociais.

E você acha que isso ficou só no discurso?

Nós temos plena clareza que já ficou no discurso. Acabou no último dia da eleição. É só pegar o início deste governo: no PAC, não tem nada para a área social, e na reforma agrária, muito menos. Ao contrário. Toda a prioridade é para o agronegócio. Pela fala do presidente sobre os usineiros como heróis, a transposição do Rio São Francisco, a liberação dos transgênicos e a diminuição dos integrantes da CNTbio. É tudo orquestrado. Quem está levando são os mesmos de sempre.

É possível o movimento apoiar uma candidatura alternativa ao PT, diante de todas as críticas que o MST faz a este governo?

Nós ainda não temos nenhuma reflexão sobre isso. Ainda estamos muito verdes nessa questão. Mas, por outro lado, ficou claro que os verdadeiros inimigos da classe trabalhadora são muito mais do que os governos. Os governos entram e passam. Mas o Estado burguês continua a intervenção do neoliberalismo.

O que o congresso do MST vai apontar para o futuro do movimento?

Temos uma definição, a partir da conjuntura política, e a palavra de ordem é reforma agrária por justiça social e soberania popular. A justiça social é para que a reforma agrária contribua para um novo projeto de desenvolvimento no qual as pessoas e o ser humano sejam as principais prioridades. E a soberania popular é sobre a intervenção das empresas transnacionais no campo. No nosso entendimento, se a sociedade não se mobilizar para enfrentar essas empresas, não seremos só nós sozinhos que vamos conquistar isso. Por isso, esse congresso pretende fazer esse debate com a sociedade.

Mas teremos um novo MST depois desse congresso?

Não. Pelo contrário. Teremos um MST com mais clareza dos seus objetivos e com maior intervenção em outras organizações que também estarão presentes nesse congresso. Acho que o MST sairá fortalecido de um dos maiores eventos dos últimos anos de camponeses do mundo. O nosso programa agrário muda. A principal mudança é que, antes, o nosso enfrentamento era com o latifúndio. Latifúndio atrasado, representado pelo fazendeiro em cima do cavalo com espingarda na cintura. Hoje, o nosso enfrentamento não é só contra esse latifúndio, mas com empresas, bancos privados e empresas internacionais. A terra hoje está muitas vezes no mercado das ações. É um enfrentamento com o modelo econômico. Essa é a principal mudança.

E se o presidente Lula aparecesse no congresso, o que vocês diriam para ele de mais essencial e urgente?

Nós não vamos mandar ele embora, mas acredito que ele não vá ter coragem de fazer isso. Qualquer um que aparecer lá nós vamos receber, mas não vamos tratar de nenhuma pauta específica com o governo. Os demais do governo serão bem-vindos, mas não terão direito à palavra. Para isso, nós temos uma equipe de negociação lá no ministério.


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