Bruxelas propõe reduzir em 20% as emissões de CO2 até 2020
Publicado em 11/01/2007 09:51
A mudança climática obrigará os turistas a trocar as praias do Mediterrâneo pelas do norte da Europa
Ana Carbajosa
em Bruxelas
A Comissão Européia propôs ontem reduzir as emissões de gases poluentes
até 2020 em "pelo menos" 20% em relação aos níveis de 1990. É a meta
mais ambiciosa colocada sobre a mesa até agora, fruto das análises
catastróficas feitas por Bruxelas.
Um
estudo divulgado ontem pelo Executivo da Comunidade Européia afirma que
a mudança climática terá um impacto devastador no sul da Europa, em
particular para as colheitas e para o turismo, que se deslocará para o
norte em busca de temperaturas mais suportáveis. "A distribuição dos
impactos da mudança climática provavelmente será desigual. Algumas
regiões da Europa sofrerão de forma desproporcional. No sul da Europa,
por exemplo, a mudança climática reduzirá a produtividade das
plantações, aumentará as mortes por calor e terá conseqüências
negativas para o turismo de verão", afirma um dos documentos incluídos
no pacote de medidas energéticas que o Executivo comunitário divulgou
ontem e que pretendem limitar o aumento da temperatura do planeta a 2
graus em relação ao nível de 1990.
O transbordamento dos rios,
fortes inundações, migrações maciças de espécies animais e um forte
impacto econômico são outros efeitos previstos pelo chamado "estudo
Peseta", do Centro de Pesquisas da Comissão Européia, realizado graças
a imagens de satélite e à compilação dos dados científicos mais
recentes.
"O padrão dos verões pode mudar radicalmente ao longo
deste século devido à mudança climática. Um lugar com condições
excelentes, situado hoje em torno do Mediterrâneo - especialmente para
o turismo de praias - se deslocará para o norte, talvez até o mar
Báltico ou o mar do Norte", diz um dos trabalhos comunitários. Mas
explica que o êxodo turístico será mais ou menos maciço dependendo da
capacidade das empresas e dos próprios veranistas de organizar suas
férias fora de temporada, por exemplo, na primavera.
O fluxo de
turistas que veraneiam nas costas do Mediterrâneo é o maior do planeta.
Esses viajantes - cerca de 100 milhões por ano - gastam 100 bilhões de
euros em seu período de férias. O chamado estudo Peseta faz essas
projeções considerando que no final do século atual as emissões de
dióxido de carbono duplicarão ou até triplicarão em relação aos níveis
pré-industriais. Segundo esses cálculos, as colheitas diminuirão até
22,4% no sul da Europa, porque o período de crescimento das plantações
será mais curto. No norte do continente, porém, as plantações serão
beneficiadas em até 70% pelo encurtamento dos períodos de gelo.
As
ondas de calor também acarretarão, segundo a análise científica
apresentada ontem, um aumento da mortalidade durante os meses de verão,
assim como um maior número de acidentes relacionados a fenômenos
meteorológicos extremos como inundações ou tempestades. Esses aumentos
são calculados pela Comissão Européia em 86 mil mortos a mais por ano
na UE, para o caso do cenário mais catastrófico dos que examina, isto
é, um aumento de 3 graus na temperatura a partir de 2071. Mas se as
medidas que a comissão propõe funcionarem e o planeta se aquecer
somente 2,2 graus, o número de vítimas mortais oscilará em torno de 36
mil. Trabalhar para reduzir os efeitos da mudança climática também terá
um custo astronômico, que Bruxelas estima em "bilhões de euros" por ano
para a segunda metade do século 21.
A compilação de dados
científicos que acompanha o documento comunitário é uma bateria de más
notícias que convida à ação imediata. O ano de 2005 foi o mais quente
dos registrados até hoje, segundo dados da Nasa, que também afirma que
os dez anos mais quentes da história tiveram lugar na década de 1990.
Diante desse panorama desolador, a Comissão Européia lançou ontem um
desafio à comunidade internacional ao propor uma redução unilateral de
20% das emissões poluidoras até 2020, em relação aos níveis do início
dos anos 90.
Bruxelas também vai propor aos demais países
desenvolvidos que adotem um acordo internacional de combate à mudança
climática que eleve essa cifra para 30%. Esse número supera com folga
os objetivos fixados pelo Protocolo de Kyoto, que estabelece uma
redução de 5% até 2012 e para a União Européia de 8%. Mas os planos de
Bruxelas ainda precisam da aprovação dos governos dos 27 países membros
e do Parlamento Europeu.
"Caso adotada, será de longe a política
mais ambiciosa, não só na Europa mas em todo o mundo, de combate à
mudança climática", afirmou ontem durante a apresentação do pacote de
medidas o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso.























