Pauta dominada pela economia preocupa deputados novatos
Publicado em 12/02/2007 14:55
“Ninguém é contra o crescimento econômico, mas temos que continuar avançando com a distribuição de renda”, pontua o estreante Flávio Dino (PCdoB-MA). "A economia não é um fim em si mesmo”, completa Iran Barbosa (PT-SE).
Maurício Hashizume - Carta Maior
BRASÍLIA
– Ofuscada pelo anúncio efusivo de medidas na área econômica, a
plataforma da inclusão social contará com a disposição de estreantes na
Câmara dos Deputados. Alguns deles já estão mostrando serviço na
complicada tarefa de se contrapor à poderosa corrente - com ampla
representação no Parlamento - mais interessada na reprodução dos
padrões de concentração de riqueza e poder que mantém o abismo da
desigualdade.
“Ninguém é contra o crescimento econômico, mas
temos que continuar avançando com a distribuição de renda”, pontua o
ex-presidente da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe),
Flávio Dino (PCdoB-MA). Para ele, o Plano de Aceleração do Crescimento
(PAC) representa, em linhas gerais, a “derrota da agenda rentista” que
se fundamenta nas soluções via mercado. Contudo, está propondo
alterações que apresentam, a seu ver, “recuos pontuais” no que diz
respeito à agenda distributiva.
Uma das emendas às proposições
do PAC assinada por Dino questiona a limitação de gastos com o
funcionalismo público. Na concepção do parlamentar, a fórmula
estabelecida para a correção anual - Índice de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA) mais o acréscimo fixo de 1,5% - impõe uma “limitação
severa para o processo de reconstrução do Estado”. Se o PAC der certo e
incentivar a atividade econômica de fato, “a expansão do serviço
público será fundamental”, observa o juiz e professor de direito na
Universidade de Brasília (UnB). Uma estrada nova, por exemplo, requer a
mobilização de policiais e de fiscais do Departamento Nacional de
Infra-Estrutura de Transportes (Dnit).
Dino apresentou emenda
à medida provisória (MP) 347/07 do PAC - que autoriza o Tesouro
Nacional a conceder um crédito de R$ 5,2 bilhões à Caixa Econômica
Federal para investimentos em saneamento básico e habitação popular –
propondo o direcionamento dos recursos para o grupo dos mil municípios
brasileiros com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador
de desenvolvimento social que aglutina o grau de escolaridade, a
expectativa de vida e o nível de renda da população. No que se refere à
MP 352/07, relativa à isenção fiscal para a produção de semicondutores,
displays e equipamentos de TV Digital, o congressista eleito pelo
Maranhão (estado com o mais baixo IDH do País), pede que a porcentagem
destinada a institutos de pesquisa e universidades por meio de convênio
seja maior para incentivar o “domínio do conhecimento”.
Ex-dirigente
do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Oficial do
Estado de Sergipe (Sintese) e da Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação (CNTE), o deputado Iran Barbosa (PT-SE)
anuncia que dedicará o seu mandato às questões educacionais e de
participação social. Neste início de trabalho na Câmara, tem
participado das discussões relativas ao Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais
da Educação (Fundeb) e também protocolou emendas para a MP que
regulamenta o novo fundo. Uma delas busca assegurar a participação
popular no processo de definição do Padrão Nacional de Qualidade para a
Educação Pública e outra revê a composição do Conselho Federal de
Acompanhamento do Fundeb, reduzindo a quantidade de integrantes do
Poder Executivo e ampliando a representação da sociedade civil.
Para
Barbosa, o ideal seria que o pacote governamental conjugasse
crescimento econômico com iniciativas na área social. “Não são coisas
separadas. A economia não é um fim em si mesmo”, sublinha. O Fundeb,
observa o congressista, não acaba com a necessidade de mais
investimentos públicos na educação em relação ao PIB. Ele chama atenção
ainda para a ausência no PAC de oferta de crédito para pequenos
produtores familiares, responsáveis em grande parte pela criação e
manutenção de empregos.
A agricultura familiar é justamente uma
das prioridades de Domingos Dutra (PT-MA) - que teve uma passagem
rápida (1995/1996) no Congresso Nacional, mas deixou a Casa para
assumir a vice-prefeitura de São Luís na gestão de Jackson Lago (PDT)
(1997-2000), atual governador do Maranhão. De volta à Câmara,
participou na última quinta-feira (8) de uma reunião de parlamentares
da nova Legislatura (de vários partidos, entre eles PT, PSol, PCdoB e
PDT) com membros de organizações do campo como o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Essa aliança, para ele, tem um
papel fundamental como instrumento de pressão por mais conquistas na
área social e pelo contraponto à influência do poder econômico.
“Os
movimentos sociais têm que cumprir o seu papel e pressionar o governo,
o PT e o Congresso”, recomenda. Na opinião dele, os riscos de que esse
tipo de pressão possa contribuir para conspirações de setores da
oposição foram dirimidos. “O governo Lula foi consolidado pelo voto. O
pior já passou. Agora precisamos do contraponto para não deixar apenas
o poder econômico pressionar o Palácio do Planalto”.
Deputado
estadual nos últimos quatro anos e ex-prefeito de São Luís, Dutra
almeja reestruturar o Núcleo Agrário do PT e fazer tremular a bandeira
da Reforma Agrária, “não apenas como fator de subsistência, mas como
indutor de desenvolvimento”. Não espera, contudo, vida fácil. “Vai ser
complicado. O bloco da coalizão é muito grande”, prevê, sabendo das
dificuldades que enfrentará tendo parte da bancada ruralista aninhada
na base de apoio do governo. “Mas todos vieram para o Congresso pelo
voto. Vou me dedicar especialmente às causas dos quilombolas e das
quebradeiras de coco de babaçu, que são cerca de 400 mil e estão em
cinco estados”.























