“Cavaleiro da tortura” vem ao Brasil debater combate ao crime
Publicado em 09/02/2007 09:58
Procurador-Geral dos EUA, Alberto Gonzáles, veio ao Brasil debater políticas de combate ao narcotráfico e ao terrorismo. Defensor da pena de morte, Gonzáles é o autor de um documento secreto que autorizou a prática da tortura nas prisões de Guantánamo e de Abu Ghraib. Entre os organismos de direitos humanos internacionais é chamado de “cavaleiro da tortura”. Mães da Praça de Maio repudiaram sua visita a Argentina.
Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior
Seis
governadores se reuniram hoje em Brasília com o procurador-geral dos
EUA (Secretário de Justiça), Alberto R. Gonzáles, e com o subsecretário
norte-americano para Assuntos Políticos, Nicholas Burns. Na pauta da
reunião, parcerias na área energética e questões de segurança e a
colaboração para o combate ao crime entre os estados brasileiros e os
EUA. Gonzáles também se reuniu com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, para debater a instalação de um mecanismo de consulta bilateral
para troca de experiências no combate aos crimes de lavagem de
dinheiro, tráfico de drogas e terrorismo. Os Estados Unidos têm
especial interesse na política do governo brasileiro para a área da
tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), apontada por
Washington como um ponto de encontro e de financiamento para o
terrorismo. Com os governadores, Gonzáles debateu temas relativos à
política carcerária e segurança.
Participaram da reunião na
residência oficial do embaixador dos Estados Unidos, Clifford Sobel, os
governadores Sérgio Cabral (RJ), Jaques Wagner (BA), José Roberto
Arruda (DF), Eduardo Campos (PE), Cid Gomes (CE) e Yeda Crusius (RS).
Ao sair da reunião, a governadora Yeda Crusius disse que se tratou de
uma “agenda inovadora” que reuniu autoridades federais de primeiro
nível dos EUA com autoridades estaduais brasileiras. Segundo ela, a
maior preocupação do RS é em relação à política carcerária. “E nisso
vou dar continuidade na conversa com o procurador Alberto Gonzáles nos
Estados Unidos”, disse. E acrescentou: “Ao contrário da nossa
aproximação histórica no campo de inteligência e segurança, no setor de
economia temos nos distanciado dos Estados Unidos”. Em se tratando de
política carcerária, a trajetória de Gonzáles é polêmica, para dizer o
mínimo. Ele é o autor de um memorando secreto que concedeu via livre
para as torturas nas prisões de Guantánamo e de Abu Ghraib.
Alter ego judicial de Bush
A
visita de Gonzáles faz parte de um giro pela América Latina com o
objetivo de discutir parcerias para a luta contra o terrorismo e o
narcotráfico. O jornal argentino Página 12, por ocasião da
visita de Gonzáles a Buenos Aires, quarta-feira, destacou que ele é
considerado o ideólogo das torturas aos prisioneiros em Guantánamo e
Abu Ghraib, “algo assim como o alter ego judicial de George Bush”.
Filho de mexicanos, assinalou ainda o jornal, Gonzáles fez toda sua
carreira junto a George W. Bush. Hoje, é chamado pelos organismos
internacionais de direitos humanos como o “cavaleiro da tortura”.
Gonzáles foi secretário de Estado de Texas, durante o governo Bush. Uma
das principais características de sua gestão, acrescenta o jornal
argentino, é que raras vezes atendeu aos pedidos de clemência que os
condenados à morte enviavam ao governo. Gonzáles é acusado de ter
omitido informações que poderiam ter salvo a vida de alguns presos.
Durante o governo Bush, o Texas usou a pena de morte como nenhum outro
Estado na história dos EUA (foram 152 casos).
A matéria do Página 12
dá mais detalhes sobre a trajetória de Gonzáles. Ele foi acusado pela
União Norte-americana para as Liberdades Civis e pelo Centro para
Direitos Constitucionais, entre outros organismos, de interpretar as
leis para a conveniência de Bush. Essa atitude, diz o texto,
converteu-se em uma dolorosa certeza em escala mundial a partir de
2000, quando George W. Bush chegou à Casa Branca. Em 2002, Gonzáles
escreveu um memorando secreto no qual considerou que a Convenção de
Genebra não valia para os “inimigos combatentes”, expressão pela qual o
governo dos EUA passou a designar os homens da Al Qaeda e os talibãs do
Afeganistão. A partir daquele momento, segundo o memorando, só seria
considerada tortura a prática na qual a dor gerada nos interrogatórios
incluísse “feridas que produzam a morte, a falência de um órgão ou
sérios impedimentos de uma função corporal”. Ou seja, tortura mas não
mata.
Direitos obsoletos
Foi assim que os militares
dos EUA, nas prisões de Guantánamo e Abu Ghraib tiveram sinal verde
para golpear prisioneiros das mais variadas formas, promover
humilhações sexuais, amedrontrar presos com cães e outras práticas
consideradas “cruéis e desumanas” pela Cruz Vermelha Internacional.
Gonzáles teorizou sobre a questão, dizendo que, depois de 11 de
setembro, o mundo passou a enfrentar “um novo paradigma”, razão pela
qual os direitos civis protegidos pela Convenção de Genebra teriam se
tornado “obsoletos”. Segundo o diretor executivo do Centro de Estudos
Legais e Sociais da Argentina (CELS), Gastón Chillier, Gonzáles criou a
estrutura legal que permitiu a tortura em Abu Ghraib e Guantánamo.
Chillier pediu ao presidente Nestor Kirchner que reafirmasse a
Gonzáles, no encontro que mantiverem, a posição da Argentina contra a
prática da tortura. Sua passagem pela Argentina foi alvo de protesto
por parte das Mães da Praça de Maio.
Através de um comunicado
oficial, as Mães da Praça de Maio repudiaram a presença de Gonzáles em
solo argentino: “Repudiamos energicamente a visita ao país do
procurador geral dos Estados Unidos, Alberto Gonzáles, impulsionador da
tortura e de outros métodos criminais naquilo que Bush denomina 'guerra
contra o terrorismo'. Nos envergonha que um sinistro personagem pise no
solo argentino, onde milhares de pessoas foram vítimas desses métodos
criminais. A visita deste delegado da morte ofende ao povo, ainda mais
no momento em que a Argentina está empenhada no resgate da memória, da
verdade e da justiça, e acaba de firmar uma Convenção Internacional
sobre a Desaparição Forçada de Pessoas como crime contra a humanidade”.
Por
ocasião de sua nomeação para o Departamento de Justiça dos EUA, a
Anistia Internacional e várias outras organizações não-governamentais
criticaram duramente Gonzáles em uma carta aberta publicada no jornal The New York Times.
“Pode ser que vocês não conheçam Alberto Gonzáles”, dizia a carta, “mas
estamos certos de que reconhecerão os resultados de seu trabalho”. Ao
lado do texto, aparecia uma das fotos dos abusos cometidos contra
prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib. Gonzáles ficou
conhecido também por elaborar uma interpretação peculiar dos termos da
Convenção de Genebra. Por um lado, defendeu que ela garante “a proteção
aos militares norte-americanos no exterior”. Por outro, relativizou a
definição de tortura contra prisioneiros capturados em conflitos
considerados como parte da guerra dos EUA contra o terrorismo.























