Instabilidade e conflitos internos são parte de projeto de dominação dos EUA
Publicado em 22/01/2007 10:01
Tanto Europa quanto Estados Unidos têm sistematicamente minado a estabilidade do continente por meio de intervenções militares diretas ou guerras civis e conflitos internos nos Estados insuflados estrategicamente, avaliam ativistas. Iraque é exemplo maior.
Verena Glass - Carta Maior
NAIROBI,
QUÊNIA - Desde as lutas africanas de independência das metrópoles
européias, há cerca de 50 anos, conflitos e guerras civis têm
sistematicamente assolado a maior parte dos Estados do continente num
processo de destruição continuada de suas estruturas econômicas,
sociais e políticas. Exemplos conhecidos são Angola, Ruanda, Congo,
Somália, Serra Leoa, Costa do Marfim etc. Inserem-se neste contexto
também todo o Oriente Médio, grande parte da África do Norte e,
atualmente, o Afeganistão e o Iraque.
Avaliar esta situação de conflitos, suas origens e sua características tem
sido, neste Fórum Social Mundial de Nairobi, uma temática prioritária. O
objetivo é desmistificar um dos principais instrumentos de dominação dos
poderes econômicos e militares dos EUA e da Europa no continente: a
estigmatização
da África como região de guerras internas insolúveis em função das
diferenças políticas de grupos étnicos e religiosos na disputa pelo
poder, necessitada de tutela e dependente de intervenção internacional.
Segundo o cientista político egípcio Samir Aminm, um dos
principais pensadores da esquerda africana, a estratégia de evitar a
constituição de Estados fortes e autônomos no continente para facilitar
o domínio dos recursos naturais – principalmente minérios e petróleo –
foi adotada por americanos e europeus logo após o fim da Segunda Guerra
Mundial. Estrategicamente, foi criado o Estado de Israel como mecanismo
de fragmentação da região em países pequenos e fracos.
Conseqüentemente, não existiria no continente nenhum país em franco
desenvolvimento como na América Latina, por exemplo.
Mais
recentemente, os casos das ocupações do Afeganistão e do Iraque pelos
EUA poderiam ser considerados emblemáticos desta estratégia de
fragmentação e enfraquecimento, caracterizada pela destruição da
unidade política interna dos países africanos que marcou as lutas de
independência pós-Segunda Guerra. Na maioria das vezes, o processo se
dá através do fomento de conflitos étnicos e religiosos que têm
descambado, na maioria dos casos, para guerras civis.
Segundo
o jornalista iraquiano Kwi Azzawi, editor de um dos principais jornais
de Beirute, a estratégia americana no Iraque desde a ocupação tem sido
empoderar os diferentes grupos e estimular as disputas de poder através
de conflitos étnicos até então pouco significativos.
Segundo Azzawi, atualmente existem mais de 50 agrupamentos militares
distintos,
apesar de o conflito central, financiado e apoiado não só pelos EUA
como também pelos países vizinhos (Jordânia, Iran e Arábia Saudita),
concentrar-se nas disputas entre xiitas, sunitas e curdos.
O
governo central, também dividido em facções, passou a hastear a
bandeira da segurança pública e descartou qualquer investimento ou
esforço em assegurar os direitos humanos e sociais da população, o que
tem impelido a sociedade civil, encurralada pelas disputas e pela
violência, a optar por outros lados e alternativas. Assim, partidários
de Saddam Hussein, assassinado no final de 2006, e da Al Qaeda, têm se
fortalecido.
Na mesma direção, Ismail Dawoud, coordenador da
organização iraquiana Iraq Occupation Focus, avalia que o próprio
processo constitucional
institucionalizou as divisões étnicas e religiosas após um atropelo que, ao
não permitir um processo de transição entre o regime de ocupação e a
instituição do novo governo iraquiano, praticamente impossibilitou a
reorganização do país.
Ainda
segundo Dawoud, a repressão americana e governamental, por um lado, e
as divisões internas, por outro, têm desarticulado as forças de
resistência, levando-as cada vez mais a se ligarem a grupos
fundamentalistas.
De acordo com Paola Gasparoli, membro da ONG
italiana “Uma Ponte Para” e voluntária pacifista por longo tempo no
Iraque, a fragmentação das lutas de resistência contra a ocupação e a
crescente predominância do poder
fundamentalista, que trouxe
consigo uma violência descontrolada de ataques à população e seqüestros
de ativistas estrangeiros, têm levado a um movimento de retirada da
solidariedade internacional. Esta retirada do campo de batalha por
parte de testemunhas, ao mesmo tempo em que favorece as forças de
ocupação, tem criado entre os iraquianos um sentimento de abandono e
isolamento.
Compreender esta realidade e enxergar a África por
outra perspectiva, propõe Gasparoli, teria que ser um dos papéis
fundamentais do FSM. Relembrando as marchas de 2002 e 2003 contra a
guerra, idealizadas pelo Fórum, que reuniram milhões de pessoas no
mundo todo em um mesmo dia e por uma mesma causa, a pacifista americana
Phyllis Bennis, membro da rede de movimentos anti-guerra United for
Peace and Justice, reforça a importância da solidariedade internacional
e da opinião pública na busca de soluções para os conflitos.
“Logo
após a primeira marcha de milhões contra a guerra, o New York Times,
porta-voz oficial do governo americano, declarou que existem duas
super-potencias no mundo: os EUA e a opinião pública. Cabe a nós não
perder este posto”, desafia Bennis.
























HÁ MUITO TEMPO APENAS NÃO PERCEBERAM ISSO AINDA....!!!