Emissão de gases precisa cair à metade para salvar Amazônia
Publicado em 16/01/2007 21:47
Segundo Inpe, para evitar a savanização de parcelas significativas da Amazônia, é necessária a redução nas taxas de emissão de gases do efeito estufa. União Européia anunciou compromisso, mas EUA e China ainda não.
Natália Suzuki - Carta Maior
SÃO
PAULO – Para que a Amazônia não seja acometida por intensas
transformações no seu bioma, seria necessário que até 2060 os níveis de
emissão dos gases provocadores do efeito estufa fossem reduzidos em
50%. Ainda assim, muitas alterações climáticas e ambientais serão
inevitáveis, já que o aquecimento da Terra alcançará, pelo menos, 2oC
nas próximas cinco décadas. Essa avaliação é sustentada por um dos
principais órgãos de pesquisa do Brasil, o Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (Inpe), que no fim do ano passado divulgou um
estudo em que afirma que a floresta tropical mais rica em
biodiversidade do mundo pode ter uma parcela transformada em savana nos
próximos 70 e 100 anos.
De acordo com o pesquisador do Inpe
Carlos Nobre, as causas do aquecimento global se devem ao consumo
crescente de energia. “O uso de energia está subindo globalmente. Há
mais gente no planeta, a população está crescendo e esse crescimento só
deve estabilizar em 9 bilhões de habitantes. Ainda teremos um aumento
de 3 bilhões de pessoas. Além disso, o consumo per capita aumentou mais
do que o de 50 anos atrás. Esse crescimento de energia per capita tem
sido maior do que o ritmo de crescimento populacional”, explica Nobre.
Isso ocorre, segundo o pesquisador, devido ao modelo de vida que as
sociedades estão seguindo: “Há uma grande queima de combustível fóssil
para produção de energia e isso faz com que haja mais liberação de
gases de efeito estufa na atmosfera. Essa energia não é renovável e,
cada vez mais, o nosso modo de vida exige energia”.
Nobre
explica que, a partir dos estudos, é possível traçar dois cenários para
o futuro da Amazônia. Numa primeira situação, o planeta teria sua
temperatura aumentada entre 4 e 6 graus. “Esse é um cenário pessimista
e que traria uma alteração muito significante para a Amazônia”, afirma
o pesquisador do Inpe. Nesse caso, é previsto que cerca de 30% da
Amazônia sofra um processo de savanização. “A vegetação da floresta se
tornaria semelhante ao do Brasil Central”, compara Nobre.
Uma
segunda situação prevê que a Terra eleve sua temperatura entre 2 e 4
graus. “Apesar de ser um cenário mais otimista, ele também é
preocupante. Nessa situação, uma área menor se tornaria savana: cerca
de 10 a 15%. Em nenhum dos dois cenários, a Amazônia sai incólume, pois
as mudanças ocorrem em uma velocidade muito grande e a maioria delas
não tem mais volta”, afirma o pesquisador. Segundo ele, a mudança
climática hoje é inevitável. “Não dá para retirar os gases do efeito
estufa rapidamente da atmosfera e eles vão continuar agindo. Algum
aumento de temperatura será inevitável”.
Diante dessa situação,
Nobre diz que o objetivo da comunidade científica é fazer com que o
planeta não tenha um aquecimento maior do que os 2oC para que as
alterações naturais sejam minimizadas. Para isso, ele afirma que é
preciso reduzir ao máximo as taxas de emissão tanto por países
desenvolvidos como os em desenvolvimento. “É preciso que entre 2050 e
2060 haja redução de, pelo menos, 50% dos níveis dos gases de efeito
estufa no planeta. Esse é o maior desafio ambiental”, afirma Nobre.
Há
cerca de uma semana, a União Européia propôs redução de pelo menos 20%
das emissões de gases causadores do aquecimento global até 2020 em
relação aos níveis de 1990. Marcelo Marquesini, da campanha de
florestas da organização não-governamental Greenpeace, explica que os
países determinam o que é viável mediante aos seus parâmetros
econômicos e de desenvolvimento e ressalta que ainda há aqueles que não
se comprometeram a reduzir as suas taxas de emissão. “O Estados Unidos
e a China nem cogitam essa possibilidade”, diz Marquesini.
De
acordo com Nobre, há três vetores que são responsáveis diretos pelo
processo iminente ao qual a Amazônia está sujeito. Além do aquecimento
climático que, segundo o pesquisador, atinge níveis globais, a Amazônia
enfrenta problemas locais, como o desmatamento e as queimadas das suas
florestas.
Marquesini cita a seca prolongada do ano passado na
região como uma das conseqüências do processo de aquecimento global. De
acordo com ele, determinadas alterações são inevitáveis e irreversíveis
independentes de medidas que tentam frear o processo. “O Estado do Mato
Grosso, por exemplo, perdeu muita vegetação ao longo dos anos e houve
mudanças no seu regime de chuvas”.
O processo de savanização
da Amazônia é lento e não é perceptível num curto espaço de tempo ou a
olho nu. “Apesar de a transformação ser lenta, na escala de evolução,
décadas são equivalentes a segundos. Mas o fato de a maioria das
pessoas não perceber as alterações, não significa que elas não sejam
afetadas diretamente”, diz Nobre. Ele menciona a ocorrência de furacões
cada vez mais intensos na região do Caribe, os quais, segundo estudos,
são influenciados pelo aquecimento global que incide sobre os oceanos,
lugar de origem desses fenômenos climáticos.
Marquesini
destaca que ações pessoais e cotidianas podem ter efeito positivo.
Economizar o consumo de energia e de água e o não financiamento de
madeira ilegal são algumas medidas possíveis de serem adotadas.
Conseqüências
De
acordo com Nobre, há duas conseqüências decorrentes do processo de
savanização da Amazônia, que têm efeitos tanto no âmbito global, como
local. A perda de floresta tropical contribui para o efeito estufa,
aumentando o problema do aquecimento global. A razão disso é que o
bioma da Amazônia tem capacidade de armazenar mais gás carbônico do que
os demais. “Com a perda da floresta, há perda de biomassa e,
conseqüentemente, aumenta-se o gás carbônico na atmosfera, porque ele é
menos absorção”.
O segundo efeito é a perda de biodiversidade.
Florestas tropicais, especialmente a Amazônia, contam com uma grande
diversidade de espécies da fauna e da flora, muitas delas, até hoje
desconhecidas. “O cerrado tem um terço da biodiversidade da floresta
tropical. Se a Amazônia se savanizar, teremos uma erosão da
biodiversidade e uma perda enorme de material genético. Muitas espécies
entrarão em extinção para sempre”, afirma o pesquisador do Inpe.























