Dívida federal com o mercado cresce R$ 470 bi no governo Lula
Publicado em 18/01/2007 09:58
Juros altos fizeram dívida em títulos públicos aumentar 75% desde 2002 e subir para 52% do PIB. Neste ano, conta vai ficar pelo menos R$ 136 bilhões mais cara. Para economistas, governo continua refém do mercado.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– A dívida do governo federal com o chamado “mercado”, negociada na
forma de “títulos públicos”, teve, segundo o próprio ministério da
Fazenda, um “forte” aumento no primeiro mandato do presidente Lula,
devido à persistência de taxas de juros elevadas, ainda que
declinantes. De dezembro de 2002 a dezembro de 2006, subiu R$ 470
bilhões. O salto de 75% empurrou-a para R$ 1,093 trilhão e aumentou o
peso dela nas riquezas geradas pela economia brasileira durante um ano.
A dívida mordia 46% do produto interno bruto (PIB) em 2002, agora comeu
52% do PIB estimado pelo governo para 2006.
Só no ano passado, a
dívida cresceu R$ 113 bilhões, apesar da redução do juro do Banco
Central (BC) - que tem impacto direto e indireto no endividamento - ao
longo dos doze meses, e de 2006 ter sido um período favorável, segundo
a Secretaria do Tesouro Nacional, repartição da Fazenda que administra
a conta. Nesta quarta-feira (17), o Tesouro avisou que a dívida subirá
de novo em 2007 - R$ 136 bilhões, no mínimo; mas pode chegar a R$ 206
bilhões.
O Coordenador-Geral da Dívida Pública, Ronnie Tavares,
admite que houve “incremento nominal relativamente forte da dívida”
entre 2002 e 2006, em conseqüência dos juros. Ao divulgar os números
nesta quarta-feira (17), disse que o endividamento aumentará sempre que
o governo não tiver dinheiro suficiente para pagar todo volume de
juros. Sem quitá-los, precisa fazer dívida nova, pedindo emprestado ao
mesmo “mercado” credor da dívida velha.
Neste ano, de acordo com
o orçamento, o governo federal separou R$ 89 bilhões do que arrecadar
com tributos para pagar juros da dívida (superávit primário). Mas a
conta total dos juros vinculados aos títulos públicos será de R$ 103
bilhões.
Para a presidente da Sociedade Brasileira de Economia
Política, Leda Paulani, a dívida “exige que o juro caia”. O raciocínio
é o seguinte: o “mercado” justifica a cobrança de juro elevado, sem o
qual boicotaria a rolagem da dívida, argumentando, entre outras coisas,
que haveria risco de calote em função do tamanho da fatura. Só que juro
alto mantém a dívida grande e alimenta a “ameaça” de calote.
Ex-presidente
do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal, Roberto
Piscitelli concorda com a avaliação. “O acréscimo de endividamento se
dá por razões autônomas, por um juro desnecessariamente elevado”, disse
Piscitelli.
Apesar de ter patrocinado uma expansão de R$ 470
bilhões da dívida, o governo Lula dá sinais de que está disposto a
contê-la reduzindo os juros. Especialmente depois da troca de Antonio
Palocci por Guido Mantega no ministério da Fazenda. Palocci queria
controlar a dívida cortando gastos, ou seja, pagando quantias maiores
de juros aos credores. Mas a idéia foi não só barrada por Mantega, como
o governo fará o oposto. Na prática, vai diminuir os pagamentos,
ampliando um certo tipo de investimento (PPI). (Ver também: Salário mínimo de R$ 380 é confirmado; pacote fica para 2007
Enquanto
reduz as quantias pagas de juros, o governo espera que a taxa do Banco
Central (BC) continue em queda, o que ajuda segurar a dívida. A chamada
Selic corrige diretamente cerca de um terço da dívida federal em
títulos e tem influência indireta todo o restante.
O problema,
segundo os economistas que entendem que a dívida atrapalha o país, está
na velocidade com que o governo baixa os juros e no tamanho da queda.
“As condições para redução dos juros nunca foram tão favoráveis, mas se
passou para o chamado ‘mercado’ um determinado tipo de comportamento
que, se mudar abruptamente, pode haver conseqüências desastrosas”,
afirmou Leda.
O ex-secretário do Tesouro Nacional Carlos Kawall,
que deixou o cargo em dezembro, admitiu, certa vez, que o governo é
refém do “mercado” e da hipótese de “conseqüências desastrosas”. Ao ser
perguntado sobre o motivo de o governo não empurrar títulos com juros
mais baixos, respondeu: “Temos responsabilidade com o futuro do País.
[Forçar] Onera mais as gerações futuras.”
O poder do “mercado”
evidencia-se, segundo alguns economistas, mesmo em situações positivas.
De 2002 a 2006, o Tesouro diminuiu o peso da dívida ligada do juro do
BC, substituindo-a por títulos com juros conhecidos de antemão
(prefixados). Mas foi obrigado a pagar um preço.
“O ‘mercado’
abriu mão de títulos indexados à Selic para ficar com prefixados com
taxas mais maiores. O ‘mercado’ sempre ganha, sempre domina a situação,
o Tesouro não tem poder nenhum”, afirmou o economista especializado em
política fiscal Francisco Lopreato, da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Segundo ele, a força do “mercado” ajuda a entender
porque o juro do BC caiu durante todo o ano de 2006, e mesmo assim a
dívida cresceu.
Para tentar construir alguma autonomia em
relação aos limites do “mercado”, o Tesouro traçou uma estratégia de
longo prazo de gestão da dívida, cujas linhas gerais também foram
anunciadas nesta quarta-feira (17) (Ver também: Estudo do Tesouro traça estratégia para os próximos dez anos).
O objetivo principal é tornar a gestão da dívida mais barata e menos
arriscada para o país. “Países com melhor gestão de dívida tem
estratégias de longo prazo. Não é só ir atrás do que o mercado está
sinalizando”, disse o Coordenador-Geral de Planejamento Estratégico da
Dívida Pública, Otávio Ladeira de Medeiros.























