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América Latina - Um continente fustigado pelo crime

Publicado em 10/01/2007 22:59

El Pais/Uol

Assassinatos com armas de fogo na América Latina são o triplo da média mundial


Fernando Gualdoni
Em Madri

Todo latino-americano sabe quase desde seu nascimento que existe alguma área em sua cidade onde nem a polícia se atreve a entrar. A mítica Cidade Oculta de Buenos Aires, o bairro do Petare que se ergue no final da avenida Francisco de Miranda em Caracas ou a gigantesca favela da Rocinha no Rio de Janeiro são lugares que as pessoas evitam desde crianças.

Depois há cidades inteiras com fama de violentas demais: São Paulo, Ciudad Juárez, Medellín, Lago Agrio, Ciudad del Este... O pior é que a lista dos centros do crime não pára de crescer, alimentada pela pobreza e a marginalização social.

Na América Latina, cerca de 30 em cada 100 mil pessoas são assassinadas anualmente com armas de fogo, segundo diversos estudos, entre eles um da ONU. A cifra é o triplo da média mundial. O número de seqüestros também é recorde: aproximadamente 60% dos registrados todo ano no mundo ocorrem entre o rio Grande e a Terra do Fogo. Um relatório do Banco Mundial calcula que as atividades criminosas custam à região mais de 23 bilhões de euros (número quase equivalente ao PIB equatoriano) por ano, somente em gastos para a reconstrução de infra-estruturas e o reforço dos serviços de segurança.

Não há país que se salve nas pesquisas. Em todos, inclusive o Chile, a segurança civil está entre as principais preocupações da população. Acima de tudo, duas questões: o crescimento do crime organizado e o velho mas constante problema da corrupção nas forças de segurança.

Os cinco dias de rebeliões carcerárias e ataques a delegacias e edifícios públicos no estado de São Paulo em maio de 2006 foram um claro exemplo do poder dos bandos criminosos. Morreram 272 pessoas, entre elas 91 policiais, segundo a imprensa brasileira. Às vésperas do último Ano Novo, o Rio de Janeiro viveu uma onda de violência do crime organizado que terminou com 25 mortos. O governo federal acaba de enviar uma força especial ao Rio para combater os bandos.

O grupo que encabeçou a sangrenta revolta em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), representa praticamente um poder paralelo ao estatal. Seu líder, Marcos Williams Herba Camacho, conhecido por Marcola, é mais perigoso com um telefone celular do que com uma arma. E apesar de ter passado mais da metade de sua vida na prisão - como muitos chefes do PCC -, Marcola, que tem 38 anos, foi capaz de manter a liderança do bando e seu principal negócio, o tráfico de drogas.

A organização dirigida por Marcola, seguidor confesso da teoria da arte da guerra de Sun Tzu, chegou a ganhar 230 mil euros por semana, segundo fontes policiais citadas pela imprensa. O PCC é um grande sindicato do crime, com um "exército" de 150 mil homens, o triplo de "soldados" com que contam a Camorra napolitana e a Máfia siciliana juntas. No México, os cartéis do Golfo, Juárez e Sinaloa também são poderes paralelos ao Estado nas áreas em que atuam.

Nem falar das "maras", os bandos de jovens que aterrorizam a América Central. O nome, que procede de "marabunta", a formiga que arrasa tudo à sua passagem, lhe serve muito bem. Hoje as ações criminosas do "mareros" se estenderam de El Salvador, Nicarágua e Honduras até Belize, Costa Rica e Panamá. Os mareros se transformaram em mão-de-obra barata para os cartéis mexicanos. Calcula-se que cerca de 20 mil desses criminosos atravessem todo ano do México para os EUA para fazer algum "trabalho", e muitos são deportados sem que se comprovem seus antecedentes.

A Colômbia, junto com México e Brasil, é outro país que conta com conhecidos grupos criminosos. Ali se misturam diariamente o crime e uma guerra que já dura mais de 40 anos, onde os guerrilheiros se confundem com os criminosos do narcotráfico e vice-versa. O índice de assassinatos e seqüestros aparece entre os mais altos do mundo há tempo.

Mas esta semana a polícia colombiana informou que os assassinatos durante 2006 caíram a seu nível mais baixo em 20 anos. O general Jorge Daniel Castro, chefe da polícia, disse que em 2006 foram assassinadas 17.206 pessoas, 517 a menos que no ano anterior. Os especialistas já reconhecem que a segurança melhorou nos últimos anos na Colômbia, mas lembram que os números continuam alarmantes.

O aumento da criminalidade está relacionado à corrupção das forças de segurança. Um estudo da ONG chilena Latinobarómetro mostrou que só um em cada três cidadãos de todos os países da região confia na polícia. Dois casos demonstram que há razões de sobra para desconfiar: no seqüestro e assassinato do jovem Axel Blumberg na Argentina em 2004, que gerou grandes protestos contra a corrupção policial e judiciária, as investigações revelaram que a rede de envolvidos chegava até o chefe da divisão anti-seqüestros.

É ilustrativo ver o filme "El Bonaerense", do diretor Pablo Trapero, para ter uma idéia de como é formada a polícia da principal província argentina. No México, o responsável máximo pelo combate às drogas, general Jesús Gutiérrez Rebollo, foi detido em 1997 quando se comprovou que trabalhava para o cartel de Juárez. O caso é recriado no filme "Traffic", dirigido por Steven Soderbergh.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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