Legalização do aborto - Feministas vêem retorno de onda conservadora contra a prática
Publicado em 27/11/2006 16:53
Pesquisa mostrou que dois terços da população defendem que a lei, que autoriza o aborto somente em casos de estupro e risco para a mãe, permaneça como está. Ministro da Saúde fala em plebiscito, mas entidades apostam no acesso à informação pra mudar opinião da sociedade.
Bia Barbosa – Carta Maior
SÃO PAULO – Neste domingo (8), o jornal Folha de S.Paulo publicou
dados da última pesquisa Datafolha acerca da opinião da população sobre
mudanças na legislação que autoriza o aborto no Brasil. Pela lei em
vigor, a interrupção da gravidez só é autorizada em casos de estupro e
quando a vida da gestante corre risco. O levantamento divulgado,
realizado no final de março, mostra que 65% dos entrevistados defendem
a manutenção da lei atual, sem ampliação da autorização para outras
situações de gravidez. Segundo o instituto de pesquisa, este é o maior
índice verificado desde que a pesquisa começou a ser feita, em 1993. Há
14 anos, 54% da população defendiam a manutenção da lei. Em paralelo,
23% apoiavam que o aborto fosse legalizado em outros casos. Hoje, este
número caiu para 16%.
Na avaliação de entidades que compõem o
movimento feminista, os resultados refletem a visão conservadora
crescente na sociedade brasileira e os resultados das recentes
articulações contra o aborto. No último dia 24 de março, mais de cinco
mil pessoas participaram de uma manifestação em São Paulo, organizada
pelo Movimento Nacional em Defesa da Vida, formado sobretudo por grupos
religiosos, contra mudanças na legislação que regula a prática no país.
O movimento se posiciona contrário ao Projeto de Lei nº 1135/91, em
tramitação na Câmara dos Deputados, que permite o aborto em outras
situações.O evento contou com a presença do padre Marcelo Rossi e teve
como ícone uma criança de quatro meses que nasceu acéfala e que,
contrariando as previsões médicas, ainda está viva.
“A forma
ofensiva como esses grupos têm tratado a questão sensibiliza a
população e ajuda na mudança de opinião”, avalia Sônia Coelho,
integrante da SOF – Sempreviva Organização Feminista e da Marcha
Mundial das Mulheres. “Mesmo na campanha eleitoral, a questão foi
tratada desta forma e nós, dos movimentos sociais, e até os partidos de
esquerda ficamos retraídos na discussão”, acredita.
Na opinião
da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), muito desta disputa tem
se dado através da grande mídia, que, em sua maioria, tem uma posição
contrária a legalização do aborto. Para a educadora Carla Batista,
secretária-executiva da AMB, muito espaço tem sido aberto aos setores
mais conservadores, enquanto aqueles que se contrapõem e combatem a
criminalização do aborto não encontram repercussão nos principais
veículos de comunicação.
“A grande mídia tem um papel
posicionado nessa história. E isso facilita que a questão do aborto
seja encarada a partir de uma visão religiosa, faz com que o debate não
seja levado pro campo laico, que é onde deve ser colocada a discussão
de políticas públicas e de defesa dos direitos das minorias”, afirma.
“Há muito dinheiro sendo investido para que este comportamento mais
conservador da sociedade seja reconsiderado. Desde o início do governo
Bush, por exemplo, o Estado norte-americano tem investido nesta questão
não só dentro dos Estados Unidos. O Brasil está exposto a isso, e daí
vemos um crescimento de organizações na sociedade que têm um grande
poder de construir opinião porque tem mais acesso aos meios de
comunicação do que os movimentos sociais”, explica Carla.
Cultura e acesso à informação
Um
dos maiores desafios do movimento de mulheres é mudar a cultura da
visão do aborto como crime. Segundo elas, no Brasil, quem faz e se
submete a este tipo de intervenção é considerado assassino. “Por isso é
normal que as pessoas se declarem contra o aborto. Quando, nas
comunidades, iniciamos um diálogo com as mulheres sobre o assunto, a
maioria se coloca contrária, mesmo que muitas já tenham feito ou tenham
pessoas na família que fizeram. Elas entendem que praticaram algo
errado porque isso está colocado na sociedade. Não têm nem a dimensão
de que, em outros países, isso não é crime. Mas, a medida que vão
discutindo, mudam de opinião”, explica Sônia Coelho.
A
pesquisa do Datafolha faz recortes por escolaridade, renda e região do
país que revelam que os maiores índices favoráveis à manutenção da lei
atual que regula a prática estão concentrados na parcela da população
com ensino fundamental, renda até cinco salários mínimos e moradora da
região nordeste. Fica claro, portanto, que a cultura e o acesso à
informação são determinantes na opinião dos brasileiros sobre o aborto.
A AMB cita o exemplo da própria mudança que aconteceu em
relação ao aborto nos casos de estupro e de risco para a gestante. No
final dos anos 80 e início da década de 90, quando os serviços de
aborto legal – para esses dois casos – foram implantados, a maior parte
da população era contrária à prática em qualquer situação. “Se hoje 65%
da população acham que a lei deve continuar como está, é porque esses
casos já são compreendidos pela população como um direito a ser
garantido a todas as mulheres que queiram recorrer à interrupção da
gravidez”, avalia Carla. “Antes não havia debate sobre isso, e a
instalação dos serviços fez com que a sociedade mudasse de opinião”.
Na
opinião da educadora, se o aborto em casos de anencefalia fosse
legalizado, em alguns anos a visão da sociedade também mudaria em
relação a este caso. “O fato de legalizar uma situação significa criar
outra institucionalidade na sociedade pra dar resposta a este problema.
Quando as pessoas começam a conviver com o resultado dessa mudança, há
uma grande possibilidade de alteração no posicionamento da sociedade. A
institucionalidade quebra a resistência, enquanto continuar tratando
como crime cria barreiras”, diz.
Para a organização feminista
Católicas Pelo Direito de Decidir, enquanto a lei continuar
crimininalizando a decisão das mulheres de interromper uma gestação e
não houver a regulamentação da prática, o Estado e os grupos contrários
à alteração da lei continuarão empurrando as mulheres brasileiras para
o aborto clandestino e para a morte.
Debate público
No
mês passado, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um
projeto de decreto legislativo que propõe a realização de plebiscitos
no país, incluindo uma consulta à população acerca da legalização do
aborto. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, também veio a público
defender a idéia, a partir de uma visão do tema como uma questão de
saúde pública, levantando os riscos para a vida das mulheres de uma
interrupção feita em condições precárias. O debate, sempre polêmico,
voltou à tona então na sociedade. Em Portugal, no início do ano, um
plebiscito resultou na aprovação do aborto até a décima semana de
gravidez.
Apesar de considerarem bastante positiva a iniciativa
do ministro Temporão, de reabrir o debate a partir de outra
perspectiva, as organizações do movimento feminista e de mulheres
discordam do mecanismo para definição sobre este tipo de matéria.
“Um
grande desafio que a democracia tem é como garantir o direito das
maiorias em convivência com o das minorias; como fazer que o direito
das minorias exista diante da maioria – que se manifesta, por exemplo,
nos plebiscitos. A questão do aborto não é para uma decisão de maioria
e por isso não deve ser levada para plebiscito. É um direito humano,
fundamental, algo que não pode ser questionado pela população”, afirma
Carta Batista, que também integra as Jornadas Brasileiras pelo Direito
ao Aborto Legal e Seguro, uma iniciativa de vários setores da sociedade
civil que defendem a causa.
No dia 9 de maio, o papa chega a
São Paulo para uma visita de cinco dias ao Brasil. Na mala, Bento XVI
trará seu forte discurso conservador de criminalização do aborto, o
que, para as feministas, pode resultar em maior sensibilização da
sociedade contra a prática. A idéia, no entanto, não é partir para um
enfrentamento direto – até porque a situação, em si, já é desfavorável
ao grupos que defendem a legalização. Para as mulheres, a luta deve se
dar de forma cotidiana, como já vem sendo feito. “Desconstruir todos os
preconceitos e equívocos que existem em relação ao aborto é um trabalho
permanente. E é isso que continuaremos a fazer, porque, quando o debate
acontece de fato, as pessoas mudam seu entendimento”, conclui Carla
Batista.























