Igrejas assumem o protagonismo da marcha de abertura do 7º FSM
Publicado em 20/01/2007 21:05
A marcha de abertura deste 7ª FSM mostrou o poder de mobilização popular das igrejas cristãs de várias orientações que levaram seus fiéis para a caminhada. Partindo de Kibera, a maior favela da África, conhecemos alguns destes religiosos personagens.
Marcel Gomes - Carta Maior
NAIROBI
– Os movimentos religiosos sempre marcaram presença no Fórum Social
Mundial, mas seu poder de mobilização popular no Quênia faz deles um
dos principais protagonistas do encontro de 2007. Ao longo da marcha de
abertura, neste sábado (20), igrejas cristãs de várias orientações
levaram seus fiéis para a caminhada, enfatizando mensagens de cunho
social. Havia até a New Creation – Ministries international, defensora
de um tipo de criacionismo.
Expressões religiosas também foram
usadas pelo mestre de cerimônia que participou da abertura do Fórum e
pelo ex-presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda, um dos participantes mais
celebrados deste primeiro dia do encontro, e que, em seu discurso,
referia-se à plateia como “irmãos e irmãs”. Na África e em especial no
Quênia, são as Igrejas que ocuparam o poder de mobilização popular,
antes nas mãos do movimento de independência. Para envolver os
africanos no Fórum, os altermundialistas estão tendo de compreender a
palavra de deus. Mesmo os comunistas.
Kibera, a maior favela
Dolores
Wavinya mora há quatro anos em Kibera e estava com seu amigo Julins
Kavanja acompanhando a saída da marcha daquela que é uma das maiores
favelas da África. Ela trabalha na catequização dos moradores para sua
igreja, a Christs the King Catholic Church. Pela primeira vez participa
do Fórum Social Mundial, mas já o conhecia das discussões realizadas no
âmbito da rede internacional de que sua Igreja participa.
Sua
expectativa em relação aos próximos quatro dias do evento não difere
muito dos outros participantes. Diante de ativistas de todos os
continentes neste que é o maior encontro de movimentos sociais do
planeta, Dolores quer ouvir e debater experiências realizadas em outras
partes do mundo. Ela se refere, sobretudo, a programas habitacionais e
de regularização fundiária, já que em Kibera trabalha para um programa
que está no arco do Habitat das Nações Unidas, chamado Upgrade.
Por esse programa, iniciado em 2003, moradores de Kibera passam a ter
direito sobre a terra que ocupam, o que lhes permite participar de
outros programas de desenvolvimento urbano. “O Fórum será uma boa
maneira de as pessoas expressarem seus sentimentos, especialmente os
sem-teto” , diz ela, sem abandonar o vocabulário religioso que utiliza
em seu dia-a-dia. Em sua camiseta feita especialmente para o Fórum,
além do nome da igreja, estava escrito: “ Another world is possible
even for slum dwellers” (“Um outro mundo eh possivel mesmo para os
moradores de favela”).
Um franciscano
Aldir Crocolin
estava com uma camisa verde do desconhecido Movimento pela Valorização
da Cultura, do Idoso e das Riquezas do Brasil, mas, na verdade, não é
militante desse grupo. Ela comprou a camiseta no último Fórum que
ocorreu em Porto Alegre, em 2005. Franciscano capuchinho, morador da
capital gaúcha, ele é, sim, um militante popular.
"É
importante participar porque é onde se respira outra atmosfera, onde se
tem outros sonhos, é onde está o movimento social. Aqui está a idéia de
partilha, em Davos está a de dominação, de concentração", diz ele,
referindo-se ao Fórum Econômico Mundial, na cidade suíça de Davos, que
começa no próximo dia 24. "Isso me ajuda a fazer teologia e a dar aulas
sobre ela na universidade", afirma.
Crocolin está desde o dia
11 no Quênia, reunido com outros 44 franciscanos de 24 países, para
trocar experiências de luta contra a pobreza em cada região do mundo,
inclusive nos países mais desenvolvidos. Participam franciscanos dos
Estados Unidos, da Alemanha e da Itália, onde a migração de turcos e
albaneses, respectivamente, é um dos principais assuntos desses
missionários que lutam contra a miséria e a desigualdade social.
“A
igreja está recuperando seu lugar e seu papel, que é o de estar ao lado
do povo. Nosso papel não é o de ficar fazendo belos cultos, mas, como
disse Jesus, o de lutar para que todos tenham vida e a tenham em
abundância”, disse o franciscano, citando um versículo da Bíblia. Para
ele, a Igreja, se ficar ao lado dos pobres, recupera um papel que
perdeu quando “foi cooptada pelos Império Romano, passando a ficar ao
lado dos governantes”.
Crocolin avalia como positiva e intensa a
participação das igrejas no Fórum africano. Para ele, a idéia de um
rebanho, um deus está superada. “Qualquer hegemonia é sinal de domínio.
A pluralidade é boa inclusive na teologia”, conclui.
Jovem voluntário
Samuel
Ngugi, de 21 anos, morador de Soweto, outra grande favela de Nairobi, é
voluntário na Comunidade John XXIII, de origem italiana. Ele trabalha
como guia, voluntário junto aos missionários italianos, que mantêm
programas de alimentação e educação em prol de crianças de rua e
orfãos. Na cerimônia de abertura do Fórum, carregava uma faixa de sua
organização.
Mora em Soweto com seu pai, que possui um pequeno
armazém de alimentos na favela, e quatro irmãos. Acabou de terminar
College (curso inicial da universidade) e agora quer montar uma empresa
para prestar acessoria na área de informática. Para Ngugi, a religião
permite crescimentor espiritual. “E ela é muito importante para a paz”,
afirmou.























