A segunda morte de João
Publicado em 12/02/2007 15:11
O problema dos grandes crimes que chamam a atenção da opinião pública é
a exploração rasteira que se sucede a eles. Cria-se um movimento
catártico que vende jornal , mas não aponta saídas; expõe as vísceras,
mas não as causas; mostra o problema e não discute a solução.
Nessa cegueira ampla que o show exige, acaba toda a catarse
confluindo para soluções simplistas e/ou falsas, como a questão da
maioridade penal, um pequeno detalhe dentro de uma engrenagem muito
mais ampla e letal.
A família é envolvida por esse show indecente, na vã esperança de
que o sacrifício do filho não será em vão. Será sim. O único resultado
palpável será aumentar a venda de jornais e a audiência das televisões.
E permitir ao veículo se aproximar, se mostrar solidário a todos os
telespectadores e leitores, vítimas potenciais do crime, ajudando a
estimular sentimentos baixos de vingança, não a reflexão.
Tem-se um quadro amplo de criminalidade, com várias etapas entre a
iniciação e a profissionalização do criminoso. Começa pelo ambiente em
que a pessoa vive e na falta de oportunidades de uma vida dentro da
economia formal.
O ambiente é o entorno, com a facilidade com que crianças são
abordadas por traficantes e criminosos em geral. Passa por esse blefe
inventado por especialistas como André Urani de que houve melhora na
renda familiar depois que as mães tiveram que sair de casa para
complementar a renda insuficiente do pai, sem computar os efeitos dessa
ausência sobre a estrutura familiar. Some-se a falta de valores, típico
de uma sociedade fragmentada, sem projeto de nação, sem projeto de
solidariedade, onde até spams abjetos – como o tal “Elite
Privilegiada”, falsamente atribuída a mim – têm ampla aceitação junto a
setores basbaques da opinião pública.
O entorno se completa com as condições das escolas. E aí é falta de
gestão em todo seu espectro. É um quadro dantesco, mais ainda no Rio de
Janeiro, nas favelas dominadas pelas milícias e pelo tráfico. Some-se a
internacionalização do tráfico e do crime e se terá o mapa do inferno.
O entorno é isso. Já o futuro é cinza, e aí o motivo é falta de crescimento na veia.
Por outro lado, a falta de gestão e a politização da máquina
pública levaram a uma corrupção desenfreada que pega parte das forças
policiais em todo país. Pelas informações, de forma muito mais ampla no
Rio de Janeiro. O crime se profissionaliza e tem um exército de mão de
obra reserva quase infinito.
Aí essas campanhas abjetas simplificam tudo. O cidadão, encurralado
por todo esse quadro complexo e, aparentemente, insolúvel, finalmente
“identifica” o inimigo, aqueles ladrões de carro, que passam a ter
cara, identidade e cor. Trocam toda a reflexão necessária sobre como
enfrentar esse quadro dantesco, pelos sentimentos que vêm das partes
baixas, das entranhas embrutecidas pelo show diário de violência que se
vê nas ruas e nas TVs.
E, aí, é apenas aguardar a próxima tragédia para o menino João poder descansar em paz, enquanto o show continua.
No meio desse insensatez, a faixa solitária esticada no Maracanã é
um respingo de bom senso: "De olho por olho, a cidade ficará cega".























