Soberania alimentar - Mais de 600 participam de Fórum da Via Campesina na África
Publicado em 20/02/2007 15:57
Organização internacional de camponeses Via Campesina realiza nesta semana Fórum internacional da Soberania Alimentar no Mali, para fortalecer mundialmente conceito que defende o direito dos povos de decidir o que e como plantar. Presidentes Hugo Chavez (Venezuela) e Amadu Tumani Turé (Mali) estão entre os convidados.
Verena Glass - Carta Maior
SÃO
PAULO – Provenientes 98 países de todos os continentes, cerca de 600
agricultores, pescadores, pastores, indígenas e representantes de
movimentos de consumidores, bem como especialistas em alimentação e
agricultura, ambientalistas, intelectuais e personalidades políticas,
estarão na cidade de Sélingué, interior do Mali, África, entre os dias
23 e 27 deste mês, para participar do Fórum da Soberania Alimentar
Nyéléni 2007, promovido pela Via Campesina.
Organização
internacional de movimentos camponeses, a Via Campesina criou e
divulgou pela primeira vez o conceito de Soberania Alimentar em meados
da década de 1990. Grosso modo, o princípio advoga a autonomia dos
povos para decidir soberanamente sobre as formas de produção de
alimentos e agricultura que melhor convier à realidade nacional e
local, sem interferência de interesses exógenos externos ou domésticos.
A luta pela Soberania Alimentar acabou se conformando na
principal oposição ao modelo agroexportador hegemonizado por
instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC), que traz no
mesmo pacote a produção de alimentos de maneira uniforme, em grande
escala, altamente impactante do ponto de vista social e ambiental, as
tecnologias transgênicas, a uniformização mundial dos hábitos
alimentares, e uma crescente ofensiva pelo controle dos meios de
produção – terra, recursos naturais e pesqueiros, água, etc – por parte
de mega-corporações multinacionais.
Não por acaso, a Via
Campesina e a bandeira da Soberania Alimentar acabaram dominando os
protestos durante as cúpulas da OMC de Seattle (1999), Cancun (2003) e
Hong Kong (2005). Por outro lado, porém, a partir dos anos 2000 o
conceito começou a ser estudado e aceito em esferas mais amplas. Em
2001, aconteceu em Cuba o primeiro Fórum Internacional sobre Soberania
Alimentar, que internacionalizou o princípio, e em 2002 o tema pautou o
encontro paralelo à Cúpula Mundial de Alimentação da Organização das
Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Foi adotado
também pelo Relator Especial do Direito à Alimentação da Comissão de
Direitos Humanos da ONU, Jean Ziegler, e pela União Mundial para a
Natureza (UICN), organização internacional que congrega instituições
governamentais e não governamentais. E em 2006, por fim, o conceito foi
incluído no documento final da Conferencia Mundial da Reforma Agrária
da FAO, ocorrida em Porto Alegre.
Reforço político
A
ampliação do apoio político à Soberania Alimentar, a avaliação
conjuntural da situação mundial do setor camponês e da produção de
alimentos, e a elaboração de estratégias internacionais de luta devem
ser os principais objetivos do Fórum Nyéléni 2007. Tanto que a escolha
do Mali como país-cede se deve ao já declarado apoio do presidente
Amadu Tumani Turé – convidado para o evento – à causa, e a inclusão do
conceito de Soberania Alimentar na Constituição do país.
Ainda
na perspectiva do reforço político, foram convidados alguns dirigentes
internacionais comprometidos com o tema, como o presidente venezuelano
Hugo Chavez, um representante do governo boliviano e o governador do
Paraná, Roberto Requião. Segundo informações dos organizadores, porém,
apenas o primeiro deverá comparecer; os outros dois justificaram a
ausência em função de compromissos internos.
Outros convidados
de peso são as indianas Vandana Shiva, uma das mais respeitadas
ambientalistas do mundo, e Arundhati Roy, escritora premiada e ativista
política, o egípcio Samir Amin, economista e um dos mais importantes
pensadores marxistas da atualidade, o economista Martin Khor, diretor
da Third World Network, o ex-relator para o direito à alimentação da
ONU, Jean Ziegler, além de dirigentes dos movimentos sociais como João
Pedro Stédile (MST), Dom Tomas Balduino (Comissão Pastoral da Terra),
José Bové (Via Campesina e virtual candidato à presidência da França) e
Paul Nicholson (Via Campesina).
Desafios
A
capitalização da agropecuária e da pesca, e a sua transformação em
atividade empresarial, têm sido um dos principais vetores da
desestruturação econômica, social e cultural de camponeses, pescadores,
indígenas, pastores e outros pequenos produtores de alimento, avalia a
Via Campesina.
Começando pela descaracterização cultural, a
nível global, dos hábitos alimentares através da homogenização
industrial da comida – o que atinge também as raízes da cultura
produtiva dos camponeses (não é à toa que o Mc Donalds é considerado
pela Via um ícone nefasto desta realidade) -, até a commodificação da
agricultura e a dependência causada pela incapacidade dos países de
produzir o alimento para seu povo, passando pela aquisição de enormes
quantidades de terra por corporações transnacionais e o conseqüente
êxodo rural (problema que tem atingido um grande número de agricultores
na Ásia), o seqüestro ou contaminação das sementes nativas e sua
substituição por variedades transgênicas, os impactos ambientais destes
modelos de produção, etc, tudo isso configura um quadro extremamente
desafiador para os movimentos sociais, avalia a Via Campesina.
Neste
sentido, o Fórum Nyéléni 2007 se propõe, como meta maior, a aprofundar
o entendimento sobre a Soberania Alimentar (“a favor de que lutamos,
quais os empecilhos para a adoção global do conceito de Soberania
alimentar, e o que podemos fazer”), fortalecer as alianças entre os
diferentes setores envolvidos no debate (movimentos sociais, ONGs,
organismos multilaterais e governos) e acordar estratégias coletivas de
ação e pressão global.
Para o debate dos participantes, foram
propostos sete temas mais específicos: as políticas do comércio
internacional e os mercados locais; a tecnologia e os conhecimentos
tradicionais; acesso e poder sobre os recursos naturais; compartindo os
territórios e os direitos sobre a terra e os recursos produtivos; os
conflitos e os desastres: como responder em nível local e
internacional; as condições sociais e a migração forçada; os modelos de
produção: os impactos nas pessoas, no trabalho e no meio ambiente.
De
tudo isso, esperam os organizadores, deve sair uma nova diretriz
política e estratégica para a campanha global pela Soberania Alimentar
da via Campesina. A Carta Maior acompanhará o evento através
colaboração especial desde Mali.























