Acordo com Bolívia mostra que Petrobras tem dono--analistas
Publicado em 15/02/2007 23:53
Por Denise Luna
RIO DE JANEIRO (Reuters) - Depois de mais de oito meses de negociações, e sucessivas negativas da Petrobras sobre um eventual aumento do preço do gás importado da Bolívia, o governo brasileiro assumiu sua posição de acionista majoritário da estatal e fechou um acordo que agrada o país vizinho, ao mesmo tempo em que tranquiliza o mercado brasileiro, avaliaram analistas.
Imediatamente bombardeado pela oposição ao governo no Congresso, o aumento de aproximadamente 4 por cento do insumo utilizado principalmente por indústrias e termelétricas surpreendeu analistas e consultores, que não esperavam decisão política em uma área empresarial.
O país pagará à Bolívia mais 100 milhões de dólares por ano com a decisão, somente do gás que vai para São Paulo. Adicionais 44 milhões de dólares serão pagos com o aumento do preço do gás para Cuiabá (MT).
O reajuste, no entanto, ficou abaixo do pretendido pelo presidente da Bolívia, Evo Morales, de 5 dólares o milhão do BTU (unidade térmica britânica, na sigla em inglês), atingindo no máximo 4,55 dólares, contra os 4,3 dólares atuais.
"Eles conseguiram uma maneira de cada um cantar vitória no seu país e, no final das contas, o aumento não foi tão grande", avaliou o consultor Arlindo Charbel, ex-funcionário da Petrobras e há 36 anos no setor.
Ele lembrou que nesse tipo de negociação é normal colocar alguém batendo na mesa, "no caso a Petrobras", e depois tirar essa pessoa para mostrar a boa vontade para um acordo.
"O importante é que agora o mercado de gás natural no Brasil vai ficar mais tranquilo e vai poder voltar a investir sabendo que vai ter fornecimento e que o preço não vai subir tanto", afirmou, lembrando que será inevitável o repasse ao consumidor.
Menos conciliador, o diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, Adriano Pires, considerou o aumento do preço do gás uma derrota para o país. Ele teme a perda de eficiência na gestão da Petrobras após a demonstração explícita de ingerência política.
"Foi uma vitória acaçapante do Evo Morales e um total afastamento da gestão profissional. Já que eles não queriam dar o braço a torcer de que rasgariam o contrato, inventaram essa história de gás nobre", afirmou.
No acordo, a Petrobras se comprometeu a pagar o gás boliviano levando em conta o preço internacional dos componentes do insumo.
"O gás tem produtos nobres que geralmente são retirados e vendidos separados, como GLP, gasolina natural, butano, e precificar isso foi o jeito de aumentar sem dizer que mudou o contrato", explicou Pires.
Ele destacou também a interferência do governo na usina termelétrica Mário Covas, em Cuiabá, Mato Grosso, controlada por um fundo inglês e pela Shell, em um acordo de aumento de preço que vai acabar, como no outro caso, na conta do consumidor.
"Hoje ficou explicado porque o governo se meteu na negociação do setor privado: vão repassar o aumento para Furnas, que vai ter que dar um jeito porque já vendeu essa energia (gerada pela termelétrica de Cuiabá) em leilão a preço fixo", ressaltou.
A interferência do governo e consequente aumento de preço do gás não devem afetar, porém, os papéis da companhia, na avaliação do analista Luiz Otávio Broad, da corretora Ágora Senior.
"Não tem impacto grande, podia ser pior, já que falavam em 5 dólares (o milhão de BTU). Se a empresa voltar a mostrar resultado melhora, mas no momento o clima não está muito bom mesmo", admitiu o analista, referindo-se ao balanço do quarto trimestre abaixo do esperado divulgado na terça-feira e à sucessiva queda do preço do petróleo no mercado internacional.
Puxada por esses dois últimos motivos, principalmente, a ação da estatal nesta quinta-feira caía 0,8 por cento, por volta das 16h30, enquanto o Ibovespa cedia apenas 0,02 por cento.























