A Perda da Amazônia
Publicado em 26/02/2007 10:44
Nada é comparável ao absoluto abandono a que está sujeita a Amazônia. O
que ocorre nessa área, 59% do território, é inacreditável.
Num país como o Brasil, marcado por amplas e lamentáveis incúrias de
parte do poder público, nada é comparável ao absoluto abandono a que
está sujeita a Amazônia. O que está ocorrendo nessa área, que representa
59% do território, é simplesmente inacreditável.
Por meio de uma multiplicidade de processos, a Amazônia está sendo
submetida a acelerada desnacionalização, em que se conjugam ameaçadores
projetos por parte de grandes potências para sua formal
internacionalização com insensatas concessões de áreas gigantescas
-correspondentes, no conjunto, a cerca de 13% do território nacional- a
uma ínfima população de algo como 200 mil índios.
Acrescente-se a isso inúmeras penetrações, freqüentemente sob a
aparência de pesquisas científicas e a atuação de mais de cem ONGs.
Recente reportagem publicada em caderno especial do "Jornal do Brasil"
apresenta os mais alarmantes dados.
A Amazônia brasileira, representando 85% da Amazônia total, constitui a
maior floresta tropical e a maior bacia hidrográfica do mundo, com um
quinto da água doce do planeta, sendo, concomitantemente, a maior
reserva mundial de biodiversidade e uma das maiores concentrações de
minerais valiosos, com um potencial diamantífero na reserva Roosevelt 15
vezes superior ao da maior mina da África, reservas gigantescas de ferro
e outros minerais na região de Carajás, no Pará, de bauxita no rio
Trombeta, também no Pará, e de cassiterita, urânio e nióbio em Roraima.
O dendê, nativo da Amazônia e nela facilmente cultivável, constitui uma
das maiores reservas potenciais de biodiesel. Em apenas 7 milhões de
hectares, numa região com 5 milhões de km2, é possível produzir 8
milhões de barris de biodiesel por dia, correspondentes à totalidade da
produção de petróleo da Arábia Saudita.
É absolutamente evidente que o Brasil está perdendo o controle da
Amazônia. É urgentíssima uma apropriada intervenção federal.
Os principais aspectos em jogo dizem respeito a formas eficazes de
vigilância da região e de sua exploração racional e colonização. O Grupo
de Trabalho da Amazônia, coordenado pela Abin, já dispõe de um
importante acervo de dados, contidos em relatórios a que as autoridades
superiores, entretanto, não vêm dando a menor atenção. É indispensável
tomar o devido conhecimento dos relatórios.
Sem prejuízo das medidas neles sugeridas e de levantamentos
complementares, é indiscutível a necessidade de uma ampla revisão da
política de gigantescas concessões territoriais a ínfimas populações
indígenas, no âmbito das quais, principalmente sob pretextos religiosos,
se infiltram as penetrações estrangeiras.
Enquanto a Igreja Católica atua como ingênua protetora dos indígenas,
facilitando, indiretamente, indesejáveis penetrações estrangeiras,
igrejas protestantes, nas quais pastores improvisados são,
concomitantemente, empresários por conta própria ou a serviço de grandes
companhias, atuam diretamente com finalidades mercantis e propósitos
alienantes.
O objetivo que se tem em vista é o de criar condições para a formação de
"nações indígenas" e proclamar, subseqüentemente, sua independência -com
o apoio americano.
Em última análise (excluída a eliminação dos índios adotada no século 19
pelos EUA), há duas aproximações possíveis da questão indígena: a do
general Rondon, de princípios do século 20, e a atual, dos indigenistas.
Rondon, ele mesmo com antecedentes indígenas, partia do pressuposto de
que o índio era legítimo proprietário das terras que habitasse. A um
país civilizado como o Brasil, o que competia era persuadir,
pacificamente, o índio a se incorporar a nossa cidadania, para tanto lhe
prestando toda a assistência conveniente, dando-lhe educação, saúde e
facilidades para um trabalho condigno.
Os indigenistas, diversamente, querem instituir um "jardim zoológico" de
indígenas, sob o falacioso pretexto de preservar sua cultura.
Algo equivalente ao intento de criar uma área de preservação de culturas
paleolíticas ou mesolíticas no âmbito de um país moderno. O resultado
final, além de facilitar a penetração estrangeira, é converter a
condição indígena em lucrativa profissão, com contas em Nova York e
telefone celular.
Há urgente necessidade, portanto, de rever essas concessões,
submetendo-as a uma eficiente fiscalização federal, reduzindo-as a
proporções incomparavelmente mais restritas e instituindo uma
satisfatória faixa de propriedade federal, devidamente fiscalizada, na
fronteira de terras indígenas com outros países.
HELIO JAGUARIBE , 83, sociólogo, é decano emérito do Instituto de Estudos Políticos e Sociais (RJ), membro da Academia Brasileira de Letras e autor de, entre outras obras, "Brasil: Alternativas e Saídas".
























Sugiro sua leitura:
A AMAZÔNIA PERDIDA
José R. Bessa Freire
Taquiprati – Diário do Amazonas – Manaus. – 25/02/2007 - www.taquiprati. com.br