Ortega volta à presidência após 16 anos
Publicado em 11/01/2007 20:58
Ex-guerrilheiro, notório inimigo dos EUA, toma posse em Manágua e promete governo socialista com respeito à propriedade privada e aproximação com Igreja.
Da Redação - Carta Maior/ANSA
MANÁGUA
- O líder sandinista Daniel Ortega, ex-guerrilheiro, assumiu neste dia
10 de janeiro a presidência da Nicarágua para uma gestão que deverá
enfrentar a pobreza que assola o país e que aparentemente estará mais
próxima dos governos de esquerda como os de Cuba e Venezuela, mantendo,
porém, "respeitosas" relações também com os Estados Unidos.
Ortega, 61 anos, pretende assinar, imediatamente após tomar posse, um
grande acordo econômico com o venezuelano Hugo Chávez, que também
iniciou neste dia 10 o seu terceiro mandato, cujo primeiro ato foi
anunciar a nacionalização das empresas de telefonia e energia, além de
declarar a Venezuela uma República Socialista.
O ex-chefe
guerrilheiro nicaragüense retorna à presidência depois de 16 anos e
três tentativas frustradas, após ter se afastado do ideal
revolucionário que o classificou como um dos principais inimigos dos
Estados Unidos, em um discurso com pedidos pela paz e reconciliação.
Ortega diz que continua sendo um socialista, mas, ainda que pretenda
erradicar a pobreza em seu país, respeitará a propriedade privada.
Apesar de sua formação fortemente marxista, Ortega delineou o que será
seu próximo governo com bases no apoio da Igreja Católica e de outros
opositores que, no passado, durante seus 11 anos no pooder, de 1979 a
1990, ofereceram-lhe grande resistência. “Nosso compromisso é trabalho,
paz e reconciliação” – afirmou Ortega antes da posse.
Pesquisas
recentes revelaram que 67% dos nicaragüenses têm esperanças de que a
gestão de Ortega leve soluções ao país, principalmente em relação aos
problemas mais dramáticos, como a fome e o desemprego, que atinge 50%
da população.
O país nunca se recuperou do desastre econômico
causado por sua guerra interna, que contou com a participação
permanente dos Estados Unidos, quando Ortega perdeu o poder para
Violeta Chamorro que iniciou aplicações de planos econômicos liberais
que, segundo diagnósticos variados, não levaram a soluções. Esse
resultado foi o grande responsável pela quebra dos setores liberais e
conservadores, que disputaram divididos as eleições de novembro
passado, quando Ortega saiu vitorioso com 38% dos votos.
Estiveram presentes à posse 65 delegações, com vários chefes de estado
e governo da América, Ásia, Europa e África. Além de Hugo Chávez, que
se atrasou devido à sua própria posse em Caracas, assistiram à posse,
entre outros, Evo Morales, da Bolívia, Felipe Calderón, do México,
Rafael Correa, do Equador e o iraniano Mahmud Ahmadinejad. Luiz Dulci,
secretário-geral da presidência, chefiou a delegação brasileira que
contou com a presença de Marco Aurélio Garcia que também esteve em
Caracas para a posse de Chávez.
O sandinista recebeu os
atributos do cargo e falou a grande concentração popular estimada em
300 mil pessoas. Depois, reuniu-se com Chávez para firmar o que sua
equipe de colaboradores define como "um amplo e multimilionário acordo"
de cooperação econômica com a Venezuela. Em declarações à ANSA, o
embaixador venezuelano em Manágua, Miguel Gómez, afirmou que seu
governo cooperará com a Nicarágua em proporções semelhantes "ou se
possível até maiores" do que as destinadas a Cuba e Bolívia. O pacote
inclui a construção de obras de infra-estrutura, como pequenas usinas
elétricas e também projetos nas áreas de educação saúde e moradia.
Ortega espera receber de Cuba assessoria e ajuda para iniciar planos
para educação e saúde, porém fala continuamente aos empresários locais
e estrangeiros sobre os investimentos seguros e rentáveis, promessa
impensável durante a revolução sandinista.
Com os Estados
Unidos, o ex-guerrilheiro buscará "respeitosas" relações, sem resignar
sua decisão de se voltar para o sul. Durante a campanha do
ex-guerrilheiro, o governo americano anunciou mais de uma vez que era
se opunha à eleição de Ortega. Na cerimônia de posse, os EUA fizeram-se
representar por Michael Leavitt, secretário de saúde e serviços humanos
que presenteou Ortega com a promessa da construção de um centro para
treinamento de trabalhadores da saúde em território nicaragüense.
Entre os sinais conciliadores e promessas de diálogo e entendimento, o
ex-presidente Enrique Bolaños, além da faixa presidencial, deixa a
Ortega uma "mesa servida", como ele próprio disse, com uma economia em
bom estado, mas com índices de pobreza, fome e desemprego desafiadores,
segundo analistas, que precisam de respostas imediatas para que o novo
presidente não perca seu crédito inicial. (com informações da ANSA)























