Estudo vê em MST 'pilar' da reforma agrária
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Relatório do Centro de Pobreza afirma que movimentos sociais são importantes para estimular políticas de redistribuição de terras. Em estudo que analisa a experiência de 20 países no setor, o órgão avalia que a “intensa pressão” exercida pela mobilização de camponeses e trabalhadores rurais contribuiu com parte significativas das políticas bem-sucedidas de redistribuição de terra.
A atuação de organizações sociais como o MST (Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é um dos quatro pilares que
sustentam um modelo alternativo de reforma agrária proposto pelo Centro Internacional de Pobreza — um braço do PNUD com
sede em Brasília. Em estudo que analisa a experiência de 20 países no
setor, o órgão avalia que a “intensa pressão” exercida pela mobilização
de camponeses e trabalhadores rurais contribuiu com parte
significativas das políticas bem-sucedidas de redistribuição de terra.
Entre os países que tiveram o processo de reforma agrária desencadeado
pela mobilização de organizações formadas por camponeses e
trabalhadores rurais, o estudo cita o México (nos anos 30), a Índia
(nos anos 60 e 70) e o Chile (no inicio da década de 1970). “Mais
recentemente, organizações influenciadas pela pobreza rural têm
emergido nas Filipinas e no Brasil com campanhas agressivas pela
reforma agrária”, afirma o texto, intitulado O Debate Inconcluso sobre Reforma Agrária: Além do Modelo Estatal e do Modelo de Mercado. Nenhum movimento (nem o MST) é nominalmente citado no artigo.
O estudo apresenta uma alternativa aos modelos clássicos de reforma
agrária. Os autores do trabalho — o diretor do Centro Internacional de
Pobreza, Terry McKinley, e o pesquisador canadense Saturnino Borras, da
Universidade de Mary — partem do princípio de que tanto a intervenção
Estatal como as regras de mercado não asseguram o sucesso das políticas
de redistribuição de terras. O modelo estatal (que costuma envolver
confisco de latifúndios, taxação progressiva da terra ou pagamento de
subsídios a agricultores que fizerem transferência de terra) interfere
nas relações de mercado, segundo os dois estudiosos. O modelo de
mercado (em que assentados compram propriedades de grandes fazendeiros
pelo valor de mercado) “subestima” o poder político e econômico dos
grandes agricultores e “superestima” o poder dos sem-terra.
O estudo propõe então um modelo de “redistribuição alternativa” calcado
em quatro pilares. Além dos movimentos campesinos, o processo de
reforma agrária deve contar com uma ampla coalizão política
pró-reforma, que defenda os interesses dos sem-terra no parlamento; com
um investimento público substancial, que permita que os assentados
iniciem a produção; e com uma estratégia de desenvolvimento que integre
as ações e promova o crescimento pró-pobre para assegurar a
sustentabilidade da nova estrutura agrária.
O trabalho ressalva que, embora devam ser autônomos e politicamente
independentes, esses movimentos dificilmente atingirão seus objetivos
sem fazer alianças políticas. “As forças anti-reforma freqüentemente
comandam os fortes e consolidados grupos políticos, tanto em nível
local como nacional”, aponta. Nesse contexto, o documento destaca a
importância do estabelecimento de uma coalizão política favorável à
reforma agrária — o segundo pilar da proposta de redistribuição
alternativa.
Apesar de apresentar uma terceira via aos modelos clássicos de reforma
agrária, o estudo reconhece a existência de experiências bem-sucedidas
no caso de intervenções do Estado na estrutura de distribuição. “O
modelo estatal de reforma agrária — embora tenha sido muito criticado
nos anos recentes — registrou alguns sucessos notáveis”, aponta. “Os
casos de sucesso — Japão, Coréia do Sul e Taiwan — são bem conhecidos.
Os esforços de larga escala de outros países, como Bolívia, Chile, Cuba
e México, são amplamente reconhecidos”, completa.