A lógica do BC
Publicado em 09/02/2007 09:44
Coluna Econômica – 09/02/2007
O que se passa na cabeça do analista estratégico de uma grande
instituição financeira, vendo a decisão do Copom (Comitê de Política
Monetária) de reduzir o ritmo de queda da taxa Selic? Acompanhe o
raciocínio de um estrategista, e, depois, as explicações sobre as
conseqüências:
“A indicação que lemos é que haverá um ciclo mais longo pagando
juros altos, coisa para no mínimo um ano e meio. É um diferencial tão
grande em relação às demais alternativas de investimento, que o risco
de aplicar em dólares no Brasil é mínimo”.
“Historicamente, o prêmio para aplicar no Brasil era de 50% sobre
as aplicações em títulos brasileiros no exterior. Se o país pagava
13,5% lá fora, o investidor aceitava uma taxa Selic de 18% aqui dentro.
Esse diferencial servia para bancar o risco da volatilidade cambial
(isto é, da desvalorização do real). Quando caía abaixo disso, havia
tendência de retirar o dinheiro do Brasil. Hoje o prêmio á fora é de
apenas 50%. Se permanecesse esse “spread” de 50%, a taxa Selic de
equilíbrio deveria ser de menos de 10% ao ano.
“Acontece que hoje em dia o “spread” deveria ser muito menor. Antes
o Brasil pagava lá fora 13,5% por títulos com “duration” (prazo de
resgate) de 4,5 anos. Hoje esses 6,4% têm “duration” muito maior, de
6,5 anos, enquanto a “duration” da Selic continua de um dia. Se lá fora
aumentou o “duration”, significa que aqui dentro os investidores
estariam dispostos a receber um “spread” muito menor. Além disso, caiu
a tributação dos títulos para aplicações estrangeiras. Com essas
mudanças, é como se a taxa externa fosse de 5,5%. E o investidor
estaria disposto a aceitar até 8% de Selic. O conselho que estamos
dando aos nossos clientes é que só parem de aumentar a exposição
cambial quando a Selic chegar a 10% ou o dólar cair para R$ 1,80”.
“A recomendação é tomar mais risco, tirar do CDI e colocar em todo
espectro de risco Brasil. Antes, a grande aposta era na renda fixa. A
recomendação, agora, é ampliar o prazo de renda fixa para dois anos, e
ir para o mercado de ações”.
“Os únicos fatores de risco são externos, eventual aumento nos
juros norte-americanos ou uma recessão mundial. Aqui, a dinâmica da
dívida pública está sob controle. O superávit fiscal teria que cair
abaixo de 2,5% para começar a afetar a trajetória de queda da relação
dívida/PIB”.
“Se houvesse uma mudança no Banco Central, não haveria transtorno
maior no mercado, porque a dívida pública está sob controle. A mudança
bateria só no câmbio e não teria porque sair correndo porque as taxas
compensam eventuais volatilidades da moeda”.
Comentário
Pela explicação do estrategista, é possível entender a lógica por
trás da aparente loucura do BC. Ganham, primeiro, os grandes grupos
nacionais endividados em dólares –grandes grupos de mídia entre eles,
com seus editoriais sugerindo que se deixe o câmbio “por conta do
mercado”. Segundo, toda essa indústria de IPOs (lançamento primário de
ações), comandada pelos fundos e bancos de investimentos loucos, para
desovar ações supervalorizadas no mercado.
Dizer que o BC está preocupado com a inflação de 2008 é piada. Ele
está preocupado em não prejudicar os ganhos desses grupos em 2007.























