O tempo econômico do câmbio
Publicado em 16/02/2007 10:28
Nos próximos dias, o presidente Luiz Ignácio “Lula” da Silva receberá,
de áreas técnicas do seu governo, a seguinte avaliação sobre a atual
situação do câmbio:
1. Os juros do Banco Central continuarão apreciando o real até o
limite do insuportável. O tempo econômico desse modelo está se
esgotando de forma muito mais rápida do que no primeiro governo
Fernando Henrique Cardoso.
2. No ano passado a demanda cresceu 4% e o setor externo deduziu
1,2% desse crescimento. O PIB ficou em magérrimos 2,8%. Este ano, na
melhor das hipóteses o setor externo derrubará o PIB em 1,3%. Significa
que a demanda interna teria que aumentar 5,8% para o crescimento do PIB
bater nos 4,5% previstos no PAC (Plano de Aceleração do Crescimento).
3. Nos últimos anos, apenas em 1995 a contribuição externa foi tão
negativa para o PIB quanto está sendo agora. Naquele ano a demanda
doméstica cresceu 8,6% e a externa tirou 4,4% desse fôlego.
4. Até agora, as médias e grandes empresas exportadoras conseguiram
sobrevier com Antecipação de Contratos de Câmbio (ACCs) e venda
antecipada de exportações. As pequenas estão indo pelo ralo. Em breve a
crise vai pegar em cheio médias e grandes pelo esgotamento do capital
de giro.
5. O Banco Central errou redondamente na última fixação da taxa Selic
pelo COPOM (Comitê de Política Monetária). Apostou em um aumento de
demanda que não houve. E a apreciação adicional do Real, nos dias
seguintes, demonstrou o tamanho do erro. Agora, com a liquidez
internacional ampla, e as perspectivas de cenário de taxas
internacionais baixas por longo tempo, quanto mais o BC demorar para
reduzir os juros, pior. Ou preço errado do câmbio e o excesso de
liquidez internacional começam a provocar bolhas em alguns mercados,
especialmente no de ações.
6. O governo não tem a opção de não mexer no câmbio. O que ele pode
escolher é entre mexer agora ou mais tarde. E quanto mais tempo
demorar, maior será o custo.
7. Nos últimos sete anos o Brasil enfrentou duas desvalorizações
cambiais e a inflação voltou ao normal em pouco tempo. A magnitude do
ajuste atual seria muito menor, com condições externas extremamente
favoráveis.
A última bala na agulha de Lula será a nova composição da diretoria
do Banco Central. Se não houver uma escolha técnica, de analistas
respeitados pelo mercado e sem a ortodoxia medíocre da atual diretoria,
não haverá como fazer a transição para o novo sistema, nem como Lula
salvar seu segundo governo.
Recentemente, uma pesquisa feita entre empresas da Abifa
(Associação Brasileira da Indústria de Fundição) e Autopeças mostrou
que de julho de 2003 a julho de 2006 houve uma desvalorização cambial
de 40,5%. E um aumento do custo industrial de 18,3%, incluindo aí
ganhos de produtividade. A diferença não deve ser muito maior em
setores de manufatura com maior valor agregado.
Por enquanto, o debate sobre câmbio está interditado no governo,
como foi interditado no primeiro governo FHC. Será questão de tempo
para que o peso do mundo real desabe sobre os sonhos de Lula.























