ONGs querem que BNDES exija contrapartida social de empréstimos
Publicado em 12/02/2007 09:37
Alana Gandra
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - A Rede Brasil sobre Instituições Financeiras
Multilaterais querem que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) passe a exigir, em seus empréstimos, contrapartidas
sociais. Entre as exigências, o Ibase e a Rede defendem cotas mínimas
de trabalhadores negros ou mulheres. "Cada investimento dele tem uma
dimensão social. Ou seja, não é só quando ele investe em uma creche",
defende o pesquisador Carlos Tautz, do Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas (Ibase), uma das 80 organizações que compõem a
Rede Brasil.
Até quando o BNDES decide financiar o projeto de
abertura de uma fábrica em um estado como a Bahia, o BNDES está tomando
uma decisão que tem impacto social, acredita Tautz. "Cada ação dele tem
que estar, portanto, submetida a critérios que induzam o
desenvolvimento de forma mais eqüitativa nessa ou naquela região”.
Uma
das condições apresentadas pelo BNDES para a concessão de empréstimos
são as ações sociais que estão atreladas aos projetos. Para o
pesquisador do Ibase, porém, isso não passa de ações de marketing
social. “Você fazer uma creche não é benesse. É obrigação legal,
inclusive”, indicou.
Tautz argumentou que o dinheiro público tem
de estar vinculado a uma política mais "propositiva" de igualdade
racial e de gênero. "O banco tem a capacidade de colocar como critério
para a liberação do financiamento que cada projeto que ele financia
busque ser equânime no campo do gênero e da raça”, sublinhou.
O
pesquisador do Ibase cita, como hipótese, uma projeto na Bahia, onde em
torno de 80% da população têm origem negra, de acordo com dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "O BNDES tem
que exigir que pelo menos 80% dos funcionários sejam negros ou negras,
que ocupem na mesma proporção cargos de direção, coordenação e
gerência".
A dimensão social entraria numa visão mais
abrangente, expôs Tautz. "Se na região não houver mão-de-obra em
quantidade ou qualidade suficiente para atender essas demandas, o banco
está obrigado a exigir do tomador daquele empréstimo que ele implemente
ações de educação para alcançar em tempo minimamente exeqüível esses
índices".
Outra crítica formulada pelo Ibase é que, em geral, os
empréstimos concedidos pelo banco visam apoiar setores que não ajudam
a distribuir renda. Ao contrário, concentram renda, disse Tautz. Um dos
exemplos, é o setor de papel e celulose. "É um setor do qual o banco
deveria sair o quanto antes, porque ele concentra renda, porque está
vinculado exclusivamente ao mercado internacional", afirma, por 98%
ser para exportação.
Por outro lado, Tautz afirmou que o banco
não investe em setores que apresentam grande carência no país, entre
os quais o de saneamento. Ele disse que somente agora, após o
presidente da República ter priorizado no Programa de Aceleração do
Crescimento recursos do BNDES para saneamento, “o banco rapidamente
desmentiu as suas próprias palavras e tirou da cartola R$ 9 bilhões,
dizendo que esse dinheiro estava disponível para o setor, quando antes
ele dizia para a gente que não tinha dinheiro substancial para aplicar
nesse setor”, acusou.























