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Partidos operam arrumações internas, oposição deita no divã

Publicado em 13/02/2007 16:58

Agência Carta Maior

PFL troca de nome para Partido Democrata (PD). PSDB forma grupos internos e contrata consultoria para investigar o futuro da sigla. "Não existe pior 'xingamento' hoje na política do que 'neoliberal'", comenta David Fleischer, da UnB.

BRASÍLIA – A conclusão da etapa de eleição das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado trouxe para a superfície um amplo processo de revisão interna dos principais partidos do cenário político nacional. A confirmação das regras institucionais estabelecidas e das orientações das lideranças partidárias (leia matéria e quadro sobre o assunto) que garantiram a vitória de Renan Calheiros (PMDB-AL) no Senado e de Arlindo Chinaglia (PT-SP) (veja matéria), permeadas pela confirmação de baixas entre o período das eleições e da posse nos Legislativos federal e estaduais, encurtaram a distância entre as siglas de oposição e o divã.

Um dos sintomas mais extravagantes desse quadro veio com o anúncio da mudança de nome do Partido da Frente Liberal (PFL), formado por políticos que colaboraram sobremaneira com a ditadura militar, para Partido Democrata (PD). A troca ainda precisará ser confirmada em convenção nacional extraordinária que será realizada em 28 de março. Duas foram as justificativas apresentadas pelo deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) para a nova identidade – a abertura para uma transição para líderes mais jovens e o ensaio de uma plataforma que incorpore mais elementos de cunho social.

“Não existe pior 'xingamento' hoje na política do que 'neoliberal' [leia matéria sobre o abandono do liberalismo nas últimas eleições presidenciais]. A alcunha se tornou um pesadelo e todos querem se afastar desse rótulo, assim como ninguém se autoproclamava conservador durante a Assembléia Constituinte [1987/1988]”, analisa o professor David Fleischer, do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB). Ele verifica que a decisão do PFL foi tomada curiosamente quando uma comitiva de representantes do governo norte-americano circulava por gabinetes palacianos brasileiros. As declarações de Fleischer remetem à formação de um outro partido: o Partido da República (PR), fusão do tradicional Partido Liberal (PL) com o antigo Prona do reeleito Enéas Carneiro, um dos congressistas campeões de votos em São Paulo. "Agora já temos o Partido Republicano e o Partido Democrata no Brasil", emenda.

Balanços comparando as cadeiras na Câmara conquistadas na eleição e na posse mostram que o encolhimento do PFL não se estancou apenas nas urnas. A bancada federal do pefelê perdeu três postos (de 65 para 62). E um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo revelou que o PFL foi o partido que mais encolheu também nas assembléias legislativas – dos 41 deputados estaduais que trocaram de legenda do dia 1º de outubro do ano passado até agora, nove deixaram (e outros quatro se integraram) à silga que agora quer ser consolidar em torno do mote da defesa da democracia. “O PFL caiu na desgraça quando virou oposição. Ficou marcado como um partido contra as mudanças, antipopular e dominado por caciques. O partido precisa 'abrir a janela para deixar entrar mais ar'", sugere Fleischer. "Essa esperança de que a simples troca de nome revitalizará o partido parece mais um 'sonho de uma noite de verão'”, comenta, fazendo um paralelo com a obra de William Shakespeare.

Numa de suas mensagens diárias enviada a internautas, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, uma das ‘promessas’ de presidenciável dentro do pefelê, fez uma análise sobre o futuro da sua própria agremiação partidária. O PFL, antecipa, precisa escolher um caminho entre os seus três “bisavôs”: abraçar o que ele chama de centro “radical” – ‘renovando-se como o antigo Partido Social Democrático (PSD), representados pelos interventores de Getúlio Vargas que permaneceram durante o período da ditadura do Estado Novo (1937/1945) -, buscar uma memória pessoal como União Democrática Nacional (UDN), ou ainda reforçar os setores “ademaristas” (herdeiros do ex-governador paulista Adhemar de Barros) minoritários “presentes por prática política” dentro da legenda. Maia deixa clara a sua predileção: “O caminho do PFL é se reconhecer como sucessor do PSD, e buscar afirmar novas gerações a partir desta matriz, caminhando para o Centro Político - oscilando entre posições social-liberais e social-democratas. As posições tipicamente liberais -marcadas no governo do PSDB, são cada vez mais próprias dele, como vemos em seu comportamento parlamentar”.

PSDB
A arrumação interna também preocupa - e muito - o tucanato. A eleição de Chinaglia dissipou as nuvens que encobriam a profunda divisão interna (leia análise) do partido que governara o País por oito anos com Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Aliás, falou-se tanto no oportunismo da formação dos dois blocos governistas – o chamado “blocão” encabeçado por PMDB/PT e o agrupamento PCdoB/PSB/PDT - para a distribuição de cargos na Mesa, mas o primeiro bloco que se desintegrou oficialmente foi o da oposição (PSDB-PFL-PPS), desfeito antes do Carnaval, como previra o deputado Chico Alencar (PSol-RJ), representante de um dos poucos de partido que não estão encaixados nem nos blocos de governo e nem dos blocos da oposição.

O vértice das tensões dentro do PSDB está claro: o choque de interesses pela candidatura à Presidência da República em 2010 entre os governadores José Serra (São Paulo) e Aécio Neves (Minas Gerais). O próprio presidente da legenda, senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) já disse que apresentará à Executiva Nacional do partido uma proposta de escolha do futuro candidato tucano de acordo com um sistema semelhante às primárias norte-americanas – nas quais as votações nas convenções estaduais determinam o nome do candidato oficial à Presidência. “O PSDB já perdeu as duas últimas eleições e existe uma preocupação muito grande com relação à cisão do partido. A saída de um dos dois (Serra e Neves) poderá reduzir o partido pela metade. Se isso acontecer, o PSDB se tornará um partido pequeno”, avalia Fleischer.

Os tucanos constituíram também três grupos de trabalho com missões específicas. O primeiro deles – formado por Gustavo Fruet (PSDB-PR), que saiu mais forte do que entrou da campanha pela presidência da Câmara Federal, pelo ex-senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT) e pelo ex-deputado Márcio Fortes (PSDB-RJ), que não foi eleito no último pleito – visa coordenar uma pesquisa nacional, sob consultoria da MCI de Antônio Lavareda, para a reconstrução da imagem e da identidade do PSDB. O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), que surge como um possível nome para suceder Jereissati na presidência da sigla depois da convenção planejada para novembro deste ano, e Ronaldo Cezar Coelho (PSDB-RJ), que perdeu a vaga do Senado nas últimas eleições para o ex-ministro Francisco Dornelles (PP-RJ), ficaram responsáveis pelo exame da situação da agremiação nos diferentes estados e regiões do País. O terceiro grupo, formado pelo deputado federal José Aníbal (PSDB-SP) e pela senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), está encarregado de ouvir e condensar as opiniões internas sobre o futuro do partido e organizar eventos de debates com a participação de sociais-democratas de outros países.

Coalizão
Entre os partidos que fazem parte da coalizão de apoio ao governo, os processos de revisão interna - cada legenda a seu modo - também estão em curso. O PT promoveu no último fim de semana a reunião do Diretório Nacional, que tocou no ponto sensível sobre o futuro petista depois dos dois governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (leia matéria).

As articulações dentro do PMDB dependem em grande medida do resultado da queda-de-braço pela presidência do partido. O atual presidente, deputado Michel Temer (PMDB-SP) – expoente do grupo que vem sendo chamado de ‘neolulista’ -, saiu beneficiado com a vitória do petista Chinaglia. Enquanto isso, lideranças peemedebistas mais próximas do governo Lula desde o primeiro governo patrocinam o possível lançamento da candidatura do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, para o posto hoje ocupado por Temer. A escolha do novo comandante do partido está marcada para 11 de março.

Nesta segunda-feira (12), o presidente Lula recebeu Temer, acompanhado de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), líder do partido na Câmara, e de Valdir Raupp (PMDB-RO), alçado à liderança no Senado. Temer deixou a conversa dizendo que o presidente deve levar em conta o tamanho de cada partido governista no Congresso para formar a sua equipe de primeiro escalão, que não deve ser anunciada antes do início de março.

O presidente deve abrir espaço para o PDT - nesta terça-feira (13), Lula recebe o presidente pedetista Carlos Lupi - que entrou para o outro bloco da base governista formado por PCdoB e PSB (com participação do PAN e do PMN) e deve ser contemplado com alguma pasta, o que necessariamente exigirá nova arrumação dentro da coalizão. A trinca partidária PCdoB/PSB/PDT tem anunciado que exercitará na prática um novo bloco parlamentar de apoio ao governo com posições independentes do “blocão” comandado por PMDB e PT.

A iminência da divisão de ministérios tem reflexos ainda dentro do PP, PTB e PR. O partido do líder Mário Negromonte (PP-BA) se desdobra para não perder espaço (mantém hoje a pasta da Cidades, com Márcio Fortes) sem que seja devidamente ressarcido (manifesta interesse especial pelo Ministério da Agricultura). O PTB convive com a divisão interna entre o grupo mais próximo do Planalto, representado hoje por um dos candidatos à liderança do governo na Câmara, José Múcio Monteiro (PPB-PE), e a ala ligada a Roberto Jefferson, presidente da sigla e estopim das denúncias do chamado “mensalão”. Por fim, o principal articulador político do PR, senador Alfredo Nascimento (PR-AM), não deve enfrentar grandes dificuldades para retomar a pasta dos Transportes. Mas a filiação de dois governadores – Blairo Maggi, do Mato Grosso (leia matéria), e Ivo Cassol, de Rondônia – e o crescimento da bancada – que passou de 25 eleitos (soma dos deputados do PL e do Prona) para 33 na posse - são sinais de que as contendas dentro do Partido da República (resultado da fusão do PL com o Prona) do vice-presidente reeleito José Alencar correm o sério risco de se tornar cada vez mais complicadas daqui para frente.

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