União Européia deve assumir liderança mundial na luta por direitos humanos
Publicado em 15/01/2007 15:13
Estudo anual divulgado na última semana afirma que, diante da perda de credibilidade do Estados Unidos, os países europeus devem atuar para recolocar a pauta dos direitos humanos como prioritária no cenário internacional.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO
PAULO – Em todo o mundo, a tendência dos governos, em sua imensa
maioria, é colocar os direitos humanos em segundo plano, seja no
tratamento de sua própria população, seja no relacionamento com outros
países. A avaliação é da Human Rights Watch – uma das maiores
organizações internacionais de defesa dos direitos humanos –, publicada
em seu mais recente relatório global lançado na última semana. O estudo
é uma pesquisa anual da situação desses direitos no planeta e traz o
resultado de avaliações acerca de sua proteção e garantia em mais de 70
países. O documento analisa desde a liberdade de trabalho dos
defensores de direitos humanos nesses locais até a atuação de
organismos como as Nações Unidas, passando pelo monitoramento de
políticas públicas de desenvolvimento e pelas ações realizadas por
entidades internacionais para pressionar governos a restringirem abusos
e promoverem direitos.
Uma das principais conclusões do
relatório lançado este ano é a de que, a menos que uma nova liderança
no campo desponte para retomar a importância deste debate, violações
continuarão a serem cometidas impunemente. Num passado até recente,
seria esperado do Estados Unidos um papel de liderança no enfrentamento
dessas questões. Segundo a Human Rights Watch, no entanto, a
credibilidade do país hoje está em queda.
“Tradicionalmente, o
Estados Unidos se mostra como o país que mais fortemente desenvolve
políticas de promoção e defesa dos direitos humanos, desempenhando uma
liderança neste campo. No entanto, sua credibilidade está muito em
baixa, pelo fato do governo americano ter praticado a tortura
abertamente e manter pessoas presas sem julgamento, como na base de
Guantánamo”, explicou o diretor executivo da organização, Kenneth Roth.
O relatório da entidade foi lançado no dia em que a prisão de
Guantánamo completou cinco anos de funcionamento. “O resultado é que,
quando o Estados Unidos fala em direitos humanos, outros governos
dizem: “quem são vocês pra falar disso?”. Daí surge a necessidade de
olhar para outros países”, avalia Roth.
Além do fracasso na
invasão do Iraque, a credibilidade dos norte-americanos também foi
afetada diante dos abusos cometidos pela administração Bush em sua
política de “combate ao terrorismo”, que causaram danos desastrosos
internacionalmente. No último ano, ficou claro que o emprego da tortura
e outros maus-tratos praticados pelos soldados americanos faziam parte
de uma política deliberada, mais do que qualquer desvio de
comportamento de um ou outro comandante. O governo americano obviamente
negou a prática da tortura como método de investigação, mas se recusou,
por exemplo, a classificar como tal uma clássica técnica de tortura que
emprega o afogamento do interrogado. Em setembro do ano passado, o
presidente Bush chegou a defender abertamente a questão, se referindo
eufemisticamente a “uma série de procedimentos alternativos para
interrogatório”.
Paralelamente, o Estados Unidos continua a usar
prisões arbitrárias como forma de conter o terrorismo. Segundo a Human
Rights Watch, em sua guerra global o país “se arroga o poder de deter,
sem supervisão judicial, qualquer não-americano, em qualquer lugar do
mundo, como um “soldado inimigo”, e mantê-lo preso sem julgamento por
quanto tempo julgar conveniente, mesmo que isso signifique a vida
inteira”. “Se arroga autoridade, inclusive, para “desaparecer” com
pessoas – e mantê-las longe de qualquer advogado, qualquer visita da
Cruz Vermelha, qualquer contato com o mundo externo. Esta prática
odiosa, correntemente condenada pelo Estados Unidos no passado quando
praticada por outros governos, deixa familiares e amigos sem saber
sequer se essas pessoas estão vivas”, descreve um trecho do relatório.
Na
opinião de Kenneth Roth, tais abusos somente agravam a ameaça do
terrorismo, porque são usados como argumentos no recrutamento de novas
pessoas pelos grupos terroristas. “Este caminho catastrófico tornou o
país incapaz de defender alguns dos direitos mais básicos. O Estados
Unidos pode promover a liberdade de expressão, de associação ou
religião. Mas quando se trata de direitos fundamentais como o direito a
não ser torturado e a não ser detido arbitrariamente, a hipocrisia
torna a defesa de tais direitos impossível”, afirma. Uma mudança neste
quadro depende da postura que será tomada pelo novo Congresso
norte-americano, recém-empossado e, segundo a Human Rights Watch, de um
divórcio do militarismo da visão neo-conservadora que impera atualmente
no país.
Liderança européia
A busca por um país que
possa recolocar a pauta dos direitos humanos no centro dos debates
internacionais é considerada pelos organismos de defesa da causa como
uma das tarefas urgentes para este ano que começa. China, Rússia e
alguns países da América do Sul e da África até poderiam ser vistos
como alternativas, mas, na avaliação das entidades de direitos humanos,
suas posições estão comprometidas, seja por históricos de violações
seja por até agora não terem desempenhado um papel efetivo de promoção
dos direitos humanos em suas políticas.
Neste cenário, a União
Européia aparece como uma “esperança” para o setor, por reunir sua
aspiração em se tornar uma liderança econômica no planeta com sua
história de defesa dos direitos humanos. No entanto, por enquanto, esta
perspectiva mantém-se como expectativa. Nos últimos anos, o
posicionamento da União Européia diante de violações de direitos
humanos tem sido manifestado em declarações públicas da presidência do
bloco, não seguidas por ações efetivas de proteção de direitos. De
acordo com o relatório lançado na última semana, isso se deve a
problemas estruturais e à falta de voltade política.
A atuação
da União Européia no novo Conselho de Direitos Humanos da ONU ilustra o
problema. Dividido entre apoiadores e oponentes da causa, com algumas
democracias na Ásia e na África votando de forma alternada de acordo
com o caso em questão, a União Européia poderia trabalhar em parceria
com os países da América Latina para obter maioria em casos como a
crise em Darfur, no Sudão – a maior em termos de violação de direitos
em todo o mundo no momento –, a impunidade diante dos assassinatos
cometidos pelo governo do Usbequistão e a retomada da guerra civil no
Sri Lanka. Até agora, contudo, os europeus não tomaram a frente destes
processos.
Em vez de demonstrar liderança, a abordagem da
União Européia está atolada em procedimentos que enfatizam a
unanimidade e a rotatividade internas em detrimento de uma projeção
eficaz da influência do bloco em proteger os direitos humanos, afirma o
relatório. “Já que o EUA não consegue prover liderança crível em
direitos humanos, países europeus devem aumentar seus esforços”, disse
Kenneth Roth. “Em vez disso, a União Européia está fazendo muito menos
do que poderia”. A organização lamentou a “abordagem do menor
denominador comum” à proteção de direitos seguida por países-membros da
União Européia, na qual governos que preferem se acomodar puxam para
baixo aqueles que buscam uma abordagem mais agressiva diante de
violações cometidas.
“Regularmente, os governos da União
Européia usam a ausência de uma forte posição comum para justificar a
ausência de uma forte posição nacional. Isso pode fazer sentido, por
exemplo, na negociação de um acordo comercial, mas em se tratando de
ações em defesa dos direitos humanos, é um equívoco colocar a posição
de um país acima de um consenso mínimo. Isso sugere que que a União
Européia, apesar de seus ideais, tem optado por uma defesa fraca, mas
comum, dos direitos humanos em detrimento de uma defesa contundente,
embora não unânime”, afirma o estudo da Human Rights Watch.
“Alcançar
uma posição comum é importante para construir uma comunidade de nações
européias. Além disso, atuando em conjunto, os governos da União
Européia sofrem menos riscos de retaliação. Mas se a União Européia
nunca agir além dos desejos de seu mais relutante membro, na maioria
das vezes vai terminar sem fazer nada. Uma opção seria permitir uma
supermaioria em vez de exigir unanimidade para se chegar a uma política
externa comum”, diz o estudo. “O tamanho da UE deveria ser uma
vantagem, não um obstáculo para ações eficazes em direitos humanos”,
declarou Roth. “Quando direitos humanos estão em jogo, a União Européia
deveria tratar sua posição como piso e não como teto”, completou.
A
organização também recomentou ao bloco reformar seu sistema de rotação
da presidência a cada seis meses – posto ocupado desde 1o de janeiro
pela Alemanha –, já que isso minaria qualquer tentativa da UE em
desenvolver políticas de longo prazo nesta área.
“Precisamos
de uma liderança significativa em direitos humanos. A urgência desta
questão não deveria ser subestimada se o comprometimento dos países,
afirmado em tratados do século XX, não pretende, no século XXI, ser
deixado de lado em nome da hipocrisia e de promesssas vazias”, conclui
a Human Rights Watch.
Para ler a íntegra do relatório visite a página www.hrw.org.
























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