Centrais entram em choque ao negociar com governo uso de fundo
Publicado em 07/02/2007 14:09
Força Sindical e CGT querem aplicar dinheiro do trabalhador na bolsa de valores. CUT reprova a idéia e pede financiamento exclusivo para infra-estrutura. Ministério do Trabalho espera acordo, mas sinaliza que é contra especulação.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– A proposta do governo, contida no Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC), de recursos do Fundo de Garantia por Tempo de
Serviço (FGTS) ser investidos em obras de infra-estrutura, como a
construção de estradas e usinas geradoras de energia, rachou as
centrais sindicais, que se reuniram nesta terça-feira (6) com o
ministro do Trabalho, Luiz Marinho, para discutir o assunto. A medida
provisória (MP) sobre o FGTS libera a utilização de 10% das contas
individuais para investimentos em infra-estrutura, superado o prazo de
dois anos.
A Força Sindical e a Central Geral dos Trabalhadores
(CGT) querem que o governo também libere os trabalhadores para
especular na bolsa de valores com outra parte (10%) dos recursos do
FGTS. Essa é uma das exigências que ambas fizeram para desistir de
tentar derrubar a proposta do governo no Supremo Tribunal Federal (STF).
A
Central Única dos Trabalhadores (CUT) reprova a idéia das co-irmãs e
deseja aproveitar a negociação com o governo para emplacar outra
reivindicação. A obrigação de que os empreendimentos que venham a ser
financiados pelo FGTS contratem apenas empregados com carteira
assinada, respeitando direitos trabalhistas.
Marinho mostrou
simpatia pela sugestão da CUT, mas disse que só encampará a proposta da
Força e da CGT, e a defenderá no governo e no Congresso, caso as
centrais cheguem a um acordo entre si. As entidades vão fazer uma
reunião entre elas nos próximos dias, antes de sentar de novo com o
ministro, segunda-feira (12) que vem.
Ação no STF
O
ponto de partida da reunião desta terça-feira (6) foi uma ação contra o
uso do FGTS em obras de infra-estrutura ajuizada no STF. A contestação
é de autoria de Força Sindical e CGT, que acionaram o Supremo dia 23 de
janeiro, um dia depois do anúncio do PAC.
O PAC propõe, por
meio de uma medida provisória (MP), que R$ 5 bilhões do patrimônio
líquido do FGTS sejam separados e constituam um fundo paralelo. O fundo
novo apoiaria projetos na área de infra-estrutura. A idéia tinha sido
aprovada pelo Conselho Curador do FGTS, instância em que as centrais
sindicais estão representadas.
Para questionar a MP, Força e CGT
alegam que o patrimônio do FGTS estaria ameaçado, porque financiaria
projetos de risco (com chances de dar prejuízo) e não haveria garantia
de que o buraco seria tapado. Ao levar a ação ao STF, o presidente da
Força, deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho,
dissera também que achava “irregular” e “ilegal” qualquer aplicação do
FGTS fora do pagamento de indenização a trabalhadores e de investimento
em saneamento e habitação.
Na atual negociação com o governo, o
pleito de Força e CGT choca-se com a argumentação feita por elas na
ação. Ambas querem que os trabalhadores possam especular na bolsa de
valores, uma operação de risco, usando o FGTS. Defendem a liberação de
10% da conta vinculada de cada empregado, para que ele possa comprar
ações de qualquer empresa, mesmo que não seja do ramo de habitação e
saneamento. “Defendemos o modelo de investimento individual. O
trabalhador tem de ter direito de escolher o risco”, justificou
Paulinho, depois da conversa com Marinho. Segundo o secretário-geral da
CGT, Canindé Pegado, caso a reivindicação vingue, a entidade desistirá
da ação no Supremo. A permissão requerida pela Força e a CGT já foi
dada duas vezes pelo governo em anos recentes, mas condicionada à
compra de ações da Petrobrás e da Vale do Rio Doce.
O
presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, discorda da idéia e
classificou-a de “trucada” das co-irmãs para tentar arrancar alguma
concessão do governo. Para ele, a reivindicação contraria o espírito da
proposta da MP: o apoio do FGTS a atividades produtivas na área de
infra-estrutura que criem de empregos. “Não aceitamos usar o FGTS para
especular na bolsa. Bolsa também tem risco e não gera empregos”, disse
Silva Santos, após a reunião. “Além disso, não estamos aqui para
discutir contas individuais, mas o patrimônio líquido do fundo”,
completou.
Sobra do FGTS e posição de ministro
De
acordo com o Ministério do Trabalho, o FGTS tem hoje patrimônio líquido
de R$ 20 bilhões. Isso significa que, se todos os trabalhadores fossem
demitidos e sacassem o que têm por direito, ainda sobrariam R$ 20
bilhões.
O saldo foi obtido porque, nos últimos anos, a multa
aplicada aos patrões que dispensam trabalhadores sem justa causa subiu
de 40% para 50% do saldo do FGTS. O aumento ocorreu para que o FGTS
arrumasse dinheiro extra que cobrisse perdas tidas por trabalhadores
com planos econômicos do passado. A dívida já foi liquidada. O
excedente vem sendo utilizado para especular com a dívida do governo
federal no “mercado”, em troca de juros abusivos.
Patrono da
idéia de redirecionar o excedente do FGTS, Marinho disse que vai
esperar que as centrais se entendam sobre a aplicação do FGTS na bolsa
de valores. Se houver acordo, ele topa defender a idéia em negociações
com o ministério da Fazenda e com o Congresso, que terá de votar a MP.
Mas,
apesar da disposição para o diálogo, Marinho sinalizou que é contra a
sugestão da Força e da CGT, pois a intenção do governo é apoiar o setor
produtivo. “O mercado de capitais é importante para a economia, para as
empresas. [Mas] Eu prefiro investir em infra-estrutura e em novos
negócios, que geram mais empregos”, afirmou. “O mercado de capitais
capitaliza empresas já constituídas e não gera tantos empregos”.
O
ministro disse ter deixado claro às centrais que, ao contrário do que
temem Força e CGT, na proposta de redirecionamento do saldo líquido do
FGTS, há “garantia absoluta” de que não existe “qualquer risco às
contas individuais dos trabalhadores.” Acrescentou ainda, que na
eventualidade de o fundo novo ter prejuízo, o governo cobrirá com
dinheiro próprio, sem recorrer às contas vinculadas dos trabalhadores.
Marinho
afirmou ainda ver com simpatia a sugestão da CUT de que os
empreendimentos financiados com recursos do FGTS tenham somente
empregos com carteira assinada. Segundo ele, é possível que o Conselho
Curador do FGTS estabeleça a exigência para cada projeto que venha a
ser financiado.























