Transparência no Orçamento
Publicado em 18/02/2007 09:11
por Maria Clara R. M. do Prado*
Letras miúdas, rubricas confusas nada explicativas e, muito menos,
cobráveis. Assim se apresenta a maioria dos orçamentos do setor público
no país. Em especial os estaduais e o federal, poucos escapam do padrão
da baixa transparência.
As comparações são sempre perigosas, pois cada país tem as suas
peculiaridades. O orçamento público é uma das mais importantes peças do
arcabouço institucional de um país. Ajuda a reforçar a consciência dos
direitos dos cidadãos, contribuintes que somos todos quando destinamos
parte da própria renda para cobrir os gastos que são da competência
pública administrar.
Portanto, a cara, a forma e todos os procedimentos em torno dos
orçamentos dos governos estão intimamente relacionados à maturidade
política que orienta o funcionamento do Estado.
Uma importante iniciativa internacional tem sido implementada nos
últimos anos, com levantamento em vários países, justamente com o
objetivo de tentar medir o grau abertura e de transparência dos
orçamentos públicos.
Trata-se do Projeto Internacional do Orçamento (IBP), que engloba uma
rede de instituições e entidades especializadas em contas públicas em
59 países. Em 2002, o projeto começou a ser desenvolvido a partir de
uma pesquisa que serviu de base para os relatórios, concluídos no final
do ano passado e que desde então têm se tornado públicos. Uma
classificação foi definida, a partir de parâmetros de comparação entre
os países, e um índice foi criado: o índice do orçamento aberto.
Ver em www.openbudgetindex.org.
Pois bem, dos 59 países pesquisados, apenas seis tiveram alta
classificação. Essa minoria foi reconhecida por fornecer uma quantidade
considerada “importante” de informações nos documentos orçamentários.
São eles: França, Nova Zelândia, Eslovênia, África do Sul, o Reino
Unido e os Estados Unidos. Os demais 53 países caem em outras
categorias que refletem orçamentos menos abertos, em graus diversos.
Por exemplo, nas categorias que qualificam os governos como provedores
de “significativa” quantidade de informação ou que prevê o acesso do
público a “alguma” informação orçamentária enquadram-se 30 países.
Botswana, na África, é um deles, ao lado da Suécia. A quantidade de
informações que esses países disponibilizam ao público com relação ao
orçamento foi considerada “significativa” pela pesquisa. Na opinião dos
organizadores, o desempenho ali pode ser melhorado com a publicação de
uma revisão orçamentária mais abrangente no meio do ano. Essa revisão é
fundamental para que a sociedade possa acompanhar, em detalhes, os
eventuais ajustes aos quais o orçamento está sendo submetido.
Já os países enquadrados na categoria dos que prestam “alguma”
informação orçamentária pecam pela reincidência em falhas não apenas no
relacionamento com o público, mas também com o legislativo. Neste grupo
estão países como a Jordânia, o Cazaquistão e o Quênia.
A parte ruim dos resultados aparece na categoria em que os países
disponibilizam “mínimas”, “restritas” ou “nenhuma” informação aos
cidadãos. Aqui foram relacionados nada menos de 23 países, equivalentes
a 39% do total pesquisado. Revelam casos que estãp longe dos requisitos
mais básicos da abertura orçamentária.
E, no grupo dos piores, dez países encontram-se na classificação mais
baixo do índice do orçamento aberto: Angola, Vietnam, Burkina Faso,
Chade, Egito, Mongólia, Nicarágua, Nigéria, Bolívia e Marrocos. Os
quatro últimos chegam a apresentar algumas informações sobre o
orçamento ao público, mas muito restritas.
Os demais nem isso fazem: o documento orçamentário só é revelado à
sociedade depois de aprovado pelo legislativo, caracterizando uma
situação de total fechamento e opacidade no processo de elaboração
orçamentária.
De acordo com o relatório, a pesquisa constatou uma relação entre o
nível de renda dos países e a transparência orçamentária: quanto mais
pobres, menos abertas ao público são as contas dos respectivos
governos. No entanto, o documento pontua que o uso de práticas
transparentes e eficientes é possível tanto em países desenvolvidos
como em países em desenvolvimento. Cita os casos da Eslovênia e da
África do Sul como exemplos de países que avançaram muito, em pouco
tempo, no processo de abertura do orçamento.
A conclusão do documento é a de que: “o nível de transparência do
orçamento em um país é altamente influenciado pela vontade do governo
de ser responsável por seus cidadãos”. Em resumo, os países que têm o
desempenho mais fraco no Índice do Orçamento Aberto “não podem se
esconder em restrições de capacidade, pois avanços na transparência são
possíveis em curtos períodos, com recursos modestos”.
A pesquisa é detalhada. Levanta os mecanismos de prestação de contas ao
longo do processo orçamentário, entre outros quesitos. Boa parte falha
em promover audiências sobre os orçamentos individuais dos ministérios
ou das agências governamentais.
E o Brasil? Onde fica? Não aparece mal naquele universo de 59 porque
dispõe de uma estrutura institucional que facilita a abertura
orçamentária, muito embora o próprio orçamento continue confuso e
complexo para entendimento dos leigos, que são todos os contribuintes a
quem os governos devem prestar contas.
O Brasil, ao lado da Coréia do Sul, da Noruega, da Suécia e de
Botswana, está no grupo dos nove países classificados como aqueles que
disponibilizam “significativa” informação orçamentária. Afinal, os
orçamentos são dados a conhecer ao público antes de serem encaminhados
para discussão no Congresso Nacional, além de sua elaboração ser
associada à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e ao Plano Plurianual
(PPA) com vistas justamente a seguir uma conduta condizente com uma
programação de médio prazo.
Também funcionam há anos os tribunais de contas (na União e dos
estados), braços do poder legislativo com a função de zelar pelo bom
cumprimento dos orçamentos.
Mas isso não basta. Nem mesmo o uso da Internet que permite o acesso do
público aos orçamentos públicos. Falta no país justamente o que é mais
simples: transformar a complicada nomenclatura dos orçamentos em
modelos de apresentação mais simples e objetivos de modo a que todo
brasileiro, pelo menos os que sabem ler, possam de imediato entender
para onde está indo o dinheiro dos impostos que pagam todos os dias.
* texto originalmente publicado no jornal Valor Econômico, edição de 15/02/2007.























