Previdência absorverá mais verba do que juro da dívida pela 1ª vez
Publicado em 04/01/2007 15:56
Em 2007, orçamento separou mais dinheiro para o governo pagar pessoas beneficiadas pela Previdência Social (7,8% do PIB) do que os rentistas do “mercado” (7,3%), o que sinaliza uma certa distribuição da renda brasileira.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– O sistema financeiro fica com a fatia mais polpuda dos recursos
públicos administrados pelo governo desde o início da política de
pagamento sistemático de juros da dívida, conhecida como superávit
primário, no fim de 1998. De lá para cá, o orçamento federal permitiu
que o “mercado” se apropriasse, em média, de 8% das riquezas nacionais
produzidas a cada ano. Em 2007, no entanto, bancos, fundos de pensão,
corretoras de valores e especuladores em geral vão perder o troféu de
principais favorecidos pela verba pública. Pela primeira vez na era do arrocho fiscal,
o orçamento separou mais dinheiro para o governo pagar pessoas
beneficiadas pela Previdência Social do que os rentistas do “mercado”,
o que sinaliza uma certa distribuição da renda brasileira.
O
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) gastará, em 2007, até R$
177,6 bilhões com aposentadorias, pensões e benefícios diversos
(auxílio-doença ou licença maternidade, por exemplo). A quantia
representa 7,8% das riquezas que o orçamento prevê que a economia vai
gerar este ano, o chamado produto interno bruto (PIB). Já o pagamento
de juros - com dinheiro de tributos ou emprestados ao governo pelo
mesmo “mercado” que ganha com juro – consumirá até R$ 165,8 bilhões, o
equivalente a 7,3% do PIB.
A dimensão financeira do pagamento de
juros e dos benefícios previdenciários foi definida no orçamento
aprovado pelo Congresso em dezembro – o texto aguarda a assinatura do
presidente Lula para virar lei. Como o orçamento impõe limites máximos
de despesas mas não obriga o governo a gastar exatamente aquelas
quantias, é possível até que o gasto com juros fique abaixo do
previsto. Segundo a Comissão Mista de Orçamento do Congresso, a queda
taxa do Banco Central (BC) e a ampliação dos prazos da dívida pública
ajudam a baixar a despesa com juros.
Os dois fatores apontados
pela comissão, aliás, podem fazer com que a Previdência Social
ultrapasse o pagamento de juros e se aproprie de uma parcela maior de
recursos públicos já em 2006. O orçamento do ano passado destinava R$
179 bilhões a juros e R$ 155 bilhões ao INSS. Mas, até novembro, a
Previdência gastara R$ 146 bilhões, enquanto o juro levara R$ 147
bilhões. Nos doze meses encerrados em novembro, os valores eram de R$
R$ 168 bilhões e R$ 157 bilhões, respectivamente.
Distribuição de renda
A
Previdência vem aumentando o espaço no orçamento público e nas riquezas
nacionais por duas razões básicas. A primeira é a inclusão de mais
gente entre os beneficiados pelo INSS, seja pelo envelhecimento da
população (mais trabalhadores se aposentam), seja pela entrada de
pessoas no sistema em decorrência da expansão do emprego com carteira
assinada. De 1999 a 2006, o pagamento de benefícios do INSS saltou 27%,
atingindo 21,5 milhões por mês em novembro do ano passado, último dado
disponível.
Outro fator importante tem sido a seqüência de
reajustes reais (acima da inflação) do salário mínimo, que serve de
referência para grande parte dos desembolsos da Previdência. O valor
médio pago pelo INSS subiu 20% entre 1999 e 2006, atingindo R$ 582,97
mensais em novembro, o valor mais alto da história.
No caso dos
juros, apesar de o gasto ser crescente desde 1999, ele foi em parte
contido – ou seja, aumentou menos do que se podia imaginar – por causa
da queda da taxa de juros do Banco Central, a Selic, que corrige quase
metade da dívida pública. A média da Selic caiu de 25% em 1999 para
15%, em 2006.
A superação do pagamento de juros pelos benefícios
previdenciários aponta para uma certa distribuição da renda nacional. O
INSS ampara uma parcela mais pobre da população, como aposentados do
setor rural. Atualmente, paga 21,5 milhões de benefícios mensais, atendendo quase 75 milhões de pessoas - cada pagamento favorece quem o recebe e mais 2,5 pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Já
os rentistas que lucram no “mercado” somam 20 mil famílias – ou 80 mil
pessoas, pois a família brasileira tem em média quatro integrantes, de
acordo com o IBGE -, nas contas do economista Márcio Pochmann, da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A Secretaria do Tesouro
Nacional, repartição do ministério da Fazenda responsável pela gestão
da dívida – e é a dívida que dá lucro aos rentistas –, não fornece
informações sobre o assunto.
“Esse orçamento mostra uma
distribuição de renda inédita dos detentores das maiores rendas para a
parcela mais pobre da população”, diz o economista Roberto Piscitelli,
da Universidade de Brasília (UnB) e ex-presidente do Conselho Regional
de Economia do Distrito Federal. “Caminhamos para um estado de
bem-estar social, o que certamente vai incomodar os neoliberais, que já
pedem uma reforma da Previdência”, completou.
De fato, a
consolidação do INSS como principal gasto federal inquieta setores mais
identificados com o “mercado”. Em seu tradicional almoço de fim de ano
com jornalistas, no dia 19 de dezembro, a Confederação Nacional da
Indústria (CNI) mostrou preocupação. Para a entidade, sem conter gastos
previdenciários, o país não vai crescer, porque o governo terá sempre
de cobrar impostos altos. “A Previdência sendo o maior gasto mostra a
necessidade de uma reforma”, afirmara, na ocasião, o economista-chefe
da CNI, Flávio Castelo Branco.























