15 mil abrem FSM 2007 em Nairóbi, Quênia
Publicado em 21/01/2007 15:24
Encontro pretende marcar entrada da agenda africana no movimento altermundista. Objetivo não é conquistar mais solidariedade, mas fortalecer o continente e seus movimentos.
Bia Barbosa e Verena Glass
NAIROBI, QUÊNIA
– Cerca de 15 mil pessoas participaram neste sábado (20) da cerimônia
de abertura da sétima edição do Fórum Social Mundial em Nairóbi,
capital do Quênia. A tradicional marcha que antecedeu o evento – e que
reuniu por volta de 8 mil ativistas –, no entanto, deu aos
participantes uma idéia mais exata do que se pode esperar deste FSM
2007. Partindo da favela Kibera, a terceira maior da África, apresentou
uma predominância absoluta de organizações africanas, muitas delas
ligadas a ordens religiosas ou de cooperação e solidariedade
internacionais.
Às margens, caminhavam algumas crianças ou
jovens, meio tontos pela inalação de cola, mas o tom das palavras de
ordem apontou para uma nova reivindicação da região: a África não deve
ser estigmatizada como um caos de pobreza, doenças e conflitos,
dependente da solidariedade do mundo desenvolvido. E sim uma região com
um histórico rico de resistência e lutas, que exige o direito de
decidir seu destino.
Pelo sim, pelo não, os europeus da marcha
em sua maioria eram envolvidos com trabalhos de cooperação e
solidariedade. Massimo Barbiero, italiano que vive há sete anos em
Nairóbi, trabalha na comunidade católica Papa João XXIII, na favela de
Kahawa Ocidental, onde vivem atualmente cinco mil pessoas. Segundo ele,
apesar dos grandes problemas sociais, há um enorme potencial de
desenvolvimento. “Com tudo o que existe, as crianças aqui são mais
felizes que na Itália”, acredita.
Sobre o FSM, suas
expectativas estão divididas. “Espero que este Fórum seja o momento
para se dar voz aos pobres. Em muitos processos, há um monopólio por
parte das grandes organizações não governamentais. Espero que aqui não
seja assim. Acho que o Fórum é um espaço para a construção de alguma
mudança no quadro de pobreza criado pela política de globalização”.
Cerca de 100 pessoas da comunidade em que Barbiero trabalha foram
mobilizadas para a marcha de abertura do FSM. Mas o italiano avalia que
poucas pessoas em Nairóbi tomaram conhecimento do Fórum.
O
orgulho e o respeito pela história de resistência da África voltou a
marcar as falas da cerimônia inicial. Segundo o senegalês Taufik Ben
Abdallah, membro do Comitê Africano e do Conselho Internacional do FSM,
o evento no continente é importante não para que se viabilize sua
pobreza nem para que adquira um caráter de caridade, mas sim para
fortalecer a África. “Hoje, o primeiro mundo saqueia e quer controlar
nossas riquezas. Queremos vencer essas forcas que querem nos colonizar
de novo”.
Wahu Kaara, membro da Marcha Mundial das Mulheres no
Quênia, completa: “E hora de colocar a nossa agenda na mesa. Temos que
dizer não à divida, ao livre comércio, a todos os poderes que querem
falar em nosso nome. Temos que dizer não ao terrorismo de Bush, que não
há membros da Al Qaeda entre nós, que somos vigilantes. E temos que
dizer que queremos um mundo inclusivo, baseado nos valores essenciais
da vida. Um mundo que diz não à comodificação dos recursos naturais e a
tudo que estimula a guerra de negros contra negros. Já basta!”.
Gandhi da África
Uma
das presenças mais aplaudidas na cerimônia de abertura deste sétimo FSM
foi o ex-presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda. Ninguém ligou – ou, pelo
menos, reclamou – quando, sambando, ele subiu ao palco e discretamente
interrompeu o show de Martinho da Vila, a estrela musical da parte
artística do evento, para fazer um longo discurso sobre os desafios do
movimento altermundista.
Kaunda foi o fundador do Partido
Unido da Independência Nacional da Zâmbia, criado em 1960, quando o
país ainda vivia sob o domínio branco da então Rodésia – hoje Zimbábue.
Quatro anos depois, a Zâmbia conquistou sua independência e Kaunda se
tornou presidente. Por cerca de 25 anos, ele governou a nação com base
numa política que foi chamada de inclusiva, por uns, e de autoritária,
por outros. Nacionalizou empresas importantes, apoiou os movimentos
rebeldes de independência do Zimbábue e só deixou a presidência da
Zâmbia em 1991.
Neste Fórum africano, Kenneth Kuanda parece
ser um símbolo daquilo que os africanos buscam ate hoje: liberdade.
Emocionado, ele saldou a diversidade característica do encontro, em que
estão presentes “homens e mulheres, jovens e idosos, de diferentes
cores, passaportes, com diferentes culturas e línguas”. “Percorremos
uma longa distância para chegar até aqui: do tráfico negreiro e do
colonialismo ao apartheid. Somos uma rica variedade da nossa
humanidade, preocupada com o nosso futuro”, disse Kaunda.
Ao
falar de lideranças mundiais contra a exploração e a violência, o
ex-presidente da Zâmbia citou Martin Luther King, Che Guevara, o
próprio Gandhi e ate Fidel Castro. Mas fez questão de ressaltar a
importância da participação popular nos processos de libertação –
qualquer que seja seu aspecto.
“Não estamos aqui por esses
lideres, como disse Gandhi. Os lideres seguem o povo. Há muitos homens
e mulheres que diariamente lutam pelos direitos de todos. Cada pessoa é
importante. A luta se beneficia das habilidades de cada envolvido;
depende do esforço de cada pessoa; não continuaria sem a intensa
cooperação de homens e mulheres em todo o mundo”, disse. “Hoje ainda
temos grandes desafios: pobreza, dívida, conflitos políticos, AIDS,
conflitos pela terra. Para enfrentá-los, nossa luta na África nos
mostrou que precisamos trabalhar em rede. A partir da nossa
experiência, sabemos que esses desafios da injustiça e da exploração
podem ser superados. É este esforço coletivo que pode garantir um mundo
melhor. Nossa independência não será completa sem isso”, concluiu.
Contrastes
A
primeira vista, a estrutura montada pelo comitê organizador de Nairóbi
para o FSM 2007 pode parecer incongruente com o discurso de integração
e fortalecimento da África adotado pelos quenianos.
Montado em
um enorme e moderno complexo esportivo em um bairro abastado de
Nairóbi, o FSM ate tem um aspecto que poderia lembrar um evento das
Nações Unidas, com grandes tendas brancas e altos preços de inscrição
para participantes e atividades.
Individualmente, a inscrição
custa US$ 7 para africanos, 28 para o resto do Sul (incluindo
jornalistas) e 110 para os países do Norte. Mas para registrar
atividades, os preços podem subir para mais de US$ 400 para as
organizações participantes. Nas conversas entre estrangeiros e nativos
em Nairóbi, o custo do Fórum aparece como temática reincidente quando o
assunto é a dificuldade de participação maior de organizações e
movimentos de base.
Mas é preciso tomar cuidado com
pré-julgamentos e leituras simplistas, alerta Moema Miranda, da
secretaria brasileira e do Conselho Internacional (CI) do FSM.
Completamente aos cuidados dos organizadores quenianos, a estrutura do
FSM 2007 foi montada segundo as possibilidades e perspectivas dos
anfitriões, sem intervenção dos demais membros do CI.
Sem
suporte financeiro do governo local – que foi um grande patrocinador de
outras edições do FSM, principalmente no Brasil em 2001, 2002, 2003 e
2005, e na Venezuela em 2006 -, e submetido ao conceito mercantil da
cooperação internacional, os quenianos se viram diante do desafio de
viabilizar o evento da melhor forma possível.
“No Brasil, em
2005, o preço de inscrição foi bastante baixo, e quebrou fazendo uma
dívida milionária. Alguém se perguntou quem pagou por isso? Como vamos
fazer então? Só se faz Fórum onde tem governo amigo? A verdade é que o
nosso movimento ainda é elitista, temos ainda que radicalizar a
solidariedade. Como podemos implementar alternativas juntos se não nos
encontramos? Estes são questionamentos que necessitam de respostas”,
pondera Moema Miranda.
Uma visão realista do FSM 2007 e de seus
participantes só será possível a partir deste domingo, primeiro dia das
atividades. A se tirar pela marcha e pela cerimônia de abertura, no
entanto, ficou claro que a África terá seu merecido espaço no movimento
altermundista.
Veja página especial do Fórum Social 2007























