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Decisões práticas demandam tempo e desbanca indicadores

Publicado em 27/11/2006 16:53

Reuters

Por Angela Bittencourt

SÃO PAULO (Reuters) - A intensa volatilidade dos ativos financeiros, aqui e lá fora, tende a neutralizar qualquer impacto da pesada agenda econômica da semana.

Recheada de prévias de inflação, indicadores de atividade e balanços da dívida pública e operações do setor externo, a agenda seria um gatilho para o reposicionamento de grandes investidores no mercado brasileiro, mas em outro momento.

"Em momentos como o atual, de incerteza, diminui muito a dependência que o mercado tem de indicadores", explica Jorge Simino, diretor de investimentos da Fundação Cesp, responsável pela gestão de recursos de fundos de pensão de 12 companhias do setor elétrico no país.

"A questão da hora é operacional", avisa Simino.

"O mercado sai do mundo da informação e passa para a decisão de problemas práticos. Busca indicações de saques, resgates, risco de crédito."

Ele espera pelo menos um mês de acomodação dos ativos no mercado internacional e no Brasil.

"O recado do Federal Reserve ao cortar o juro da linha de redesconto é simples: 'estou aqui para atuar e emprestar dinheiro se o mercado precisar'. Com isso, o mercado ganha tempo para não operar no pânico", comenta.

O mercado brasileiro também depende de tempo para corrigir os preços dos ativos, lembra o gestor.

"A turbulência levou cotas de alguns fundos multimercados a acumular perdas que variam de 5 a 20 por cento. Essa perda não é prejuízo, mas desvalorização de cotas. E a perda pode não ser realizada, mas a tomada de decisão demanda tempo."

HORA DA FAXINA

Simino não acredita que a volatilidade vai ceder nas próximas semanas, mas está convencido de que o mercado brasileiro sofreu um teste importante.

"A forte correção dos últimos dias aumenta a noção de limites de baixa e de alta. Ibovespa a 58 mil pontos e dólar a 1,85 real não são razoáveis, como também não é razoável o índice a 46 mil pontos e a taxa de câmbio a 2,10 reais. O mercado buscará um ponto de equilíbrio entre os extremos."

O economista pondera que o mercado voltará sua atenção para os indicadores econômico-financeiros "só depois da faxina".

"Apenas mais adiante os mercados terão condições de discutir fundamentos econômicos. Aí veremos o impacto da crise financeira na economia real. Nesse ponto, talvez em um mês, o Fed decidirá se corta ou mantém o juro básico. Mas está claro que o Fed não quer recessão, até porque os EUA têm eleição no ano que vem", diz.

"O corte da taxa de redesconto também mostrou que, em alguns momentos, até mesmo os bancos centrais dependem de gestão de gogó e não de lições de manual."

O economista vê o Brasil afetado pela crise externa de algum modo, "possivelmente freando ou interrompendo mais cedo o ciclo de corte da Selic".

Ele lembra que a atividade econômica está muito forte, com perspectiva de crescimento da ordem de 5 por cento, e dispensa estímulos adicionais.

"O BC deve recorrer ao manual do homem prudente. Na hora do faniquito, a melhor decisão é parar e observar o movimento."

IMPACTO REAL

João Luiz Mascolo, professor do Ibmec-SP e sócio-diretor da ForeSee Asset Management, concorda com Simino quanto à perspectiva de o Brasil sofrer efeitos da crise global.

"Não tem chance de uma crise desse porte não afetar a economia internacional, incluindo o Brasil. O estoque de riqueza dos americanos ficou menor. Eles gastarão menos. O PIB dos EUA crescerá menos também. O mundo crescerá menos."

O economista lembra que consumo é um fluxo de recursos que depende de um fluxo de renda. Ele estima que os norte-americanos perderam cerca de 8 por cento da renda aplicada em ações e 8 por cento no mercado de hipotecas.

"Essas perdas devem reduzir em 0,4 ponto o PIB americano neste ano e no próximo. A taxa de crescimento deve cair a cerca de 2 por cento e isso significa, no mínimo, queda de exportações de outras economias."

CIRANDA DA FELICIDADE

Neste momento, Mascolo vê o mercado financeiro global em pânico --resultado de incertezas.

"Não se sabe a extensão dos danos. Não se sabe quantas e quais instituições estão em posições alavancadas. Fala-se de perdas... Aumenta, portanto, a aversão ao risco porque ninguém sabe quem tem o quê. Mas este momento vai passar, e virá o ajuste na economia real."

O potencial de default do mercado de hipotecas ronda 300 bilhões de dólares, na avaliação do professor.

"Este rombo não é grande se comparado à economia americana e ao próprio mercado de hipotecas, de 10 trilhões de dólares. Cinco Bill Gates cobririam o rombo... Grave não é a dimensão, mas os efeitos da ciranda da felicidade produzida pelo giro de títulos hipotecários que saíram dos EUA para o mundo."

Mascolo resume: o movimento que assistimos hoje nasceu entre 2000 e 2001, quando Alan Greenspan, então chairman do Fed, baixou o juro a 1 por cento, ante inflação de 3 por cento.

"Medo da administração Bush, o estouro da bolha da Internet e os atentados às torres gêmeas semearam a recessão... Greenspan aqueceu a economia. O juro negativo incentivou gastos, os americanos se endividaram, os bancos aproveitaram e relaxaram na avaliação do risco de crédito. O resultado foi uma ciranda global em que, agora, todo mundo dança."

AGENDA DA SEMANA

Segunda-feira -- Relatório Focus, balança comercial (3a semana agosto), IPC-Fipe (2a quadrissemana agosto), FGV divulga Sondagem Industrial-quesitos especiais;

Terça-feira -- IGP-M (2a leitura agosto), FGV divulga Sondagem Econômica da América Latina;

Quarta-feira -- Relatório mensal do Tesouro sobre dívida pública federal (julho), nota do BC sobre operações do mercado aberto (julho);

Quinta-feira -- Nota BC sobre setor externo (julho), IBGE divulga Pesquisa Mensal Emprego (julho), FGV divulga Sondagem Consumidor (agosto), IPCA-15 (agosto), IPC-S (3a leitura agosto);

Sexta-feira -- IPC-S Capitais (3a leitura agosto).

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