Brasil não deve adotar circuncisão como política de combate à aids
Publicado em 27/11/2006 16:53
Irene Lôbo
Repórter da Agência Brasil
Brasília - Um estudo em discussão na Organização Mundial da Saúde (OMS)
sugere a circuncisão (a retirada da pele que envolve o pênis) como
medida de combate ao HIV em alguns países do mundo. Contudo, segundo a
assessora técnica do Programa Nacional de DST/aids do Ministério da
Saúde, Mariângela Simão, não há perspectiva de que o governo adote a
prática da circuncisão como política de saúde para evitar a
contaminação pelo vírus da aids.
De acordo com o estudo da OMS,
a prática da circuncisão somente é aplicável em países onde a epidemia
da aids atinge mais de 15% da população, caso de alguns países
africanos. Nesse contexto, ficam de fora todos os países da América
Latina, entre eles o Brasil, onde a epidemia atinge 0,6% dos
brasileiros.
Segundo Mariângela Simão, outro problema da
circuncisão é que, como medida para evitar a aids, a cirurgia só
protege a transmissão da mulher para o homem, e não o contrário. Ou
seja, só os homens ficam protegidos. Também não há, segundo a diretora,
dados que comprovem a diminuição da transmissão do vírus HIV entre
homossexuais.
“Acho um pouco surpreendente e até temerárias
essas recomendações da Organização Mundial da Saúde e do Programa das
Nações Unidas para o HIV/aids (Unaids). Ele (o estudo) tem um potencial
de saúde pública muito focado”, critica Mariângela. “Passa uma mensagem
que pode ser até de falsa proteção. Então eu fiz circuncisão e posso
transar sem camisinha que eu não tenho risco? Isso não é verdade”.
Ela
teme ainda que os recursos dos países desenvolvidos que hoje são
utilizados no tratamento da doença sejam redirecionados para a
realização da cirurgia nos países onde a medida é recomendada. “Tem
muito recurso hoje para a aids no mundo, mas ainda não é suficiente
para que todas as pessoas tenham tratamento. Então essa medida poderia
causar um desvio dos recursos que devem ser utilizados no tratamento”,
afirma.
Para o diretor científico da Sociedade Brasileira de
Infectologia (SBI), Alexandre Cunha, a circuncisão pode ser útil para
os países onde não há disponibilidade de preservativo para toda a
população. Ele explica que a cirurgia não evita a infecção pelo vírus
da aids, apenas diminui a probabilidade de penetração do vírus.
No
caso do Brasil, o médico recomenda que a população continue usando o
preservativo para evitar a contaminação com o vírus da aids. “Num país
como o nosso o preservativo é insubstituível, e de maneira alguma se
pode abrir mão do preservativo e achar que por ter feito a cirurgia
está imune ao contágio”, explica o especialista.
Mariângela
Simão diz que as pessoas que optarem por realizar a cirurgia, devem
usar o preservativo de forma complementar. Além disso, ela informa que
após a cirurgia é preciso ficar seis semanas sem ter relações sexuais
para evitar infecções. "A gente trabalha com informação para a
população sobre os meios de se proteger da aids, e o meio mais
conhecido e mais eficaz até o momento ainda é o uso consistente do
preservativo".























