Aprender com o Sul
Publicado em 27/11/2006 16:53
A América Latina está hoje na vanguarda da reinvenção do Estado, da democracia e da esquerda, e a Bolívia é talvez o país mais avançado neste domínio. Não deixa de ser sintomático que sejam os excluídos dos excluídos, os povos indígenas, a protagonizar este processo.
Boaventura de Sousa Santos
Quando,
em 1537, decretou na bula Sublimis Deus que os índios tinham alma, o
Papa Paulo III abriu um longo processo histórico que se encerrou com a
eleição, em 2005, do primeiro índio presidente de um país, Evo Morales,
na Bolívia. Com 62% de população indígena, a Bolívia é um dos países da
América Latina mais ricos em recursos naturais e um dos mais pobres.
Este contraste, que, aliás, caracteriza muitos outros países do Sul
global, bastaria para fazer um juízo sobre o “modelo de
desenvolvimento” que o colonialismo e o capitalismo impuseram à grande
maioria da população do mundo nos últimos cinco séculos.
Mas,
melhor que juízos éticos, falam as resistências e as alternativas de
que novos atores sociais e novas práticas transformadoras vão dando
testemunho um pouco por toda parte. Aproveitando a oportunidade
histórica que lhe foi dada pelo imperialismo norte-americano, ao
concentrar-se, na última década, nas riquezas petrolíferas do Oriente
Médio, a América Latina está hoje na vanguarda da reinvenção do Estado,
da democracia e da esquerda, e a Bolívia é talvez o país mais avançado
neste domínio. Não deixa de ser sintomático que sejam os excluídos dos
excluídos, os povos indígenas, a protagonizar este processo.
Depois
de duas semanas de trabalho intenso com os líderes dos movimentos
indígenas, de camponeses, de mulheres e de deputados da Assembléia
Constituinte apostados na refundação do Estado boliviano, chego à
conclusão de que o grande problema da esquerda européia e
norte-americana reside em continuar a pensar em termos de teorias que
foram desenvolvidas em seis países do Norte global (Inglaterra,
Alemanha, França, Itália, União Soviética e EUA), enquanto as práticas
de transformação social mais inovadoras estão a ocorrer no Sul global.
Esta
discrepância, que produz uma cegueira arrogante e uma estagnação
disfarçada de complexidade, vai durar muito tempo, enquanto a idéia de
progresso continuar a impedir os países mais desenvolvidos de aprender
com os países menos desenvolvidos. O seu custo maior é impossibilitar a
emergência de formas não colonialistas de solidariedade entre as forças
progressistas do Sul e do Norte.
Como me dizia uma grande
líder indígena, sempre olhamos para a Europa como uma possível
alternativa, mas, com tristeza, verificamos que já nem sequer no modelo
social europeu acreditam; pelo que vemos, a diferença entre a direita e
a esquerda européias é a opção pela privatização mais ou menos selvagem
dos serviços públicos, e surpreende que não vejam uma relação entre tal
política e o aumento da criminalidade, da desigualdade social, da
corrupção e do racismo.
O processo boliviano é frágil e de
desfecho incerto. Em Santa Cruz de la Sierra, centro do capitalismo
agrário, vi deputados constituintes indígenas serem insultados e
agredidos por grupos de extrema direita. O que me impressionou na
atitude dos deputados foi que, em contraste com a esquerda européia
hegemônica, são militantes de causas, não são funcionários de coisas.
Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).























