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Famílias pagam conta gerada por falta de investimento nas políticas sociais, afirma Ipea

Publicado em 27/11/2006 16:53

Agência Brasil
Juliana Andrade e Marcela Rebelo
Repórteres da Agência Brasil


Brasília - O Brasil vive hoje uma "universalização restrita" no campo das políticas sociais, na avaliação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ou seja, apesar de a Constituição de 1988 garantir o acesso de todos os cidadãos brasileiros a serviços como saúde e educação, na prática, a falta de investimentos por parte do Estado faz com que as famílias usem seu próprio dinheiro para obter esses serviços, quando pagam impostos para tê-los gratuitamente.

A conclusão está na 13ª edição do Boletim Políticas Sociais: Acompanhamento e Análise, divulgada na quinta-feira (12) pelo Ipea. Segundo o pesquisador do Ipea Guilherme Delgado, a situação do Sistema Único de Saúde ilustra o problema. “O SUS, por exemplo, é um sistema universal, mas você não tem investimento em redes de hospitais, postos de saúde, que permita o acesso de quem precisa. Ou seja, você tem um sistema nominalmente universal, mas a falta de investimento em equipamento e recursos capazes de atender a demanda torna a universalização restrita.”

Quem não consegue atendimento na rede pública, aponta o estudo, é empurrado para os serviços privados. “A privatização da oferta de serviços públicos é uma forma de transferir parte significativa do financiamento de bens e serviços sociais diretamente às próprias famílias, que são obrigadas a assumir custos crescentes e redução da renda disponível em razão da ausência ou precariedade da provisão pública, em especial nas áreas de saúde, previdência e educação”, diz o texto.

A publicação destaca, no entanto, que foi necessária em alguns momentos a focalização das políticas públicas, com a definição de um público específico para receber um dado benefício. Entre 1995 e 2005, período analisado pelo Ipea, a focalização das políticas sociais no combate direto à pobreza foi uma característica importante.

“Na sociedade brasileira, que tem uma massa muito grande de pessoas que nem sequer você sabe o tipo de trabalho que ela faz, onde mora, onde trabalha, sobra muita gente que não acessa os aparatos da política universal. Então as ações focalizadas na linha da pobreza terminam sendo um complemento necessário a qualquer política universal”, complementa Delgado.

De acordo com o boletim, a política federal de transferência de renda – que começou a se organizar em 2001, com a criação dos programas Bolsa-Escola e Bolsa-Alimentação – se consolida em 2003, com o programa Bolsa Família. Com isso, houve a unificação de todos os programas existentes, “apontando para a universalização da cobertura para todas as famílias em situação de pobreza”.

O pesquisador ressalta que a universalização é, de qualquer forma, o melhor caminho e a meta a ser perseguida. “A tendência de universalização seria o ideal em uma sociedade em que você tenha que ter muito mais recursos, muito mais capacidade de atendimento, seria o ideal do ponto de vista ético”, diz ele. “Mas a focalização no início foi importante para poder resolver problemas e demandas imediatas que de outra forma não chegariam ao sistema público”, ressalva. "Política social vai ter sempre um componente focalizado, mas que seja residual e complementar, e não seja o eixo ou o centro da política social. O centro da política social deve visar à universalização."

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