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Em ascensão, esquerda latino-americana quer superar 'etapa neoliberal'

Publicado em 07/02/2007 17:11

Agência Carta Maior

Rede de mais de 100 partidos e movimentos de esquerda de América do Sul e Caribe foi criada no auge neoliberal. Agora, com vários governos sob seu comando, integrantes definem ações concretas, como criação de escola e observatório eleitoral.

SÃO PAULO – A América Latina foi uma das regiões que mais sofreu na pele os efeitos da ofensiva neoliberal iniciada na década de 90. No entanto, e em reação ao flagelo deste processo, nos últimos cinco anos esta etapa do capitalismo vem passando por uma série de crises de hegemonia, exemplificada pela eleição de diversos governos de esquerda e centro-esquerda em países como Venezuela, Bolívia, Brasil, Argentina e, mais recentemente, Equador e Nicarágua. Se há uma avaliação mais ou menos consensual de que aquela etapa anterior perdeu força, não há, porém, uma compreensão fechada ou clara do que está nascendo em seu lugar.

Entender este processo é uma das principais tarefas definidas pelo Foro de São Paulo em seu encontro anual, realizado entre 12 e 17 de janeiro, em El Salvador. As resoluções da reunião foram divulgadas nesta terça-feira (6) em São Paulo pelos secretários de relações internacionais do PT, Valter Pomar, e do PC do B, José Reinaldo de Carvalho. O Foro congrega mais de 100 partidos e movimentos de esquerda na América do Sul e Caribe e foi criado em 1990 em uma conjuntura difícil para a esquerda, marcada pela ascensão do neoliberalismo e pela falência do mundo socialista.

Segundo o documento final do encontro do Foro, em que o neoliberalismo é apontado como doutrina hegemônica do mundo imposta pelos centros do poder global, “o enfrentamento em ascenso dos povos à sua seqüela de concentração da riqueza e massificação da exclusão social favorece uma acumulação de forças sem precedentes por parte da esquerda latino-americana”. Na avaliação de Valter Pomar, um dos desafios é delinear o resultado deste movimento. “A hegemonia dos EUA está passando, mas o que é o tal pós-neoliberalismo?”, questiona. Para José Reinaldo de Carvalho, apesar das vitórias sucessivas da esquerda na região, hoje predomina um conjunto de governos intermediários, com grande heterogeneidade e alcance curto em termo de ações.

É na análise dos processos que reside um dos caminhos para clarear as possibilidades e caminhos da América Latina. Nessa abordagem, ganha importância e complexidade a compreensão dos casos venezuelano e boliviano pela sua aparente vanguarda na radicalidade entre os governos vizinhos. “Há um descompasso entre a expectativa que processos como Venezuela e Bolívia criam e o que se dá efetivamente no interior destes”, aponta Pomar.

A nação comandada por Chávez tende a estar no centro das discussões pelo autoproclamado socialismo do século XXI. Uma das razões é o seu conteúdo, ainda um enigma a ser decifrado. “Dá para chamar de socialismo? Acho que não é. Pode ser o intuito, mas não é o que está em curso”, avaliou o secretário do PT. Já José Reinaldo Carvalho apresentou postura mais crédula em relação àquele país. “Temos que olhar o processo venezuelano dentro da sua especificidade e apostar que o povo de lá irá encontrar uma saída para seus problemas”, afirmou.

Estreitar laços
Outro desafio na pauta do Foro é a sua forma de atuação. Na virada dos anos 90 para o novo século, a rede passou por períodos de turbulência, no qual houve irregularidade na realização dos seus encontros anuais, e até mesmo questionamento de parte de seus integrantes sobre a necessidade da sua existência. “Há um desafio de dar utilidade prática ao Foro. O que se pode fazer em termos de campanhas?”, refletiu Pomar. Se o encontro do Foro não deu resposta a esta pergunta, pelo menos buscou apontar para iniciativas mais concretas de cooperação. Foram definidas a construção de um observatório eleitoral, a organização de um festival político e cultural e a criação de uma escola de formação política para os partidos e movimentos que integram a rede.

Para José Reinaldo de Carvalho, o foro não deve ser uma organização, mas manter seu caráter de rede apostando nas convergências. “Foro não pode ser uma internacional [organização de partidos comunistas e socialistas], não pode ter centro único, não pode ter maioria se impondo à minoria. Tem que ter habilidade para buscar consensos, ir naquilo que nos une e não no que nos separa”, defendeu. A resolução do encontro aponta para este caminho, destacando que o avanço do combate ao neoliberalismo só avançará a partir de uma “ação articulada e uma relação respeitosa e complementar entre os partidos, movimentos e coalizões políticas de esquerda e da diversidade de organizações e movimentos populares e sociais” no intuito de construir uma “frente ampla de luta que integre a todos os setores populares e democráticos afetados pelas políticas do modelo dominante”.


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