Mulheres-América Latina: Discriminação tripla
Publicado em 27/11/2006 16:53
Por Kintto Lucas, da IPS
Quito, 09/08/2007 – Mulheres indígenas e negras da América Latina e do
Caribe sofrem tríplice discriminação por sexo, raça e classe social na
política e no trabalho, afirmaram participantes do painel “Cidadania e
participação política das mulheres indígenas e afrodescendentes”,
durante a X Conferência Regional sobre a Mulher, que acontece em Quito
até hoje. A dirigente indígena guatemalteca Otilia Lux de Cotí garantiu
que “desde nosso ponto de vista, a luta pelo direito à participação da
mulher está unida à luta pelo direito à participação do povo indígena”.
“Somos discriminadas pelos Estados, pelos homens e muitas vezes pelas
outras mulheres, por isso, para corrigir as desigualdades históricas
devemos reestruturar o Estado e construir uma sociedade igualitária”,
afirmou Cotí, ex-ministra da Cultura e dos Esportes da Guatemala.
Assim, ao exigir cotas de participação é necessário também especificar
as cotas de mulheres indígenas e afrodescendentes, recomendou.
“Queremos resgatar a democracia, e para isso devemos recriá-la desde
nossa visão. Uma democracia desde a América Latina só pode ser
intercultural”, ressaltou.
A dirigente afrobrasileira Maria Inês Barbosa afirmou que machismo e
racismo estão na mesma base de construção dos Estados nacionais da
América Latina do Caribe. “Para eliminar o machismo e o racismo é
preciso mudar a sociedade. Muitas vezes em fóruns internacionais
mudamos as palavras para não mudar a sociedade. Não podemos continuar
com isso, devemos mudar a sociedade”, afirmou. “Não nos enganemos,
muitas vezes os documentos que surgem dessas reuniões são uma coisa,
mas a realidade das mulheres indignas e afrodescendentes é outra,
porque também somos as mais pobres”, afirmou.
A indígena miskita nicaragüense Margarita Antonio disse que é
necessário que os Estados e as agências das Nações Unidas continuem
trabalhando em uma maior formação das mulheres que, por sua vez, devem
repassar o conhecimento adquirido a quem permanecer nas comunidades
para encurtar distâncias que também existem entre diferentes setores da
população feminina.
Do painel, organizado pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento, Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a
Mulher e pela Secretaria do Fórum Permanente de Assuntos Indígenas, foi
acompanhado por mais de cem representantes de diversas organizações
regionais. As indígenas presentes divulgaram o manifesto “Pela
construção de um Estado plurinacional”.
“Apesar dos avanços quantitativos e qualitativos, da metade da década
dedicada a conseguir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e da
Segunda Década dos Povos Indígenas do Mundo, enfrentamos uma situação
crítica agravada pela aplicação crescente de políticas macroeconômicas
que desconhecem os direitos coletivos de nossos povos”, diz o
documento. Também assegura que “o avanço dos direitos humanos das
mulheres indígenas está vinculado à luta para proteger, respeitar e
exercer tanto os direitos coletivos dos povos quanto sua unidade
baseada em seus territórios, recursos naturais, conhecimentos
tradicionais coletivos e o pleno reconhecimento das instituições de
autogoverno”.
“Reconhecemos a importância dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio
como ferramenta para avançar em estratégias para o desenvolvimento
sustentável e os direitos humanos das mulheres apesar de as metas
utilizadas para medir seus avanços não incorporarem indicadores de
pertinência cultural”, afirma o manifesto divulgado ontem. Os Objetivos
de Desenvolvimento do Milênio foram adotados em 2000 pelos
países-membros da Organização das Nações Unidas como uma plataforma
para reduzir a pobreza e a desigualdade em todo o mundo, melhorar a
saúde, a educação e a igualdade de gênero, combater a contaminação e
adotar um modelo de desenvolvimento sustentável e um regime de comércio
internacional mais justo. O prazo para atingir essas metas vence em
2015.
O documento das mulheres nativas recomenda aos Estados que “adotem
imediatamente a Declaração dos Povos Indígenas da ONU, aprovada pelo
Conselho de Direitos Humanos em junho de 2006, como plataforma básica
para o desenvolvimento e a participação eqüitativa das mulheres
indígenas”. Segundo um estudo do Instituto Internacional de Pesquisas e
Capacitação das Nações Unidas para a Promoção da Mulher (UM-Instraw),
outro dos organizadores do painel, as indígenas experimentam o acesso
aos recursos e a espaços de maneira diferente dos homens e das mulheres
que não são indígenas.
“Elas, que representam quase 60% dos 50 milhões de pessoas indígenas da
América Latina e do Caribe, também enfrentam uma tríplice discriminação
por sua condição de mulher, indígena e pobre”, afirma a pesquisa. Esta
edição está dedicada a abordar a contribuição das mulheres para a
economia e a proteção social, sobretudo em relação ao trabalho não
remunerado, e a participação política e a igualdade de gênero. Nessa
matéria, “além das reformas dos sistemas eleitorais, é preciso
modificar numerosos aspectos a cultura política que provocam tendências
discriminatórias, como o acesso desigual ao financiamento, a influência
desigual das redes sociais e o uso injusto do tempo que exige das
mulheres centrar sua atenção nos trabalhos reprodutivos”, afirma um
estudo apresentado terça-feira pela Comissão Econômica para a América
Latina e o Caribe (Cepal).
“O surgimento de lideranças femininas na região, o comportamento
eleitoral crescente autônomo das mulheres e o voto feminino a favor das
mulheres constituem parte do novo cenário democrático”, diz o documento
“A contribuição das mulheres para a igualdade na América Latina e no
Caribe”. Acrescenta que “a paridade é um dos símbolos das novas
democracias, que se apresenta como um recurso ético para fortalecer a
legitimidade das instituições democráticas”. (IPS/Envolverde)
Legenda: mulher da etnia quechua
(Envolverde/ IPS)























