Valor on line
Assis Moreira
Propagação de doenças, fome, migração em massa. Para o pesquisador
brasileiro Ulisses Confaloniere, um dos autores do relatório das Nações
Unidas sobre potenciais catástrofes causadas pela mudança climática, o
governo brasileiro precisa com urgência ''tentar entender'' a ameaça
para a saúde da população. A seguir, trechos da entrevista concedida ao
Valor:
|
Valor:
Até que ponto o Brasil está vulnerável nos cenários desse relatório? |
|
Ulisses Confalonieri: A situação é preocupante. Mas falar em que
espaço de tempo haverá impacto, é outra coisa. Há projeções globais de
eventos climáticos extremos, tempestades, inundações, há modelos sobre
malária e dengue para o mundo inteiro, e para a África em particular.
Mas não há muito consenso. Dependendo do cenário de emissão de carbono,
cada um traz resultado diferente. Para o Brasil não há estudo
específico, mas redução de chuva em certas áreas é um problema sério, e
as populações do Nordeste e Norte estariam em alto risco. Já estão
hoje, sem os eventos extremos que os modelos de clima projetam. Há
possibilidade de exacerbação de doenças respiratórias crônicas por
conta do aumento da poluição. As zonas afetadas por escassez de água
são críticas, há sempre aumento de diarréia. |
|
Valor:
E o impacto na agricultura? |
|
Confalonieri: Os modelos de clima projetam para a primeira
metade deste século a redução na produção de alimentos nos trópicos,
por causa da redução de chuvas. Haveria ligeiro aumento no hemisfério
norte, com clima temperado. Onde há escassez de alimentos, há problema
de saúde nas populações e boa parte no Brasil compõe um quadro
vulnerável. O relatório projeta mais migração. Esses cenários ainda vão
ser feitos brevemente para o Brasil. Mas, se mudar o clima do Nordeste,
a leishmaníase visceral ( doença endêmica que ataca os orgãos internos)
tende a se redistribuir com migrações humanas. A malária da Amazônia já
se redistribui parcialmente com migrações dentro da própria região. Se
as migrações passam a ser de uma região para outra, há o risco de
redistribuição de doenças tropicais endêmicas. A própria dengue, que já
está praticamente no país inteiro, pode ter um período de transmissão
mais prolongado. |
|
Valor:
Haverá necessidade de mais medicamentos? |
|
Confalonieri: Haverá necessidade geral dos sistemas de saúde
melhorarem sua eficácia para controlar malária, dengue, doenças
vulneráveis à variação do clima. Haverá aumento da carga de doenças
globalmente e sobre os serviços de saúde. No Brasil, 80% da população
depende da saúde pública. Imagine então os estresses adicionais
causados pelas modificações ambientais e as conseqüências sociais e
econômicas na população. |
|
Valor:
O governo brasileiro está atento à dimensão do problema? |
|
Confalonieri: O Brasil está atrasado. O governo tem que tentar
entender o que significa mudança climática na área da saúde. Isso não é
um item importante na agenda saúde publica ainda. Falta o governo ter
um plano integrado de adaptação aos impactos climáticos, como já têm
outros países, inclusive da América do Sul. A Colômbia já tem seu
plano, que inclui saúde. O Brasil está atrasado, mas começa a abrir os
olhos. A ministra do Meio Ambiente, Marina da Silva, está se
mobilizando para para coordenar um órgão executivo. O governo precisará
criar sistemas de alerta para a defesa da população. É necessário
monitorar as populações que vivem áreas de risco, que são zonas urbanas
para chuvas intensas e inundações, zonas rurais para secas e
inundações. As populações de baixa renda, de baixa escolaridade e de
habitação precária são evidentemente as mais vulneráveis e estão
distribuídas em várias partes do país. As instituições de pesquisas e
as universidades brasileiras precisam produzir modelos de
vulnerabilidades. O Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, por sua
vez, é uma instância que deverá mobilizar também o setor de negócios. |