Metrô, um mês depois - O que vale é a versão oficial
Publicado em 16/02/2007 00:11
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Por Ligia Martins de Almeida |
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Trinta dias atrás os jornais não falavam de outra coisa: o desabamento na obra do metrô no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Até a retirada do último corpo da cratera formada pelo acidente, o assunto foi discutido diariamente. Sempre do ponto de vista oficial, sempre dando prioridade à fala de técnicos e das autoridades. O lado humano da tragédia só foi destacado com relação aos mortos. Dos vivos – 54 famílias obrigadas a deixar suas casas e morar em hotéis da região, sem previsão de volta à normalidade – muito pouco foi dito. Depois de um mês da tragédia, só três vítimas apareceram nos principais jornais: ** "Maria do Carmo Medeiros, 78 anos, morava com o marido no número 178 da rua Capri há 28 anos. Ela não sabe se poderá voltar porque a casa vizinha corre o risco de desabar. Ela buscou hoje documentos, quadros e fotografias, mas os móveis, inclusive a máquina de costura em que trabalha, não poderão ser removidos." ** "As palavras soaram como um balde de água fria para o microempresário Manoel Firmino de Lima, de 38 anos, que morava e trabalhava na casa de número 188 da Rua Capri, principal acesso à cratera aberta com o acidente do último dia 12. O imóvel dele, onde funcionava um estúdio de gravação, foi condenado pela Defesa Civil e corre risco de demolição." ** "Segundo a moradora Daniela Amâncio, 29 anos, inquilina de uma casa na rua Eugênio de Medeiros, o valor oferecido pelo consórcio, formado pelas empresas Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Correa e Queiroz Galvão e responsável pelas obras, era muito baixo. Ela não quis revelar a proposta. Daniela se queixa da vida no hotel e afirma estar passando por problemas emocionais: `Estou nervosa, agressiva e comendo muito mais do que o normal. Passei mal a semana passada inteira´." Sobram fontes, falta pauta De 54 famílias desalojadas, só três pessoas ganharam espaço na mídia para falar de seus problemas. O assunto não interessa ou os jornalistas só consideram notícia a informação vinda das fontes oficiais? Qualquer repórter minimamente curioso tem ao seu inteiro dispor uma centena de depoimentos para fazer uma bela matéria sobre os sobreviventes. É só passar algumas horas num dos hotéis onde essas pessoas estão hospedadas, conversar um pouco, ou simplesmente acompanhar o movimento do saguão ou restaurante para descobrir que: ** Os desalojados foram divididos entre vários hotéis, já que alguns não aceitam animais domésticos. ** Os desalojados têm direito a todos os serviços do hotel – lavanderia, serviço de quarto, refeições, TV a cabo, internet, estacionamento. O consórcio só não paga bebidas alcoólicas. ** Não é a primeira vez que moradores das vizinhanças de obra do metrô são obrigados a sair de suas casas. Da última vez, por exemplo, ficaram três meses hospedados em hotéis de São Paulo, antes de qualquer desabamento. ** No caso das pessoas que não puderam tirar nada de casa, o consórcio pagou até um enxoval completo. ** Desta vez não há qualquer previsão de saída dos novos hóspedes e alguns até já estão procurando apartamentos para alugar. Por conta do consórcio, é claro. Todos esses itens, que à primeira vista poderiam ser chamados de "mordomia", absolutamente não substituem o conforto da casa. Isto, mesmo os repórteres mais desatentos perceberiam. Entre os hóspedes da tragédia existem casais jovens, crianças em idade escolar, adolescentes, aposentados: uma riqueza de personagens para que um repórter aplicado contasse como é a vida de pessoas que tiveram sua rotina completamente alterada e, pior, não sabem se – e quando – poderão voltar à vida antiga. Sem importância Admitamos, porém, que que matérias "humanas" estão fora da moda. Se isso é verdade, um bom repórter poderia fazer uma matéria econômica explicando quanto custa, para o consórcio, manter essas pessoas em hotel, com direito a todos os serviços, por tempo indeterminado. Um valor que, obviamente, será acrescentado ao custo da obra que, em última análise, é paga pelos cidadãos. Como não é a primeira vez que isso acontece, é possível concluir que se trata de uma tragédia anunciada e que os representantes do consórcio estão fazendo de tudo para evitar processos judiciais. Somando isso aos custos da obra, da reforma das casas e das indenizações, chegaremos, com certeza, a um valor muito maior do que a imprensa está divulgado. O problema é que a mídia – afogada em notícias vindas de agências e assessorias de imprensa – parece se satisfazer com a versão oficial dos fatos, quando os fatos não envolvem mortes ou celebridades. As tragédias diárias de pessoas comuns, ao que tudo indica, perderam a importância que deveriam ter. |
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Mas escrevo para retificar uma informação desta matéria: a partir de 21 de maio os serviços disponíveis no hotel foram restringidos. Não podemos mais utilizar os serviços de quarto, tendo que adequar os horários de nossas vidas ao horário de funcionamento do restaurante, ou arcarmos com as despesas.
Também mandaram esvaziar o frigobar, agora temos apenas água. Tudo imposto, sem consultas ou justificativas.
Acho que se a imprensa prestasse mais atenção a estes cidadãos anônimos que, como eu, arcam com o ônus do progresso urbano, seríamos tratados com mais respeito pelos poderosos funcionários do Cosórcio Via Amarela.