Brasil não avança no combate a violações de direitos humanos
Publicado em 17/01/2007 14:01
Violência policial, uso da tortura em presídios e unidades juvenis e trabalho escravo são apontados pelo estudo internacional como os principais problemas do setor no país. Impunidade dificulta combate aos crimes.
Da Redação – Carta Maior
SÃO
PAULO – Em seu último relatório global, lançado internacionalmente na
última semana, a Human Rights Watch ressalta a importância de avanços
ocorridos recentemente na América Latina no que se refere à defesa e
promoção dos direitos humanos. Segundo a organização, uma das mais
importantes da área em todo o mundo, praticamente todos os países do
continente ratificaram o estatuto de Roma, que institui o Tribunal
Penal Internacional, e muitos têm resistido à intensa pressão
norte-americana – incluindo ameaças de corte de ajuda financeira dos
Estados Unidos – para assinarem acordo bilaterais que excluem os
cidadãos americanos da jurisdição do Tribunal. Mais recentemente ainda,
países como a Argentina, o Chile e o México trabalharam fortemente pela
criação do novo Conselho de Direitos Humanos da ONU, tanto que os
mexicanos acabaram sendo escolhidos para ocuparem a primeira
presidência do órgão.
O Brasil, no entanto, apesar do
reconhecimento dos esforços do governo federal, segue sendo palco de
significativas violações de direitos humanos e um país onde tais crimes
raramente são punidos. Um dos principais problemas destacados pela
Human Rights Watch é a violência policial, caracterizada pelo uso
excessivo da força, por execuções extrajudiciais, pela prática da
tortura e outras formas de maus-tratos. De acordo com dados oficiais
citados no relatório, a política de São Paulo matou 328 pessoas nos
primeiros seis meses de 2006, um aumento de 84% em relação ao mesmo
período de 2005. A maior parte das mortes ocorreu em maio, diante da
reação agressiva da polícia aos ataques do PCC (Primeiro Comando da
Capital).
“Em uma investigação preliminar, um comitê
independente revelou fortes evidências de que várias das mortes
documentadas foram execuções extrajudiciais”, cita o estudo, se
referindo aos dossiês apresentados pela comissão independente formada
por organizações da sociedade civil e pelo ministério público (leia
matéria "Polícia aponta para execução em 70% dos casos").
A
violência policial no Rio de Janeiro também foi destaque na pesquisa.
No Rio, os policiais mataram 520 pessoas no primeiro semestre de 2006,
segundo dados classificados oficialmente como “resistência seguida de
morte”. Do outro lado, dezesseis policiais foram mortos no mesmo
período.
Em relação à tortura, o Brasil reconheceu a competência
do Comitê da ONU de receber e avaliar denúncias feitas diretamente por
cidadãos, de acordo com o Artigo 22 da Convenção da ONU contra Tortura
(leia matéria "Brasil pode ter Observatório da Tortura a partir de 2007").
Em junho do ano passado, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da
Presidência da República também criou o Comitê Nacional para Prevenção
e Controle da Tortura, composto por autoridades públicas e
representantes da sociedade civil, e encarregado de propor e monitorar
mecanismos de combate à prática, assim como realizar visitas de
inspeção a locais de detenção. A tortura, no entanto, na avaliação da
Human Rights Watch, permanece grande no Brasil. “Relatórios apontam que
policiais e agentes penitenciários torturam pessoas sob sua custódia
como forma de punição, intimidação e extorsão. A polícia também usa a
tortura como meio de obter informações ou confissões forçadas de
pessoas suspeitas de terem cometido crimes”, afirma.
Pouco
também se avançou em relação às condições das unidades prisionais
brasileiras, que em junho de 2006 mantinham 371.482 detentos, excedendo
a capacidade do sistema em mais de 150 mil vagas. O caso mais grave do
período foi o que aconteceu na penitenciária de Araraquara, no interior
de São Paulo, onde, após uma rebelião que destruiu a unidade, 1.500
pessoas ficaram alojadas por meses em condições subumanas (leia
matérias "Política do encarceramento faliu sistema prisional em São Paulo" e "São Paulo não cumpre medidas da OEA para Araraquara").
Em Mirandópolis, também no interior do estado, pela mesma razão, 1.200
detentos foram mantidos por dois meses em uma área planejada para
abrigar não mais que 450 (leia matéria "Penitenciária de Mirandópolis funciona em condições subumanas").
No
Espírito Santo, dois presos foram mortos, um deles decapitado, durante
uma rebelião na penitenciária de Viana, instalação de segurança máxima
localizada no município de Vila Velha. Em Rondônia, mais de 200 pessoas
foram feitas reféns por 24 horas na prisão de Urso Branco durante
motins em junho e julho de 2006. Embora a Corte Interamericana de
Direitos Humanos tenha reiterado ao Brasil que adote medidas para
garantir a segurança dos detentos em Urso Branco em quatro ocasiões
desde 2002, o Brasil falhou em fazê-lo. Segundo a organização
internacional, diversas rebeliões por todo o país poderiam ser evitadas
se o país melhorasse as condições de suas prisões.
O sistema
de detenção juvenil também foi criticado, com suas unidades apontadas
como locais de condições desumanas e de violência sistemática (leia
matérias "Organizações reivindicam desmonte imediato da Febem" e "Tortura na Febem-SP continua até em unidades pequenas").
Enquanto isso, defensores dos direitos das crianças e adolescentes que
se manifestam contra o sistema são perseguidos judicialmente. É o caso
de Conceição Paganele, que denunciou a tortura na Febem (Fundação
Estadual do Bem-Estar do Menor) em São Paulo e está sendo investigada
por incitar rebeliões e facilitar a fuga de jovens internos.
No
meio rural, além das mortes decorrentes de conflitos agrários,
estimativas indicam que entre 25 e 40 mil pessoas ainda estão
submetidas à situação de trabalho escravo no Brasil. A Organização
Internacional do Trabalho relatou em 2006 que a impunidade é um dos
maiores obstáculos para erradicar essa prática do país. Um projeto de
lei propondo a expropriação de terra pelo uso do trabalho escravo está
parado no Congresso desde 2001.
Impunidade
“Violações
de direitos humanos no Brasil raramente geram processos judiciais”,
disse a Human Rights Watch. Em uma tentativa de remediar este problema,
o governo brasileiro aprovou, em 2004, uma emenda constitucional que
torna as violações de direitos humanos crimes federais. A emenda
permite que certas violações sejam transferidas da competência da
justiça estadual para a jurisdição federal. Apesar disso, até o
momento, nenhuma transferência foi feita.
O relatório
internacional destaca que, em 2006, o Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo anulou a condenação do Coronel da Polícia Militar Ubiratan
Guimarães, responsável pela operação que resultou na morte de 111
presos no centro de detenção do Carandiru, em 1992. Guimarães havia
sido condenado em 2001 a 632 anos de prisão por seu papel na operação.
Mas o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a decisão com base no
argumento de que o coronel havia atuado de acordo com o estrito
cumprimento do dever legal ao chefiar a invasão do centro de detenção
para se conter uma rebelião (leia matéria "Tribunal de Justiça absolve comandante do massacre do Carandiru"). Até o momento, nenhum outro policial foi julgado em relação a este caso.
Em
um passo positivo, por outro lado, em agosto de 2006, um júri no Rio de
Janeiro condenou o policial militar Carlos Jorge Carvalho a 543 anos de
prisão por seu envolvimento no massacre da Baixada Fluminense, em que
29 pessoas foram executadas em 31 de março de 2005. Quatro outros
policiais processados pelo massacre ainda aguardam julgamento.
Em
outra importante decisão, em outubro do ano passado, 14 oficiais e
agentes penitenciários foram condenados por torturar 35 adolescentes no
complexo Raposo Tavares da Febem em São Paulo. Dois oficiais de alto
escalão foram condenados a 87 anos de prisão, a maior pena por tortura
de que se tem notícia no país (leia matéria "Diretores e funcionários da Febem são condenados por tortura").























