Câmara aprova lei que inibe combate ao trabalho escravo
Publicado em 14/02/2007 09:26
Emenda do projeto de lei que trata da "Super Receita" impede que auditores fiscais do trabalho apliquem multas quando encontrarem trabalhadores em situação análoga à escravidão. PT pedirá a Lula que vete o texto.
Iberê Thenório e Carlos Juliano Barros* - Da Repórter Brasil (Agência Carta Maior)
SÃO
PAULO - Em votação nominal realizada na tarde desta terça-feira (13), a
Câmara dos Deputados aprovou por 304 a 106 a emenda ao projeto de lei
(PL) da "Super Receita" que impede auditores fiscais do trabalho de
apontarem vínculos empregatícios entre patrões e funcionários, quando
forem constatadas irregularidades.
De acordo com o texto,
apenas a Justiça do Trabalho terá competência para determinar se uma
pessoa é ou não empregada de outra. Caso entenda que seus direitos não
tenham sido honrados, o trabalhador deverá por conta própria recorrer
ao poder judiciário contra o empregador. "A emenda é inconstitucional,
pois atenta contra o direito de fiscalização do Estado. Se ela entrar
em vigor, vai acabar a fiscalização no Brasil. É uma tragédia", afirma
o deputado Nélson Pellegrino (PT-BA).
A emenda agora segue
para apreciação do presidente. A bancada do Partido dos Trabalhadores
deve solicitar a Luiz Inácio Lula da Silva que vete o texto. "Conto com
isso. Mas, se não acontecer, vou defender que o PT entre com uma ação
de inconstitucionalidade na Justiça", completa Pellegrino.
Sem poder de fiscalização
Na
prática, a emenda ao projeto de lei nº 6.272/05, que cria a "Super
Receita", inviabiliza fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego
(MTE) nos casos de trabalho escravo. Quando uma equipe de funcionários
públicos encontrar pessoas sem carteira assinada dentro de uma fazenda,
o empregador pode simplesmente dizer que as pessoas dali não têm
vínculo com ele. E só caberia à Justiça do Trabalho, se algum empregado
entrar com uma ação judicial, definir quem tem razão, o empregador ou a
equipe de fiscalização. Os auditores estariam impossibilitados de
aplicar autos de infração, que hoje são um dos instrumentos mais
importantes no combate à escravidão.
"Se o combate ao trabalho
escravo tem tido esse sucesso, é porque o fiscal pode aplicar na hora
as multas do empregador", afirma Rosa Campos Jorge, presidente do
Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho. Em nota divulgada
na última quinta-feira (8), o sindicato afirmou que a emenda também
pode prejudicar a repressão às falsas cooperativas e à terceirização
irregular nas empresas, além da fiscalização rural.
Para a chefe
da Secretaria de Inspeção do Trabalho, Ruth Vilela, está havendo uma
confusão entre poderes diferentes, pois a emenda transfere
prerrogativas dos auditores fiscais à Justiça do Trabalho. "Quando há
um conflito entre o empregador e o empregado, é a Justiça que resolve o
conflito. Mas quando não há o conflito, é o auditor fiscal que entra em
ação."
E há mais um problema. A Justiça do Trabalho só
reconheceria os vínculos, caso o trabalhador entrasse com uma ação
contra o empregador. Considerando o temor que muitos desses
trabalhadores sentem de seus patrões na região de fronteira agrícola -
devido à violência e ao desrespeito com que são tratados - dificilmente
um deles entraria com um processo contra o patrão.
Em boletim
divulgado à imprensa, a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça
do Trabalho (Anamatra) afirma que a emenda, além de prejudicar a
fiscalização do trabalho, atrapalharia o judiciário: "Para a Anamatra,
a proposta pode agravar a morosidade da Justiça do Trabalho".
A
Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANPT) também se
manifestou contra o trecho da nova lei. A entidade divulgou uma nota
pública classificando a mudança como uma "afronta" aos trabalhadores.
"Isso é uma tentativa de flexibilização dos direitos trabalhistas",
adverte o presidente da ANPT, Sebastião Vieira Caixeta. "Milhares de
trabalhadores serão prejudicados, o que poderá acarretar, inclusive, o
amento de condições degradantes no campo", prevê.
Pressão externa
A
emenda que pode prejudicar o combate ao trabalho escravo foi proposta
pelo ex-senador Ney Suassuna (PMDB-PB), quando o projeto de lei da
"Super Receita" ainda tramitava no Senado. Na época, o próprio gabinete
do senador afirmou que a emenda foi proposta atendendo a pedido de
empresas de comunicação. Para se isentar do pagamento de encargos
trabalhistas, essas empresas costumam utilizar serviços de jornalistas
colaboradores na forma de pessoas jurídicas.
Insatisfeitas com
a atuação dos auditores do trabalho, elas pressionaram para que o
vínculo fosse reconhecido apenas pela Justiça. "O lobby das empresas de
comunicação está muito forte", afirma a presidente do Sinait.
O
relator do projeto de lei na Câmara, deputado Pedro Novais (PMDB-MA),
emitiu parecer favorável à emenda. Em sua justificativa, ele afirma que
"nos países mais avançados, a legislação trabalhista é quase sempre
extremamente liberal". Em seu relatório, o deputado defende a
contratação de empregados na forma de pessoas jurídicas: "o Estado não
pode substituir a vontade do profissional que se lança ao mercado de
trabalho sob o guarda-chuva de empresa individual. Cabe a ele, e não à
fiscalização estatal, emitir juízo de valor a respeito", afirma o
parecer de Pedro Novais.
* Iberê Thenório e Carlos Juliano Barros integram a ONG Repórter Brasil























