O reflorestamento pode ter efeitos perversos na luta contra o aquecimento climático
Publicado em 27/11/2006 16:53
Um estudo mostra que uma plantação silvícola bombeia muita água no lençol freático e provoca uma salinização do solo.
Hervé Kempf
Enviado especial a Durham (Estados Unidos)
As árvores nem sempre são amigas dos ecossistemas - ao menos quando
elas são plantadas e tratadas da maneira das grandes culturas
agrícolas. Num estudo que está para ser publicado pelo "Journal of
Geophysical Research" (Jornal da Pesquisa Geofísica), Esteban Jobbagy
(da universidade de San Luis, Argentina) e Robert Jackson (da
universidade Duke, Estados Unidos) mostram que essas plantações
perturbam o ciclo hidrológico e a composição dos solos dos locais onde
elas são efetuadas.
Os
pesquisadores estudaram durante vários anos um sítio argentino onde o
ecossistema tradicional das ervas da pampa fica ao lado de uma cultura
de eucaliptos. Eles cavaram nesses dois meios, várias séries de poços
em diferentes profundidades, que lhes permitiram colher amostragens do
solo e da água de modo a analisá-las, e depois, compará-las. As
medições foram efetuadas ao longo de várias temporadas desde 2002. Além
do mais, um modelo informático foi utilizado para representar os fluxos
hidrológicos entre o solo e os lençóis freáticos.
O estudo
conclui que a plantação silvícola bombeia muita água no lençol freático
(até a metade das precipitações anuais) e provoca uma salinização do
solo (que fica 20 vezes mais salgado do que nas pradarias adjacentes).
Isso confirma uma análise coletiva baseada em várias centenas de
observações de plantações de árvores pelo mundo afora, publicada na
revista "Science" em dezembro de 2005, por Robert Jackson e seus
colegas: ela mostrava que se, em certos casos, como no Sahel (o
semi-árido norte-africano), as árvores plantadas têm um efeito
hidrológico positivo, as culturas florestais provocam em média uma
diminuição de 52% do escoamento da água nos terrenos considerados.
Como
explicar este fenômeno? Selecionadas por causa do seu crescimento
rápido, as árvores plantadas são muito exigentes em água, que elas vão
buscar por meio das suas raízes mais profundamente do que as ervas
diversas que elas vêm a substituir. Além disso, a interceptação da água
pelo sobrecéu da floresta, em contato direto com o ar-livre, e a sua
evaporação rápida impedem cerca de 20% das precipitações de alcançarem
o solo.
"Esses estudos mostram que não se pode considerar o
ciclo do carbono independentemente do ciclo da água", sublinha Robert
Jackson. "Os dois estão de mãos dadas". O pesquisador argumenta em
favor de uma análise ambiental preliminar, antes das plantações, ainda
que o seu desenvolvimento seja estimulado pelas perspectivas de se
conseguir produzir biocombustível com as árvores e pela possibilidade
de se incluir as plantações nos mecanismos do protocolo de Kyoto.
A
quantidade de carbono aprisionado pelas árvores seria, aliás, limitada:
"Nós calculamos que seria preciso plantar 44 milhões de hectares nos
Estados Unidos para simplesmente reduzir as emissões de gás carbônico
em 10%. Seria muito mais eficiente melhorar o rendimento energético do
parque automobilístico", garante Robert Jackson.
Esta discussão
ocorre no momento em que a próxima lei agrícola ("Farm bill"), que será
examinada pelo Congresso dos Estados Unidos no outono, poderia criar
fortes incentivos a se plantar árvores. Além disso, em muitas regiões
do mundo - entre outras na Argentina, na Austrália e na China -, a
plantação de árvores prossegue numa escala muito grande. O que não é
necessariamente uma boa notícia para o meio-ambiente.
Tradução: Jean-Yves de Neufville























