São Francisco - Frei Cáppio cobra de Lula diálogo público sobre transposição
Publicado em 23/02/2007 10:41
Entrega de carta ao presidente inicia vigília social que pede cumprimento do acordo de diálogo com sociedade civil, proposto pelo governo em 2005 quando o bispo fez uma greve de fome contra a transposição.
Jonas Valente - Carta Maior
BRASÍLIA
- Pouco mais de um ano depois de ter feito greve de fome contra a
transposição do rio São Francisco, o bispo da diocese de Barra (BA),
Dom Luís Cáppio - que, à época (outubro de 2005), foi dissuadido do
protesto pelo governo com a promessa de aprofundamento do diálogo com a
sociedade civil -, voltou ao Palácio do Planalto nesta quinta (22) para
entregar uma carta
ao presidente Lula, cobrando o cumprimento do acordo. O ato inaugurou
uma jornada de mobilizações de diversas organizações, como pastorais
sociais da igreja Católica, ONGs e associações de comunidades que vivem
na região do Semi-Árido brasileiro, para pressionar o governo a não
iniciar as obras de transposição sem um debate com a população da
região.
A movimentação das entidades é uma resposta à
anunciada retomada do projeto, que foi incluído como prioridade do
Programa de Aceleração do Crescimento nas iniciativas referentes à
infra-estrutura hídrica. O PAC prevê R$ 6,6 bilhões de reais para a
transposição entre 2007 e 2010, de um total de R$ 12,6 bilhões a serem
investidos nesta área. Para 2007, o programa prevê R$ 837 milhões para
a transposição.
Em coletiva de imprensa realizada na manhã
desta quinta, D. Luís Cáppio e outras organizações que vêm lutando pela
revitalização do São Francisco questionaram a medida, lembrando o
compromisso assumido pelo presidente Lula quanto a realização de estuds
de alternativas que pudessem substituir a transposição.
Em um
seminário realizado em julho de 2006, técnicos de universidades e das
organizações debateram durante três dias com as mais diversas áreas do
governo e criaram para a continuidade dos trabalhos três câmaras mistas
com o objetivo de aprofundar proposições para a revitalização do Rio
São Francisco. Seria dentro de uma destas câmaras que a transposição
seria debatida. “De lá para cá, o governo fechou possibilidade de
diálogo e fomos surpreendidos com a inclusão do projeto da transposição
no PAC”, explicou Luís Cláudio Mandela, da Cáritas.
Segundo D.
Luís Cáppio, o presidente Lula teria solicitado a apresentação de
alternativas ao projeto da transposição, o que já vinha sendo feito e
foi reforçado na carta entregue hoje. “Na nossa conversa com Lula, ele
nos pediu que apresentássemos alternativas viáveis e na carta
apresentamos uma série delas, inclusive iniciativas do próprio governo
para um projeto alternativo”, declarou o bispo. Entre as alternativas,
Cappio citou um conjunto de 530 projetos elaborados pela Agência
Nacional de Águas (ANA), que atenderia as necessidades das populações
residentes na região do Semi-Árido e teria custo geral muito menor -
cerca de R$ 3,6 bilhões, quase metade dos R$ 6,6 bilhões previstos no
PAC. Estas medidas compõem uma proposta abrangente de revitalização,
que desde o início do debate sobre o tema rivaliza com iniciativa da
transposição.
Na coletiva, D. Luís Cáppio e os demais
representantes de entidades lembraram as críticas ao projeto. A
principal diz respeito aos destinatários da água que será
disponibilizada. Rubens Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra, avalia
que os recursos hídricos desviados no projeto servirão a grandes ramos
produtivos como o agronegócio, a siderurgia e a carcinicultura (criação
de camarões), e não à população que hoje passa sede no Semi-Árido. Luís
Cláudio Mandela cita o caso de soluções semelhantes já realizadas na
parte baiana do São Francisco, que não só não resolveu o problema da
população como gerou mais pobreza.
Além de não atender aos 12
milhões de pessoas que realmente precisam de água, continua Mandela, o
projeto vai onerar as pessoas que hoje já têm acesso à água. “A
população de Fortaleza, dos grandes centros, que hoje estão sendo
beneficiadas com acesso à água, vai dividir o custo da água com o
agronegócio na sua conta de água com a perspectiva da integração das
bacias”, explica. Um dos receios das organizações é que o custo do
metro cúbico de água acabe sendo muito alto, o que pode inviabilizar o
acesso a este recurso por parte da população mais pobre. Estudos da
Unicamp, segundo os presentes na coletiva, já teriam atentado para este
risco.
Nesta disputa de concepções, a interlocução direta com o
presidente Lula teve intenção clara de enfraquecer o Ministério da
Integração, principal adversário e defensor do atual projeto. “O
Ministério da Integração sempre andou na contramão do governo. Confunde
a opinião pública e quer enfiar goela abaixo o projeto, mesmo sem a
sociedade querê-lo”, afirmou o D. Luís Cáppio. A referência ao atropelo
da pasta se deveu ao fato do seu titular, Pedro Britto, já ter retomado
o projeto ao transferir recursos para o batalhão do Exército iniciar
obras e ter aberto licitação para detalhamento do projeto. O intuito de
Britto é deixar a máquina em ponto para quando o último embargo, o
licenciamento de instalação que deve ser dado pelo IBAMA, ser superado.
O presidente do órgão ambiental declarou que ainda em fevereiro o
parecer estaria pronto.
Ao final da coletiva, D. Luís Cáppio
deixou um recado ao governo. “Eu quero acreditar no mínimo de lucidez
do governo Lula para não impor de maneira ditatorial um projeto que não
é aceito pela sociedade civil brasileira, um projeto que desde o seu
lançamento tem gerado tanta confusão e divisão na sociedade
brasileira”. Mas ele e a articulação que integra sabem que será preciso
mais para reequilibrar o jogo. Além da entrega do documento, serão
realizados diversos atos nos estados envolvidos no projeto e uma marcha
à Brasília nos dias 12 e 13 de março. A mobilização parece se fazer
necessária, já que até o fim do dia de hoje a assessoria da Presidência
da República não tinha apresentado qualquer resposta ao pedido feito
pelo Frei.
Mas a marcha à Brasília não ficará restrita às
reivindicações direcionadas ao governo federal. Um dos objetivos das
entidades defensoras de um projeto alternativo de revitalização do São
Francisco é pressionar o Supremo Tribunal Federal, uma vez que uma
decisão do ministro Sepúlveda Pertence derrubou as liminares contrárias
ao projeto em dezembro. Como o fato não é definitivo e ainda tem de ser
analisado por todos os 11 ministros, a expectativa dos organizadores da
marcha é sensibilizá-los para sua visão acerca dos impactos que o
projeto trará. A posição foi recentemente reforçada por um recurso
apresentado ao STF pelo procurador-geral da república, Antônio Fernando
de Souza, pedindo a cassação da licença ambiental prévia para a obra
concedida pelo IBAMA.























