Governo deve desmilitarizar 1.500 e FAB dá 45 dias para rebeldes deixarem farda
Publicado em 27/11/2006 16:53
Em carta, comandante critica grevistas
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Tânia Monteiro e Fabio Graner, BRASÍLIA
Para surpresa dos controladores, a tão sonhada desmilitarização do
tráfego aéreo deve vir muito mais rápido do que esperavam. O governo
pretende assinar amanhã uma medida provisória transferindo 1.500 dos
2.400 controladores militares para o novo Controle da Circulação Aérea
Geral, de caráter civil, que será vinculado ao Ministério da Defesa. Em
contrapartida, para resolver a crise criada com a decisão de não
prender os militares amotinados na sexta-feira, a Aeronáutica
estabeleceu um prazo de 45 dias para que os controladores deixem por
completo todas as dependências da FAB.
Os
operadores do Cindacta-4, em Manaus, receberam no sábado documento
assinado pelo comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro-do-ar
Juniti Saito, no qual condena a ação dos servidores que paralisaram o
País na sexta-feira - ontem, 20,4% dos vôos apresentavam atrasos de
mais de uma hora, apesar de grande número de aeroportos funcionar
ininterruptamente desde a manhã do sábado. No mesmo documento, o
brigadeiro afirma que os controladores “infringiram a disciplina e a
hierarquia militar” e, por isso, devem deixar a Aeronáutica. O
comandante sugere que os servidores passem a ser subordinados a um
órgão civil.
Depois de tomarem conhecimento do teor do texto
enviado por Saito, os controladores receberam um questionário e tiveram
de responder, entre outros quesitos, se querem permanecer na Força
Aérea Brasileira (FAB). Dezenas já optaram pelo abandono da vida
militar.
A essência da MP da desmilitarização será fechada hoje,
em reunião no Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os
ministros da Defesa, da Casa Civil e do Planejamento, além do
comandante da Aeronáutica. Amanhã, os controladores estarão no Planalto
e terão acesso à medida provisória.
Saito já havia comunicado ao
governo, em reunião sexta-feira à noite, que era preciso desligar os
amotinados da FAB o quanto antes, “porque não há mais ambiente para
eles trabalharem lá (nos Cindactas)”. Portanto, a expectativa é de que,
amanhã, com a edição da MP criando a nova agência, os controladores já
iniciarão o processo de saída dos quadros militares e até poderão ir
trabalhar sem farda.
O ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, disse ao Estado que ainda não há previsão do volume de
recursos que será empregado na reestruturação do sistema de controle
aéreo. Tampouco está definida qual será a gratificação prometida aos
controladores, embora se fale que possa chegar a R$ 3 mil. “Será feito
um mapeamento detalhado dos investimentos que precisarão ser feitos
nesse processo”, afirmou o ministro, explicando que será necessário
contratar cerca de 1.500 controladores por concurso público.
“O
presidente Lula é quem vai definir tudo”, declarou Paulo Bernardo. Ele
ressaltou que avisou os controladores, na reunião da sexta-feira, no
Cindacta-1, na qual foi fechado o acordo para que eles encerrassem o
movimento, que a categoria deveria ser incluída na nova lei de greve,
em gestação no governo, que vai limitar a paralisação de setores
essenciais.
Paulo Bernardo, que por determinação do presidente
conduziu as negociações, contou que a reunião começou tensa, com os
controladores demonstrando irritação com o diálogo truncado com o
comando da FAB. “Buscamos tranqüilizar os controladores para avançar no
diálogo, deixamos claro que não haveria punições.”
“O importante
é a sinalização do governo de que a desmilitarização vai acontecer e
terá prazo para ser concluída”, afirmou o presidente da Associação
Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo (ABCTA), Wellington
Rodrigues. Segundo ele, cerca de 90% dos 2.200 controladores militares
querem aderir ao sistema civil. Para a primeira migração, o critério
deverá o de prova de títulos. Depois, só por concurso.
Os
militares terão de assinar um termo de adesão voluntária, pelo qual
perderão a patente militar, e um contrato com a futura agência que
cuidará do controle de tráfego aéreo. Os que não quiserem migrar
permanecerão com suas patentes, mas serão desligados da aviação civil e
serão remanejados para o controle de tráfego aéreo das bases militares.
CRIMES
Na
visão de oficiais ouvidos pelo Estado, os amotinados praticaram crimes
previstos no Código Penal Militar e, para evitar que eles “contaminem”
o restante da tropa, devem ser afastados. “Já que esses sargentos não
serão punidos, o ideal é que saiam do nosso convívio o quanto antes”,
diz um oficial da FAB.
A maior preocupação dos militares agora é
com um eventual efeito cascata que a anistia dos sargentos amotinados
poderá ter, não só na Aeronáutica, mas também nas demais Forças. Na
FAB, por exemplo, existem outros sargentos envolvidos no tráfego aéreo,
mas que não trabalham diretamente como controladores - são responsáveis
pela manutenção do sistema de radionavegação e dos radares.
A
proposta do Alto Comando é que, com a criação do órgão civil, os
profissionais que optarem pela carreira civil sejam transferidos para
outros prédios. O governo teria de fazer um investimento inicial para a
construção dessas novas bases.
COLABORARAM BRUNO TAVARES, VANNILDO MENDES e ANDRÉ ALVES, ESPECIAL PARA O ESTADO























