Inclusão social e questão fundiária são desafios para as medidas PAC
Publicado em 24/01/2007 15:54
PAC vai injetar R$ 146,3 bilhões em saneamento e habitação. Mas para especialistas consultados pela Carta Maior sem enfrentar o problema da moradia popular e do acesso à terra o efeito pode ser menor que o esperado para as classes mais pobres.
Jonas Valente – Carta Maior (Colaborou André Barrocal)
Apesar
do foco nas condições para a expansão da atividade industrial e
comercial no país, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) buscou
legitimar o discurso de “crescimento com distribuição de renda”
repetido à exaustão pelo presidente Lula incluindo um eixo que foi
apelidado de “infra-estrutura social”, que tem como principal aposta os
investimentos nas áreas de habitação e saneamento.
Para
habitação serão destinados R$ 106,3 bilhões no quadriênio 2007-2010. Os
investimentos diretos a partir do Orçamento Geral da União (OGU) serão
de R$ 10,1 bilhões. O restante do montante virá dos financiamentos de
pessoas físicas (R$ 32,5 bi) e do setor público (R$ 4 bi) bilhões, dos
recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (R$ 42 bi)
–destinado às classes média e alta – e das contrapartidas dos
contratantes de crédito nestas modalidades (R$ 17,7 bi).
O
intuito é ampliar o combate ao déficit habitacional, que atinge hoje
7,9 milhões de pessoas. A expectativa do ministério das cidades é
atender 4 milhões de famílias com aquisição de terrenos, construção e
reforma de casas, compra de material de construção e urbanização de
áreas precárias como assentamentos, favelas e palafitas. Estas duas
últimas receberão 11 bilhões nos próximos quatro anos, refletindo a
preocupação do governo com o enfrentamento ao problema da habitação nas
grandes metrópoles.
“Pelo menos 50% dos recursos do FGTS têm
de ser destinado a moradias novas. Em relação aos recursos do OGU,
daremos prioridade à construção de casas novas mas também à urbanização
principalmente de favelas e palafitas, que inclui melhoria da
habitação, saneamento e estrutura elétrica”, destaca o ministro das
cidades, Márcio Fortes. Uma dimensão desta preocupação é social, uma
vez que parte importante do déficit habitacional está concentrado em
regiões metropolitanas. Outra é econômica, já que a construção de casas
novas é uma aposta do governo na movimentação do setor de construção
civil.
Apesar da preocupação manifesta nos discursos dos
ministros de Lula, para defensores da luta pela moradia há diversos
poréns no PAC. Na avaliação de Patrícia Cardoso, advogada do Instituto
Pólis e integrante do Conselho Nacional das Cidades, o destaque é
exatamente uma medida que foi excluída do programa, o uso de parte
multa paga ao FGTS por empresários por conta da demissão de
trabalhadores para subsídio à aquisição de casas populares por pessoas
com renda familiar mensal de até três salários mínimos. “É uma
reivindicação histórica do movimento pela reforma urbana que ficou de
fora”, reclama.
Segundo o ministro da fazenda, Guido Mantega,
a ação não foi incluída por uma pendência na negociação sobre o índice
da multa com os empresários. A multa atual é de 50%, mas poderia voltar
a 40%, pois o motivo do aumento da alíquota desapareceu – o FGTS já
pagou todos os trabalhadores que tiveram perdas decorrentes de planos
econômicos passados. Os empresários gostariam que a multa voltasse a
ser de 40%, porque ficaria mais barato mandar funcionários embora.
Conta com o adicional de 10 pontos percentuais para ter até R$ 15
bilhões e, assim, bancar a fundo perdido dois terços do valor de um
imóvel popular - o comprador não precisaria devolver o dinheiro.
Outro
pilar da política de habitação popular, o Fundo Nacional de Habitação
de Interesse Social (FNHIS), continua Patrícia, ficou sem uma definição
mais concreta. Segundo o PAC o Orçamento Geral da União disporá no
próximo ano de R$ 2,6 bilhões mas no Orçamento de 2007 estão reservados
apenas R$ 450 milhões para o fundo. Procurada pela reportagem da Carta
Maior, a assessoria do ministério informou que está em processo de
definição quanto passará será alocado no FNHIS. A preocupação dos
movimentos sociais em garantir o aporte de recursos no fundo é que
nesta fonte de recursos a distribuição tem de passar por um conselho
composto com representação da sociedade civil, o que daria caráter mais
democrático à aplicação destes recursos.
Questão fundiária
Ermínia
Maricato, professora da USP e ex-secretária-executiva do Ministério das
Cidades na gestão de Olívio Dutra, alerta que se a injeção dos recursos
não for acompanhada de políticas que democratizem a questão fundiária
no país há o risco do “tiro sair pela culatra”. “Entrar com todo este
dinheiro em um mercado patrimonialista, altamente especulativo com
terra, pode aumentar o preço da terra, aumentando o preço da moradia e
tendo efeito perverso”.
Para isso, continua, é necessária uma
estrutura institucional no âmbito de toda a federação, especialmente
dos municípios, para implantar tanto as medidas do PAC quanto a
democratização fundiária necessária à sua execução. “Temo pela
implementação por que o Estado está sucateado, você não tem uma rede de
implementação de política habitacional descentralizada. Se não tiver
esforço federativo o governo federal não consegue fazer sozinho por que
moradia tem localização no espaço e tem muita responsabilidade
municipal”, afirma.
Ela defende a criação de órgãos municipais
de operação da política habitacional, hoje existente em poucas cidades
no País. Mas somente mais estrutura não resolverá se não for quebrada a
relação intrínseca entre o poder local e os donos de terras, que mantém
uma lógica concentradora da propriedade e do sistema de uso
especulativo das áreas urbanas e rurais.
Saneamento
Na
área de saneamento a questão federativa parece ter sido um elemento
orientador da formatação do PAC. Isso por que a operação dos serviços
que compõem este setor se dá principalmente pelos municípios e
companhias estaduais. Estão previstos R$ 40 bilhões de reais nos
próximos quatro anos. Deste total, R$ 12 bi virão do Orçamento Geral da
União em ações com foco nas duas pontas do problema do acesso a este
serviço: as grandes aglomerações urbanas em situação precária, como
favelas e palafitas, e os municípios pobres com até 50 mil habitantes.
Igual
quantia será destinada para o financiamento de contratos de estados,
municípios e companhias de saneamento. Para que isso seja executado, o
governo atacou o nó do limite de endividamento dos estados ampliando-o
para 6 bilhões nos próximos dois anos com expectativa de manter o
volume no último biênio do segundo mandato de Lula. “Aumentar o limite
de endividamento resolve uma parte importante o problema dos estados.
Há contratos com bancos parados por conta do limite de endividamento”,
comentou a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB).
Estão
previstos também mais R$ 8 bilhões para financiamento de operadores
privados e esperados mais R$ 8 bilhões de contrapartida dos prestadores
do serviço, somando um total de R$ 40 bilhões em aplicações para obras
e serviços de saneamento nos próximos quatro anos. O objetivo é
recuperar o quadro dramático brasileiro. Hoje, o atendimento nesta área
é de 82,3% no provimento de água potável, 48,2% no tratamento de esgoto
e 36% na coleta de lixo. A meta do PAC é até 2010 ampliar estes
percentuais, respectivamente, para 86%, 55% e 47%.
A ampliação
dos percentuais deve vir acompanhada de preocupação qualitativa com os
serviços para não manter o quadro de desigualdade no acesso ao
saneamento existente no País. Segundo o Relatório de Desenvolvimento
Humanos, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD) em novembro último, “no Brasil, os 20% mais
ricos da população desfrutam de níveis de acesso à água e saneamento
geralmente comparáveis ao de países ricos”. Enquanto isso, continua o
documento, “os 20% mais pobres têm uma cobertura tanto de água como de
esgoto inferior à do Vietnã”. (Leia também: Principal desafio no Brasil é a desigualdade no acesso).























