“Governo do Rio não fez nada para impedir milícias”
Publicado em 08/02/2007 17:16
ENTREVISTA – JULITA LEMGRUBER
Para Diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, ex-diretora do sistema penitenciário do Rio, as milícias, tão criminosas quanto o tráfico, avançaram diante do descaso do governo estadual.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO
PAULO – Desde o último final de semana, o Rio de Janeiro enfrenta uma
nova ameaça na quase permanente crise da segurança pública no Estado.
As chamadas milícias paraestatais – que segundo a Subsecretaria de
Inteligência da Secretaria de Segurança Pública já controlam 92 favelas
do Rio – entraram em confronto armado com o tráfico, deixando cinco
mortos e 16 feridos. A história se desenrolou com o afastamento do
inspetor Félix dos Santos Tostes, assessor do gabinete da Polícia
Civil, acusado de ligação com a milícia que controla hoje a favela Rio
das Pedras. O governo estadual anunciou que retomará 167 processos
administrativos sobre desvios de conduta de policiais que estavam
parados na corregedoria, e o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, propôs a
criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar
a ação e composição das milícias. Como informou o jornal O Globo,
o Disque-Denúncia fluminense recebeu este ano 223 ligações com
informações sobre a ligação de bombeiros e de policiais militares e
civis com esses grupos, que após expulsar traficantes das comunidades,
passam a cobrar por uma suposta segurança da população. A última
novidade foi a instalação de um portão em uma das entradas da Vila
Joaniza, antigo Morro do Barbante, na Ilha do Governador. Se foi obra
da milícia que controla a região ainda não está claro.
Na
avaliação da socióloga Julita Lemgruber, diretora do Centro de Estudos
de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio de
Janeiro, ex-ouvidora de polícia e ex-diretora do sistema penitenciário
do Estado, as milícias são tão criminosas quanto o crime organizado; um
fenômeno que cresceu e se intensificou nos últimos anos em decorrência
da negligência e ausência do Estado nessas comunidades. Para ela,
historicamente, o Rio de Janeiro desenvolveu uma política antiquada de
policiamento, e este confronto, que coloca a população ainda mais em
risco, é somente o resultado mais recente deste modelo segurança
pública. “Claramente o governo anterior conviveu com esta questão e não
fez rigorosamente nada para impedir a ação das milícias”, disse Julita,
em entrevista exclusiva à Carta Maior.
Confira abaixo os principais trechos desta conversa.
Carta Maior – O
enfrentamento armado entre milícias e crime organizado veio à tona
neste final de semana. No que a atuação desses grupos se difere?
Julita Lemgruber –
Embora a ação das milícias esteja hoje sendo olhada como um fenômeno
relativamente recente, ele não é. Antes, esses grupos eram conhecidos
como “polícia mineira”. A polícia mineira de Rio das Pedras, por
exemplo, que teve seu chefe preso nos últimos dias, existe há mais de
30 anos. Então isso não é novo, e as autoridades da segurança pública
do Rio de Janeiro sempre conviveram com isso. O que é recente é o
crescimento do número de milícias e dos territórios por elas
controlados. Comparando milícias e crime organizado, ambos são grupos
fortemente armados defendendo um território, sem a legitimidade do
poder do Estado. Ambos são, então, criminosos.
CM – Podemos dizer que a origem desses grupos também tem causas semelhantes, como a ausência do Estado nessas comunidades?
JL
– Sem dúvida alguma. Tanto o tráfico quanto as milícias conseguem
ocupar territórios e, de uma forma ou outra, defendê-los porque o
Estado não está lá cumprindo seu papel.
CM – As
informações apontam para uma participação efetiva de agentes e
ex-agentes do Estado na composição das milícias. Há um complicador
maior neste caso?
JL – Sim. Em relação ao tráfico, a
polícia pode dar proteção e, eventualmente, há policiais parceiros do
tráfico. Mas esses grupos são constituídos em sua grande parte por
policiais civis, militares, agentes penitenciários e bombeiros. É
evidente que isso torna o quadro muito mais preocupante. Mas, neste
momento, é importante ter clareza de que, na sua origem, alguns desses
grupos eram constituídos por policiais que se sentiam ameaçados pelo
tráfico. Essa é a grande questão. Muitos policiais moram nas favelas;
há inúmeros casos de homens que têm que secar a farda atrás da
geladeira, cujos vizinhos não podem saber que ele é policial, que sai
de casa com a farda na sacola e a identidade na sola do sapato. Alguns
desses grupos surgiram, então, como uma reação de sobrevivência,
formados por policiais que moravam em favelas dominadas pelo tráfico,
muitos deles ameaçados inclusive de expulsão. A imprensa já mostrou
reportagens do tráfico expulsando policiais e a PM indo lá com o carro
da polícia pra ajudar a fazer a mudança da família. É o Estado
assumindo que não pode dar segurança para o homem que o representa
naquela favela.
CM – Mas logo esses grupos mudam de caráter.
JL
– Exato. Logo isso se transforma numa fonte de rendimentos extras muito
atrativos. Eles vendem a segurança e passam a cobrar dos comerciantes,
de pessoas que alugam casas na favela, cobram o tal do gato Net, agora
fecharam o portão de acesso. Se transformaram muito rapidamente. É
interessante, por exemplo, traçar um paralelo com a origem dos comandos
no sistema penitenciário. Quando o Comando Vermelho foi criado na Ilha
Grande, tinha intuitos muito nobres. Havia uma caixinha, todos os
presos tinham que contribuir, pra ajudar as famílias de presos que não
tinham condições. Era aquela visão coletiva, dos presos políticos.
Rapidamente, mesmo na Ilha Grande, eles passaram a usar a caixinha pra
comprar a guarda para fugir da ilha. Ou seja, muitos desses movimentos
surgem com objetivos nobres e rapidamente são desfigurados.
CM – Em
termos de territórios controlados e do envolvimento do alto escalão da
polícia nas milícias, não houve uma intensificação recente?
JL –
Assim como policiais viram no tráfico uma fonte adicional de recursos,
esses grupos viram que vender segurança era atrativo. Aí isso chegou ao
alto escalão. Claramente, o governo anterior conviveu com esta questão
e não fez rigorosamente nada para impedir a ação das milícias. Isso
ficou muito claro. O que estamos vendo agora é o contrário: o
governador e o secretário de Segurança Pública falando claramente que
não vão conviver com as milícias, que elas são tão criminosas quanto o
tráfico. Esse é o dado novo.
CM – O governador do Rio,
Sérgio Cabral, falou de uma retomada de processos de má conduta da
polícia e a Assembléia Legislativa aponta para a possibilidade de
abertura de uma CPI. Esses mecanismos podem ter resultados?
JL
– O deputado Marcelo Freixo já pediu a criação de uma CPI, e agora é
preciso apoio para que ela efetivamente se instaure, porque pode haver
uma reação de deputados. Sabe-se que alguns deputados foram muito
votados em áreas controladas por milícias, então é evidente que deve
haver interesses na Assembléia para que essa CPI não se crie. Seria
importante porque uma CPI chama atenção, ocupa espaço na mídia, joga
luz sobre um problema que outros interesses tentam impedir que se
clareie. A CPI tem este papel simbólico e emblemático. Também é válido
que o governo esteja desenterrando estes processos disciplinares. Mas
quando surge essa discussão de corrupção e de ilegalidade da ação da
polícia, insisto que, enquanto não houver neste país um órgão de
controle externo realmente independente e autônomo, vamos caminhar
pouco nesta luta.
CM – As ouvidorias de polícia teriam um papel central neste processo?
JL
– Exatamente. Temos que abrir essa discussão com a sociedade. As
ouvidorias precisam ter o poder de investigar. Elas são um fenômeno de
meados dos anos 90 e tiveram momentos mais combativos, mas, ao longo
dos últimos anos, se tornaram quase omissas. O problema não é tanto de
falta de vontade dos ouvidores, mas de falta de instrumentos reais para
investigar, para que não fiquem reféns das corregedorias. Senão, são
meras repassadoras de denúncias. Sempre cito o caso da Irlanda do
Norte, que é o que há de melhor em controle externo no mundo hoje. É
uma ouvidoria poderosa, com cerca de 100 investigadores, todos com
poder de polícia. Lá é a ouvidoria que investiga quando há alguma
ilegalidade grave. A polícia não pode nem tocar neste assunto. Então
temos que abrir uma discussão com a sociedade sobre que tipo de
controle externo a gente quer. Na verdade, o Ministério Público,
constitucionalmente, é o responsável pelo controle externo. Mas na
realidade o MP faz o controle do inquérito. Não vai além disso.
CM – Nos
últimos dias, se levantou a possibilidade de a Polícia Federal
investigar denúncias de corrupção das polícias estaduais. Qual sua
opinião sobre isso?
JL – Politicamente, é muito delicado
o governo federal entrar nas polícias estaduais. Nos Estados Unidos, o
governo federal possui um órgão dentro do Ministério da Justiça – a
Divisão de Direitos Civis – que, legalmente, pode investigar policiais
estaduais nos casos de graves ilegalidades em que fica patente que o
governo local ou estadual não tomou as providências necessárias. Aqui é
diferente. Então é complicado dizer que a Polícia Federal vai fazer
isso. Pode ser uma boa idéia, mas tem que ficar muito claro em que
casos isso pode ocorrer e que instrumentos serão esses. E avaliar o
momento de transição de governo pelo qual estamos passando.
CM – Como
fica a população neste momento, quando grupos que podiam ter princípios
até nobres e trazer uma suposta segurança agora passam a entrar em
confronto com o tráfico?
JL – O tiroteio aumentou.
Aumentou o nível e a intensidade da troca de tiros. Infelizmente, ao
fim e ao cabo, é isso que vai resultar dessas guerras. Certamente,
essas milícias vão começar a disputar espaço entre elas, assim como o
tráfico faz com as favelas mais lucrativas. Do ponto de vista do que
podem render para essas milícias, as favelas mais lucrativas também
começarão a ser disputadas. A grande pergunta que fica no ar é: quando
as milícias vão começar a vender drogas?
CM – Em
paralelo a esta questão, a Força de Segurança Nacional está sendo
treinada para atuar no Rio de Janeiro. Quando essa ação se efetivar,
este pode ser um reforço positivo?
JL – Se pensarmos em
uma atuação pontual e em um grupo bastante qualificado, que vai operar
a partir de um mapeamento preliminar e de dados reunidos pela área de
inteligência, a Força de Segurança Nacional pode dar uma contribuição
importante. É muito cedo pra sair jogando pedra e dizer que ela não vai
servir pra nada, que tem um número muito pequeno de homens. Não
adianta. A polícia militar no Rio de Janeiro tem 40 mil homens e o que
adianta? São 40 mil homens mal treinados, mal pagos e que operam a
partir de uma gestão pouco eficaz, que a gente espera que mude agora.
Nos últimos anos, vimos uma polícia operando de forma antiquada. A
gente não vê gestão moderna de polícia. Não vemos um mapeamento
constante de como está se distribuindo a criminalidade. Isso tem que se
fazer diariamente: estudar a incidência de crimes, pra ver como se vai
distribuir o efetivo. Podemos dobrar o efetivo que não resolveremos o
problema. A PM de São Paulo tem mais de 80 mil homens e isso não
adiantou para conter os ataques do PCC, porque a área de inteligência
não funcionou. Essas são áreas que têm que funcionar muito bem
integradas, mas o que vemos hoje é cada um querendo esconder uma ação
do outro.
























Acho que um trabalho intenso em cada uma dessas comuidades e favelas evitaria certas expeculações!
com o poder do estado tomando decisões e assumindo a lei em tais localidades existente de grupos QUE DEUS TOME DE CONTA POIS ENQUANTO HOUVER SOBERANIA DE HOMENS INSENSATOS COMO ESSES, EM PARTE A JUSTIÇA DE DEUS NÃO SERÁ REALIZADA!