Frente à China e à Índia, a Ásia do Sudeste está empenhada em promover a sua integração regional
Publicado em 16/01/2007 13:35
Dez países asiáticos associados tentam construir um bloco a partir do modelo da União Européia, mas as divisões ainda são grandes
Francis Deron
correspondente em Bancoc, Tailândia
Reconciliados desde o final da guerra fria, os dez países da Ásia do
Sudeste (Birmânia, Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia,
Filipinas, Cingapura, Tailândia, Vietnã) afirmaram a sua intenção de
formar um bloco econômico e político. Mesmo assim, eles deram uma
demonstração das suas divisões e das suas hesitações a respeito da
Birmânia, uma das ditaduras militares as mais fechadas do mundo.
Na
segunda-feira, 15 de janeiro, eles se empenharam em se apresentar como
parceiros de um conjunto coerente, capaz de fazer um "contrapeso" às
duas potências emergentes da Ásia, a Índia e a China. A decisão foi
tomada durante uma cúpula que reuniu todos os países associados da
região, que incluiu, além do Japão, a Coréia do Sul, a Austrália e a
Nova Zelândia.
A cúpula da Associação das Nações do Sudeste
Asiático (cuja sigla em inglês é Asean), reunida em Cebu, nas
Filipinas, deu à luz, durante o fim de semana, no sábado, 13, e domingo
14 de janeiro, duas proclamações destinadas a fundamentar e oficializar
sua vontade comum de integração regional.
De um lado, esses
países assinaram uma convenção "antiterrorista", que visa a codificar
as regras de cooperação dos serviços de segurança dos países-membros
nos campos da inteligência, dos meios de ação e das extradições, todos
pontos em relação aos quais o grupo havia se limitado até então a
firmar acordos bilaterais ou a definir acertos informais. Esta inovação
foi motivada, entre outros, pelos atentados e os alertas sucessivos em
relação a ameaças à segurança que foram registrados recentemente numa
região que por muito tempo achou estar imune a fenômenos desta ordem. O
texto visa a superar as desconfianças recíprocas de serviços de
segurança apegados às suas prerrogativas nacionais.
De outro,
eles firmaram uma declaração de intenção anexada a uma carta regional
de cinqüenta páginas, que ainda precisa ser formalizada. Esta
declaração aproximaria a Associação, que até então vinha pautando seu
acordo no modo do consenso, de um clube organizado em torno de
regulamentos, assim como funciona a União Européia (UE). O projeto
ainda está longe de formar um conjunto acabado, mas a idéia da sua
realização constitui por si só uma ruptura tornada necessária pela
constatação de uma impotência crescente da Asean em resolver suas
próprias questões. O ponto crucial será de encontrar um acordo em
relação às condições nas quais um Estado-membro poderia ser suspenso,
ou até mesmo excluído, por não se adequar "aos princípios e os valores
comuns" do grupo.
Carta dos direitos humanos
Um
campo de aplicação que vem a calhar é aquele dos direitos humanos e das
liberdades públicas, no qual a Asean apresenta o aspecto de uma
marchetaria que vai desde a ditadura militar a mais brutal (Birmânia)
até o monopólio de um dos últimos partidos comunistas do planeta no
poder (Vietnã), passando por sociedades mais ou menos livres. Até
agora, todas essas questões eram deixadas de lado, incluídas na
categoria da "não-ingerência nos assuntos internos". Mas esta situação
deverá sofrer mudanças sensíveis uma vez que a carta for adotada - numa
data que ainda está por ser definida.
A tradição de declarações
teóricas nunca postas em prática que caracteriza a Asean, contudo, foi
mais uma vez verificada a respeito da Birmânia, por ocasião da votação
da sexta-feira (12) nas Nações Unidas relativa à resolução americana
que condenava, ainda que em termos ponderados, os militares no poder
neste país. Os vetos chinês e russo se revelaram mais lógicos do que a
abstenção do governo do mais populoso dos membros da Asean, a
Indonésia. Depois disso, os dirigentes da Associação multiplicaram as
declarações afirmando, a exemplo de Gloria Arroyo, a presidenta das
Filipinas, que a Asean pretendia permanecer "encarregada do dossiê",
inclusive para zelar pela sua própria credibilidade.
Um
parlamentar malásio que estivera envolvido no "diálogo de surdos" com
os militares birmaneses, Zaid Ibrahim, comparou o exercício de
integração regional com "a instalação de fechaduras numa casa, muitos
anos depois da passagem dos ladrões", e a idéia de uma Constituição da
Asean com "uma pá para recolher poeira". Por sua vez, os ditadores da
Birmânia cantaram vitória contra "o bloco colonialista".
O primeiro-ministro chinês aceita um convite para visitar o Japão
A
China e o Japão se empenharam em promover uma ligeira melhora nas suas
relações tensas por ocasião da cúpula asiática de Cebu (Filipinas). O
primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, aceitou no domingo (14) um
convite para visitar o Japão que lhe foi feito pelo seu homólogo
nipônico Shinzo Abe. A data da visita ainda está por ser definida. Ela
poderia ser realizada na primavera.
No domingo, Shinzo Abe e Wen
Jibao participaram de uma reunião de mais de uma hora com o presidente
sul-coreano Roh Moo-Hyun - este sendo o primeiro encontro neste nível
em mais de dois anos -, em margem das discussões da Associação das
Nações do Sudeste Asiático (Asean). Embora ele reconhecesse que houve
"progressos" nas relações com Tóquio desde a saída de Junichiro
Koizumi, o predecessor de Shinzo Abe, o chefe do governo chinês
sublinhou que permanecem "muitas dificuldades e muitos problemas" entre
os dois países.
A chantagem nuclear que vem sendo exercida pela
Coréia do Norte é um dos motivos que explicam este empenho dos três
países em deixar de lado as manifestações dos seus antagonismos
históricos.























