Governo arma estratégia para renovar tributo e liberdade de gasto
Publicado em 27/11/2006 16:53
Vitais para pagamento de juros ao ‘mercado’, CPMF e Desvinculação de Receitas da União vencem em dezembro. Para garantir, no Congresso, renovação até 2011, governo promete mais verba a prefeitos e isentar empréstimos de CPMF.
André Barrocal – Carta Maior
BRASÍLIA
– O dinheiro da CPMF e a permissão, chamada DRU (Desvinculação de
Receitas da União), para gastar como quiser 20% do que arrecada - não
importa se a Constituição manda um determinado imposto ser aplicado
numa área específica - são essenciais para a política do governo de
pagamento sistemático de juros da dívida ao “mercado” (superávit
primário). Por isso, o governo não quer abrir mão da CPMF e da DRU e
vai brigar no Congresso para renová-las por mais quatro anos – sua
vigência acaba em dezembro. Para facilitar o embate e arrancar dos
parlamentares a prorrogação de duas medidas impopulares, o Executivo
traçou uma estratégia inicial que se tornou pública nesta terça-feira
(10). Acenou com uma benesse fiscal a empresários e trabalhadores e com
mais dinheiro para prefeituras.
O reforço no caixa dos prefeitos
foi prometido pelo presidente Lula, que participou da abertura da X
Marcha em Defesa dos Municípios. No discurso de abertura da Marcha,
Lula disse que orientou seus aliados no Congresso a votar a favor do
aumento de um ponto percentual na fatia de impostos federais repartida
com as prefeituras.
Segundo o presidente, a orientação foi
dada na véspera, durante reunião com dirigentes de partidos aliados do
governo. A reunião serviu justamente para discutir como enfrentar
politicamente a batalha em torno da CPMF e da DRU. “Foi dada ordem à
base do governo para que vote separadamente ou encontre um jeito de
votar o 1% para os municípios resolverem parte dos seus problemas”,
afirmou o presidente.
A promessa de mais recursos ao Fundo de
Participação dos Municípios (FPM) já tinha sido feita na primeira
gestão Lula e na Marcha dos municípios do ano passado. Mas a idéia
ficou paralisada até agora para ser usada como moeda de troca em alguma
negociação difícil do governo com o Congresso, como é o caso da
manutenção da CPMF e da DRU. Ao oferecer mais FPM, o governo espera que
os prefeitos ajudem a pressionar os parlamentares de suas regiões para
que votem a favor da renovação das duas medidas.
Benesse fiscal
Na
mesma reunião da última segunda-feira (9), os parlamentares disseram
que o governo teria de oferecer alguma “bondade” à sociedade, fazer
alguma concessão fiscal, para tornar mais palatável a renovação de um
tributo que engorda os cofres do governo com cerca de R$ 35 bilhões
anuais, como é a CPMF. Do contrário, ficaria difícil apoiar a
renovação. A benesse fiscal que o governo aceita também foi anunciada
nesta terça-feira.
Segundo o ministro da Fazenda, Guido
Mantega, o governo vai isentar empréstimos de qualquer tipo da cobrança
de CPMF – hoje, para sacar o crédito, o tomador é taxado. “Os líderes
[da base aliada] queriam um sinal de redução da CPMF e isso foi feito.
Estamos reduzindo para aquelas atividades que queremos estimular”,
disse o ministro. “Com isso, está reduzindo o custo dos empréstimos e
beneficiando toda a sociedade, porque todo mundo pega empréstimo”,
completou Mantega.
A isenção dos empréstimos vai significar uma
perda de R$ 4 bilhões por ano. Como “o valor não é desprezível”,
segundo o ministro, ainda não está certo se a isenção vai ser feita de
uma vez só ou parcelada no tempo.
Embora a isenção seja de
CPMF e esteja sendo acertada em meio à negociação para renovar o
tributo, ela não vai fazer parte do projeto que o governo deve mandar
ao Congresso nos próximos dias propondo renovar CPMF e DRU até 2011.
Essa isenção só depende um ato voluntário da equipe econômica.
De
qualquer maneira, se trata de uma benesse considerada fundamental pelos
articuladores políticos do governo para encarar mais uma vez a
impopular defesa da CPMF e da DRU, como ocorreu em 2003, primeiro ano
da era Lula.
Criada para ser provisória, a CPMF sobrevive no
sistema tributário nacional contra a vontade do empresariado, que se
queixa da quantidade de impostos pagos – como repassam os tributos aos
preços, vendem menos do que poderiam, e por isso lucram menos – e
também dos trabalhadores.
No caso da Desvinculação das Receitas
da União (DRU), trata-se de mecanismo nascido junto com o superávit
primário que ajuda a desfalcar, por exemplo, gastos do governo com
políticas sociais. Daí a DRU ser condenada pelos movimentos sociais.























