Dólar barato afeta mercado de trabalho, e geração de emprego cai
Publicado em 08/02/2007 10:11
Câmbio prejudicou empresas, que contrataram menos em 2006. Ministério do Trabalho culpa juros do BC por enxurrada de dólares. Isenção dada pela Fazenda a estrangeiros também atraiu moeda americana. Governo busca soluções.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– A criação de empregos com carteira assinada no ano passado foi menor
do que em 2005, porque o valor médio do dólar caiu, quando calculado em
reais, atrapalhando as vendas das empresas dentro e fora do país e
reduzindo a necessidade delas de reforçar a produção com mais
trabalhadores. O número de empregos subiu 4,7%, com a abertura de
1.228.686 vagas, 25 mil a menos do que no ano anterior, quando o
crescimento fora de 5%. Foi o segundo pior resultado do primeiro
mandato do presidente Lula – só ganhou de 2003.
Para o ministro
do Trabalho, Luiz Marinho, que divulgou os dados nesta quarta-feira
(7), o desempenho de 2006 foi “razoável”. Segundo ele, o mercado de
trabalho está sendo afetado pelo câmbio, e a culpa seria do Banco
Central (BC). Ao manter a taxa de juros alta muito alta e no maior
patamar do mundo, o BC atrairia especuladores estrangeiros ao Brasil,
inundando o país de dólares. E o excesso da moeda na praça diminui o
preço dela.
“O resultado [da criação de emprego] poderia ter
sido melhor se o juro tivesse caído mais e o câmbio estivesse ajustado
num patamar que estimulasse exportações e inibisse importações”,
afirmou Marinho. “Esse resultado é um alerta muito grande para a equipe
econômica do governo, especialmente o Banco Central”, completou.
Segundo ele, o atual valor do dólar (na casa de R$ 2,10) prejudica os
interesses do país.
Um dia antes das declarações de Marinho, o
presidente do BC, Henrique Meirelles, esquivara-se de responsabilidades
pelo dólar, depois de participar de uma reunião com o ministro da
Fazenda, Guido Mantega, sobre o tema. Segundo o banqueiro, o BC só se
preocupa em controlar a inflação, pois é a única meta que tem a
cumprir. O BC também acha que a enxurrada de dólares decorre dos lucros
históricos que o Brasil vem tendo no comércio com outros países. No ano
passado, lucrou US$ 46 bilhões.
A Fazenda também colaborou para
a entrada maciça de dólares no país no ano passado, igualmente
seduzindo estrangeiros, a exemplo do que ocorre com o juro do BC. Em
fevereiro, o ministério acabou com a cobrança de imposto de renda sobre
os ganhos que estrangeiros tenham especulando com a dívida federal
(comprando e vendendo títulos públicos). A isenção atraiu mais de US$
10 bilhões para títulos do governo, inclusive para papéis atrelados ao
juro alto do BC, vilão do emprego, segundo Marinho.
A secretaria
do Tesouro Nacional, repartição da Fazenda que administra a dívida,
diz, no entanto, que anulou parte da conseqüência, no câmbio, do
ingresso de estrangeiros adquirindo dólares que eles trouxeram e usando
o dinheiro para pagar dívidas no exterior. “O efeito câmbio foi
compensado pela recompra da dívida externa”, afirmou o
coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Ronnie Tavares.
Providências e tendências
Para
este ano, o ministro do Trabalho disse que espera que sejam criados
mais empregos do que em 2006, embora tenha preferido não fazer previsão
numérica. Para que o otimismo se confirme, contudo, insiste que é
necessários fazer algo para o dólar encarecer e, assim, facilitar
exportações e frear importações. “Esse câmbio prejudica a industria
nacional e está afetando a tomada de decisões do empresariado
brasileiro”, disse Marinho.
A avaliação coincide com o que
manifesta o próprio setor industrial. No dia 31 de janeiro passado, a
Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou pesquisa que faz todo
trimestre. A entidade observou que as empresas adaptaram-se ao dólar
baixo, mas perderam o apetite de fazer novos investimentos de olho nas
exportações porque o lucro nesta atividade já não é fácil nem tão
suculento.
A pesquisa apurou ainda que, para as grandes
empresas, o preço do dólar é tido como segundo maior problema para seus
negócios – perdeu para “impostos”. Já entre pequenas e médias, o câmbio
é apontado como sétimo entrave. Dois dados explicam a diferença de
opinião: 80% das grandes exportam, mas só 36% das pequenas o fazem.
Em
2005, o dólar perdeu 17% do valor. No ano passado, 11%. Em 2007, já
desvalorizou 2%. A recente queda acentuou-se depois da divulgação, pelo
Banco Central, do documento que explica a última decisão sobre juros.
Em janeiro, o BC cortou a taxa menos do que fazia desde maio de 2006. O
documento sinaliza que o banco pretende manter a nova velocidade, tida
como insuficiente pelo empresariado e pelo ministério do Trabalho.
O
assunto mobilizou o governo na última terça-feira (6), em busca de
soluções que revertam o quadro. À noite, o presidente Lula reuniu-se
com Mantega e Meirelles para discutir o assunto, mas não houve nenhum
anúncio. Naquele mesmo dia, o presidente do PT, deputado Ricardo
Berzoini (SP), reunira-se com Mantega e, entre outras coisas, pedira
que o governo tome providências em relação ao dólar.























