Papéis da ditadura somem dos arquivos
Publicado em 04/02/2007 14:55
MÁRIO MAGALHÃES
da Folha de S.Paulo, no Rio
O
arquivo do extinto Serviço Nacional de Informações (1964-90), sob
guarda da União, sofreu uma "limpeza" na qual foram suprimidos
documentos que deveriam constar de acervos federais. É o que revela
investigação da Folha feita por um mês e meio em órgãos públicos.
O
Arquivo Nacional emitiu certidão de "nada consta" em resposta ao pedido
de papéis do SNI de 1975. A Abin (Agência Brasileira de Inteligência)
afirma que não os tem.
A descoberta do sumiço comprova, de
maneira inédita, relatos de antigos funcionários da chamada "comunidade
de informações" do regime militar (1964-85).
Em conversas reservadas em anos recentes, eles disseram ter havido um "banho" no material produzido pelo SNI.
Em
2005 o governo anunciou com pompa que a ida para o Arquivo Nacional de
todo o acervo do SNI que estava com a Abin seria um marco no acesso à
memória do país.
O decreto de transferência foi assinado por uma
dupla de antigos opositores da ditadura: o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil).
A considerar
o pronunciamento de duas repartições subordinadas a órgãos da
Presidência da República, o que a Abin entregou não corresponde ao
acervo integral do SNI.
Em outras palavras, o governo deu a
conhecer somente parte da história. A Abin se vincula ao Gabinete de
Segurança Institucional. O Arquivo Nacional, à Casa Civil.
A
busca pelos papéis começou com um pedido feito pelo jornal à Abin no
dia 15 de dezembro: a cópia das "Apreciações Sumárias" do SNI
elaboradas em outubro (mês em que o jornalista Vladimir Herzog foi
morto por tortura em São Paulo) e novembro de 1975.
A Abin
sublinhou diversas vezes: todo o acervo do SNI, em obediência à
legislação de 2005, foi para o Arquivo Nacional. Este, por sua vez,
assegura que não recebeu as "Apreciações" requisitadas pela Folha.
A certidão é firmada por três servidores. Uma funcionária disse que só chegaram à instituição as "Apreciações" de 74.
Acaso
A
comprovação de que documentos de relevo histórico sumiram só foi
possível com o cruzamento das informações da Abin e do Arquivo Nacional
e graças a um acaso: os papéis estão à disposição de qualquer
interessado no bairro carioca de Botafogo.
A filha do presidente
Ernesto Geisel (1974-79) doou o arquivo particular do pai ao CPDOC
(Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil), da Fundação Getúlio Vargas.
Dele fazem parte as
"Apreciações Sumárias" dos anos do governo Geisel. Elas eram informes
semanais endereçados pela Agência Central do SNI (em Brasília) ao
presidente e, eventualmente, às Agências Regionais.
Falavam de política, economia, movimento estudantil, Igreja, Forças Armadas e outros assuntos.
Inicialmente
com o carimbo de "confidencial" e depois com o de "secreto", mais
rigoroso, acompanhavam-se da rubrica "Campo Interno".
O pacote
de outubro e novembro de 1975 soma oito edições e 105 folhas. A cópia
em papel de cada página do microfilme sai por R$ 1,00 no CPDOC. Para
ler, é de graça.
As "Apreciações" foram citadas em dois livros:
"A Ditadura Encurralada" (2004), de Elio Gaspari, e "Dossiê Geisel"
(2002), de Celso Castro e Maria Celina D'Araújo.
O expediente
padrão do SNI era manter pelo menos uma cópia do que produzia. Para
destruir um documento sem cometer ilegalidade, é preciso consignar em
ata no livro específico para esse fim.
A Abin, herdeira do
arquivo do SNI, diz não ter como identificar registro de destruição.
Nos últimos dias, em contato com o Arquivo Nacional, buscou de novo os
papéis, sem sucesso. A agência não diz quando houve o desaparecimento
--se sob a ditadura ou depois.
Se o general Geisel não guardasse
cópias, talvez ainda hoje não houvesse conhecimento público sobre as
"Apreciações" e seu conteúdo. Se o sumiço deu cabo de alguns
documentos, é possível que tenha dado de outros.
O arquivo do
SNI, agora sob guarda do Arquivo Nacional, é esperança de cerca de 140
famílias para encontrar os corpos de desaparecidos políticos.
Pesquisadores esperam obter nele novos dados para contar a história do
regime militar.























