Hugo Chávez desperta ira dos mercados, dos Estados Unidos e da direita
Publicado em 10/01/2007 22:29
Chávez tomou posse nesta quarta (10). Governo venezuelano ataca nervo central do neoliberalismo ao buscar reestatizar setores estratégicos. Mídia fala em “escalada autocrática” apenas quando o mercado financeiro é questionado.
Gilberto Maringoni – Carta Maior
Ao
anunciar a reestatização dos setores de energia e telefonia em seu
país, o presidente venezuelano Hugo Chávez cumpre o que promete desde
seu primeiro mandato: enterrar o neoliberalismo na Venezuela. O núcleo
duro dessa diretriz é formado principalmente pelas privatizações e pelo
alto endividamento financeiro.
As empresas na mira oficial são
a CANTV (cujas acionistas são a Verizon Communications e a Telefônica)
e a Caracas Electricity (controlada pela AES). É bom lembrar que a AES,
controladora da Eletropaulo, é a mesma que deu um calote de R$ 600
milhões no BNDES há três anos. Lá como cá, as privatizações se traduzem
em tarifas elevadas, subsídios estatais e serviço deficiente.
Com
o anúncio, o mandatário venezuelano despertou a ira dos mercados, do
governo dos Estados Unidos, dos monopólios da mídia e da direita em
geral. No Brasil, não faltaram editoriais a denunciar “A escalada
autocrática de Chávez”, como fez o jornal “O Estado de S. Paulo”.
A
democracia, segundo este raciocínio, está ameaçada quando se investe
contra o mercado e não contra as pessoas. Nenhum jornal dá tamanho
destaque às restrições à liberdade de imprensa existentes, por exemplo,
na Colômbia. Lá, após permanecer encarcerado por 52 dias, foi libertado
na segunda-feira (8), sem culpa formal, o correspondente da rede
Telesur, Fredy Muñoz. Também não se falou em autoritarismo quando o
governo mexicano reprimiu com violência a rebelião popular em Oaxaca,
no sul do país, nos últimos meses do ano passado.
Leis habilitantes
Miriam
Leitão, a sempre previsível comentarista econômica da TV Globo, afirmou
no “Bom Dia Brasil” que “O presidente segue os caudilhos
latino-americanos e exibe sua cara de retrocesso. Prejudica toda a
região ao mostrar a existência de uma terra sem leis”.
Ao
contrário do que diz a comentarista, a Venezuela tem leis mais
detalhadas que vários países do mundo. Quando aconteceram as farras das
privatizações, nos anos 1990, atropelando constituições e normas
legais, a analista nada protestou.
Chávez vale-se de uma
prerrogativa constitucional, as Leis Habilitantes. Não é uma invenção
dele. Já existia algo similar na Carta anterior, de 1961, com a
possibilidade de o presidente “Ditar medidas extraordinárias em matéria
econômica ou financeira quando assim o requeira o interesse público e
haja sido autorizado para tal por leis especiais” As Leis Habilitantes,
invocadas por Chávez, estão no artigo 203 da atual Carta:
“São
leis habilitantes aquelas sancionadas pela Assembléia Nacional por três
quintas partes de seus integrantes, a fim de estabelecer as diretrizes,
propósitos e marco das matérias que se delegam ao Presidente ou
Presidenta da República, com classificação e valor de lei. As leis
habilitantes devem fixar prazos de sua vigência”.
Ou seja, o
presidente solicita ao Congresso autorização específica para normatizar
uma matéria, com prazo determinado. O Congresso pode aceitar ou não. É
algo muito mais democrático do que as Medidas Provisórias brasileiras,
para as quais o presidente não precisa de autorização alguma. Se
procurasse se informar, talvez Miriam Leitão fosse mais exata em seus
comentários.
Roteiro lógico
Chávez segue um roteiro
lógico: por anos buscou ampliar sua legitimidade através de mudanças
políticas e só agora volta-se com vigor para a economia. Em seus
mandatos anteriores – foram dois, entre 1998 e 2006 – , buscou
alterações institucionais que ampliassem os direitos democráticos da
cidadania, impedissem a privatização da Petróleos de Venezuela (PDVSA),
garantissem a distribuição de terras públicas à população e criasse uma
série de medidas emergenciais para o combate à pobreza, perfiladas numa
série de Missões sociais. Todas essas medidas, de certa forma, foram
sintetizadas na elaboração de uma nova Constituição, em 1999, anunciada
logo no discurso de posse presidencial, em janeiro de 1998. Deixou a
economia quase intocada.
Vencedor de inúmeras batalhas no
governo – incluindo o golpe e a sabotagem petroleira de 2002 – o líder
venezuelano agora deixa de lado a moderação que até aqui pautou sua
política econômica. Com uma legitimidade que ultrapassa em muito as
fronteiras de seu país e líder incontestável da onda antiliberal no
continente, ele vê novamente as nuvens ameaçadoras lançarem-se contra
seu governo. Não há novidade nisso. Assim aconteceu quando o argentino
Nestor Kirchner renegociou a dívida pública e reestatizou o serviço de
águas de Buenos Aires e quando o boliviano Evo Morales nacionalizou as
riquezas do subsolo. Agora a bolsa de Caracas despenca quase 19 pontos,
o dólar eleva-se e surge uma ameaça de fuga de capitais do país.
Nos
casos argentino e boliviano, as profecias viraram fumaça. “Tudo pode
acontecer, inclusive nada”, ensinava o Barão de Itararé (1895-1971), o
maior humorista brasileiro da primeira metade do século. E nada
aconteceu. Chávez só saberá o que lhe aguarda se mantiver o pé na
porta, ao invés de buscar, como é o caso de Lula, uma inatingível
confiança dos mercados.
Começa uma nova fase para o governo
venezuelano e para a América Latina. Chávez, juntamente com Kirchner e
Evo Morales, mostra ser possível buscar sair do neoliberalismo e não
apenas criar políticas sociais compensatórias para seguir com “mais do
mesmo”.
As catacumbas da Guerra Fria
Uma nota de
rodapé. Retrocesso é o mínimo que se pode dizer da nomeação do sr.
Antonio de Aguiar Patriota para a embaixada brasileira em Washington.
Atual subsecretário-geral de Assuntos Políticos do Ministério das
Relações Exteriores, ele concedeu uma interessante entrevista
na página da Radiobrás na internet. Na oportunidade, o diplomata enfiou
o pé na jaca, ao ser perguntado sobre “uma eventual transição de poder
em Cuba”:
“Considero que, possivelmente, haja um papel, sim, a
ser desempenhado pelo Brasil na busca de uma transição para a
democracia que seja a mais tranqüila e sem turbulências possível e
tenho certeza de que o governo norte-americano terá muito interesse em
ouvir as nossas ponderações e análises. É um tema que possivelmente,
sim, estará entrando na nossa agenda quando a situação assim
determinar”.
O rumo que Cuba ou qualquer outro país tomar deve
ser prerrogativa do povo deste país. Não pode ser negociado em
Washington. Patriota, que parece recém-saído das catacumbas da Guerra
Fria, é a personificação exata de uma charge genial de Jaguar,
publicada no “Correio da Manhã”, em setembro de 1964. Nela, um
personagem diz a outro: “Ouvi dizer que o Roberto Campos vai ser o
próximo embaixador americano no Brasil”. O nome poderia ser mudado para
Antonio Patriota, que o sentido seria o mesmo.























