É um erro tratar crime no Brasil como terrorismo, diz Anistia
Publicado em 11/01/2007 14:41
Na 2ª parte da entrevista concedida à Carta Maior,
pesquisador da Anistia Internacional fala das expectativas do combate à
violência no governo Lula e critica a opção do presidente em definir os
ataques no Rio como atos terroristas. (1ª parte anexa no final dessa entrevista)
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO
PAULO – O governo federal anunciou nesta quarta-feira (10), através da
ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), que vai responder positivamente
aos pedidos dos governadores da região Sudeste para combater o crime
organizado e garantir a segurança da população. Aumentará os recursos
destinados ao setor através do Fundo Nacional de Segurança Pública e do
Fundo Nacional Penitenciário e também o número de policiais federais
que atuarão nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e
Espírito Santo. Segundo a ministra Dilma, há total interesse da União
em desenvolver um programa em conjunto com os governos estaduais no
enfrentamento da violência. Na próxima semana, a Operação Divisa
Segura, que contará com a participação do efetivo da Força Nacional de
Segurança, deve começar a funcionar em 19 pontos do interior do Rio de
Janeiro. Na capital fluminense, os homens da Força Nacional, que já
chegaram ao Estado, trabalharão como um grupo tático, participando de
operações especiais em conjunto com a Polícia Militar.
A
parceria entre os governos federal e estaduais no combate ao crime –
neste episódio, por enquanto, prometida pelos “dois lados” da história
– sempre foi considerada por especialistas em segurança pública e
organizações de defesa dos direitos humanos como um dos pilares
centrais pra redução da violência. Historicamente, no entanto, muito
pouco foi feito no Brasil para concretizar essas iniciativas. Em
declaração pública enviada para diversos países logo após os ataques
ocorridos no Rio de Janeiro no final de 2006, a Anistia Internacional
afirmou que “diante de tamanha violência, os governos estadual e
federal ofereceram pouquíssimo em termos de segurança efetiva aos seus
cidadãos, especialmente aos mais pobres, que dispõem da mínima proteção
do Estado”.
Nesta segunda parte de uma entrevista exclusiva concedida à Carta Maior,
Tim Cahill, pesquisador da Anistia para o Brasil, afirma que as bases
para um trabalho cooperado entre União, Estados e municípios já foram
desenhadas em 2002, quando foi desenvolvido o Sistema Único de
Segurança Pública. Até o momento, no entanto, não foram implementadas (clique aqui para
ler a primeira). Ele também fala das expectativas para o segundo
mandato de Lula e critica a opção do presidente em enviar ao Congresso
o projeto de uma Lei Antiterrorismo.
Carta Maior – A
iniciativa do Gabinete de Ação Integrada de segurança pública do
Sudeste tem, como um de seus objetivos, desburocratizar a relação entre
as polícias dos quatro Estados (RJ, SP, MG e ES). Na sua opinião, o que
falta para as nossas polícias trabalharem em conjunto?
Tim Cahill –
Existe um pensamento muito isolado em como tratar o crime no Brasil.
Por isso, qualquer iniciativa de trabalho em conjunto, que possa
aumentar a inteligência e encontrar mecanismos não apenas para conter
os chamados crimes de base, mas também as rotas do tráfico de drogas e
de armas e combater de fato as lideranças, aumentará a força dos
Estados para concretizar uma política de segurança melhor. Isso tem que
ser visto como uma questão positiva. No entanto, também é importante
lembrar que o governo federal tem um papel decisivo neste processo. A
base do conceito do Susp [Sistema Único de Segurança Pública] era
exatamente aumentar essa comunicação, a participação da inteligência e
o trabalho conjunto no combate à criminalidade. Sabemos que há pessoas
nas polícias desses Estados interessadas em desenvolver uma política
efetiva. Esperamos que essa iniciativa seja um sinal para o Brasil. Os
governos têm que reconhecer que não será com uma lei nova ou uma
declaração dada no Jornal Nacional que o problema será
resolvido, e sim com uma reforma profunda e detalhada do policiamento e
do sistema judicial, para se chegar a um combate mais inteligente e
mais respeitoso da criminalidade.
CM – As bases para
esta nova configuração da Segurança Pública não foram desenhadas no
Susp? Quais as perspectivas de elas se efetivarem num segundo mandato
Lula?
TC – No último governo, todas as promessas de
implementação do SUSP não se concretizaram. O governo claramente se
afastou do tema, identificando-o como negativo, e fez o que os governos
federais sempre fazem: jogou a responsabilidade para os Estados. Quando
ouvimos, em seu discurso de posse, que o presidente iria tratar a
segurança com prioridade, criamos uma certa expectativa. Sabemos que a
única forma de trabalhar este tema é com uma maior colaboração entre
todas esferas de governo – federal, estadual e municipal –, minimizando
qualquer fator político ou politizado neste processo, procurando
respostas de longo prazo, que venham de vários governos (ou seja, não é
um governo só que vai resolver o problema), e combatendo os maus
policiais dentro da estrutura. Se existir essa vontade, a expectativa
de andarmos pra frente pode ser grande. Mas as primeiras respostas de
identificação das ações como terroristas foram uma grande decepção.
CM – Uma
das ações anunciadas pelo governo como resposta aos ataques do crime
organizado no Rio de Janeiro foi criar uma lei antiterrorismo no
Brasil, que permitiria aumentar o tempo de detenção dos criminosos. Na
sua opinião, esta pode ser uma solução factível para o problema?
TC –
A resposta do presidente Lula aos ataques, utilizando a temática do
terrorismo, falando da introdução de uma legislação que vai definir
esses crimes como terroristas, é uma das questões mais preocupantes
desta crise. Isso nos assusta profundamente. É exatamente essa a
linguagem que tem sido usada internacionalmente na guerra contra o
terror e que o próprio Brasil, no âmbito das Nações Unidas, tem
criticado como uma postura que representa uma das maiores ameaças para
os direitos humanos hoje em dia. Se esta será a resposta do governo
federal para confortar a população no segundo mandato, será uma traição
a tudo que vem sendo prometido com a implantação do Susp e a proposta
de desenvolver uma política de segurança verdadeira para a população.
CM - A
própria ONU teve dificuldades em definir “terrorismo” e o que seriam
“atos terroristas”. Pra você, o que está ocorrendo no Brasil são atos
terroristas?
TC – Muitos governos têm utilizado o termo
“terrorismo” para responder a suas necessidades políticas imediatas,
para atingir um grupo ou outro. Isso é totalmente contrário à definição
de proteção dos direitos humanos. O combate ao terrorismo têm sido,
inclusive, usado como justificativa para a redução de proteções que
sempre existiram, e não tem aumentado a segurança da população. Um
exemplo disso foi a introdução, na Inglaterra, de um método do
policiamento que permitia aos policiais atirar num momento de ameaça.
Isso levou à morte do brasileiro Jean Charles em Londres. Há vários
exemplos de leis introduzidas neste sentido, que foram muito criticadas
pela Anistia Internacional pela forma como utilizam essa vaga definição
de terrorismo no combate ao crime.
Me parece que é exatamente
isso que está ocorrendo no Brasil. Em vez de identificar os crimes
reais que contribuem para esta violência, criam uma definição de
terrorismo. Dizem, por exemplo: “queimar um ônibus é um ato
terrorista”, e assim podem aumentar a pena para este crime, em vez de
identificar as questões que levaram alguém a queimar o ônibus e o que
precisa ser combatido no Rio de Janeiro para se conseguir resultados em
longo prazo. Essa resposta é em curto prazo e só aumentará os problemas
no Brasil, além de não refletir o tipo de análise e pensamento
introduzidos no Plano Nacional de Segurança Pública desenvolvido pelo
governo em 2002 e que prometia uma profunda reforma no combate ao crime
organizado. Assusta que se comece a falar em combater o crime
organizado desta forma, porque isso significa que o país pode adotar
outra técnica – criticada pela Anistia Internacional e por todos os
movimentos de direitos humanos – que, até agora, parecia ser contrária
ao pensamento do governo.
CM – Que conseqüências esta opção pode ter para a população em geral?
TC –
A redefinição, após tantos anos, do crime organizado no Brasil como
crime terrorista vai acabar com qualquer possibilidade de entender as
origens reais criminalidade, suas causas. O que acontecerá será o
aumento do número de pessoas encarceradas e nada mais. E, como temos
visto em São Paulo, no Rio e em Estados como o Espírito Santo e
Pernambuco, os problemas carcerários têm contribuído para a criação de
facções e para o crescimento da criminalidade. Aguardemos agora, então,
pra ver se isso foi só para dizer algo aos jornais no pós-ataque ou se
será algo que realmente vai definir a forma pela qual o governo
pretende tratar da segurança. Se for isso realmente, será algo muito
negativo para o futuro do Brasil.























