Senado prepara convocação trimestral do BC para cobrar satisfação
Publicado em 27/11/2006 16:53
Decisão, tomada pela Comissão de Assuntos Econômicos, só depende do plenário do Senado para passar a valer. Debate aumentaria controle sobre o BC e compensaria privilégio de economistas que participam de reuniões fechadas.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– Todo trimestre desde dezembro de 2000, diretores do Banco Central
participam de reuniões a portas fechadas com economistas em sua maioria
ligados ao sistema financeiro, setor que ganha ou perde dinheiro de
acordo com decisões tomadas pelo BC. As conversas, diz o BC, servem
para o banco aprofundar a análise sobre os rumos da economia e as
expectativas do “mercado”. A sociedade pouco sabe sobre os encontros,
porque ninguém, tanto do BC quanto do “mercado”, costuma falar a
respeito. É possível, contudo, que o público ganhe a oportunidade de,
também uma vez por trimestre, conhecer mais sobre o pensamento do Banco
Central. Só depende de o plenário do Senado endossar regra aprovada
nesta terça-feira (3) na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) da Casa.
Por
unanimidade, a CAE aprovou projeto que obriga o presidente do BC a
prestar contas periodicamente ao Congresso - uma vez a cada três –,
como acontece com o Federal Reserve (FED), o Banco Central
norte-americano. Pela proposta, o dirigente máximo do BC teria de
explicar a política de juros à CAE em fevereiro, abril, julho e
outubro, depois da divulgação do “relatório de inflação” que o BC
publica todo trimestre com uma análise detalhada sobre o comportamento
da economia brasileira. Como se trata de projeto de resolução do
Senado, não precisará ser votado na Câmara, caso aprovado pelos
senadores em plenário.
A prestação de contas do presidente do BC
foi proposta pelo presidente da CAE, Aloizio Mercadante (PT-SP). Para o
senador, por mais detalhados que sejam quaisquer relatórios do banco,
“nada substitui o debate direto com os responsáveis pela condução da
política monetária”. O petista diz ainda que o modelo de controle
exercido hoje pelo Congresso sobre o BC está ultrapassado – limita-se a
analisar documentos enviados com defasagem de tempo e com informações
que se tornaram pouco eficientes no regime de metas de inflação.
O
relator do projeto na CAE, senador Edison Lobão (PFL-MA), concordou com
a argumentação e apresentou parecer favorável à aprovação do projeto.
“É preciso aumentar a eficácia do acompanhamento, da avaliação e
fiscalização da política monetária por parte do Legislativo”, afirmou.
A justificativa convenceu a CAE. “É um avanço extraordinário no
controle social das ações do BC”, resumiu o senador Valter Pereira
(PMDB).
Relatório e reuniões fechadas
O “relatório
trimestral de inflação” que o presidente do BC teria de explicar ao
Senado, além das decisões sobre juros, é o documento mais completo e
importante do banco sobre suas avaliações a respeito de indicadores
como inflação e crescimento. A elaboração do texto é mais um motivo
alegado pelo BC para justificar as reuniões a portas fechadas com gente
do setor privado, como relatou a revista Carta Capital em reportagem
recente.
O mais recente relatório tornou-se público no dia 28 de
março. Durante a entrevista para comentar o documento, o diretor de
Política Econômica do BC, Mario Mesquita, um dos dirigentes que
participam de reuniões a portas fechadas, admitiu que as opiniões do
“mercado” são decisivas para o banco. “É importante para nossos
processos de decisão”, afirmou. Segundo ele, na versão atual do
documento, a análise privada teria tido relevância especial no que diz
respeito ao cenário internacional.
Mesquita negou que as
reuniões sejam secretas, mas não explicou porque elas não constam da
agenda dos diretores do BC, nem por que nenhum deles se pronuncia a
respeito, questionamentos que já tinham sido feitos pela revista Carta
Capital.























